Chegou a vez de Israel

Há alguns anos, a seleção de Israel vem se aproximando da conquista de vaga em uma grande competição. Nas recém-concluídas eliminatórias para a Euro-2008, por exemplo, o time obteve a mesma pontuação da Inglaterra, ficando apenas um ponto atrás da classificada Rússia, de quem ganhou no confronto direto − empatou em Moscou e venceu em casa. Na qualificação para o Mundial de 2006, a equipe não perdeu uma partida sequer, mas foi derrubada pelo saldo de gols, inferior ao da Suíça.

Nesses dois “quases” de Israel, havia, em seu grupo, uma grande potência e respeitáveis forças medianas − Inglaterra, Croácia e Rússia, no primeiro caso, e França, Suíça e Irlanda, no segundo. Nas Eliminatórias para 2010, a situação é bem diferente. Devido às boas campanhas recentes, Israel conseguiu um lugar no pote 2 do sorteio, o que significava ter pela frente apenas um adversário em tese mais forte. Essa regalia já era interessante, mas a surpresa preparada pelo sorteio revelou-se ainda melhor. Nada de Itália, França, Alemanha ou Holanda. A seleção que saiu do pote 1 para compor o grupo de Israel foi a Grécia.

Obviamente, a Grécia não é uma presa fácil. Porém, não se discute que brigar com os gregos soa mais ameno do que enfrentar italianos, alemães, franceses e holandeses. Ou até portugueses e espanhóis. Apesar de ostentar a insígnia de atual campeã européia, a Grécia só foi a uma Copa do Mundo (a de 1994) e não provoca o mesmo medo. Além do time dirigido por Otto Rehagel, Israel terá de superar Moldova, Letônia, Luxemburgo e Suíça, dos quais somente esta última representa ameaça. Como se vê, a chave de Israel tem cara de “grupo da vida”.

O abençoado sorteio gerou certa euforia no futebol israelense. Avi Luzon, presidente da federação do país, e o capitão Yossi Benayoun deram declarações muito otimistas, reconhecendo que as condições não poderiam ser melhores. E será que Israel tem mesmo time para arcar com essa responsabilidade? Crê-se que sim. Em todos os setores do time, há figurinhas carimbadas. Na baliza, Dudu Aouate do Deportivo La Coruña. Na defesa, Tal Ben Haim, do Chelsea. No meio, Benayoun, do Liverpool, e Idan Tal (ex-Everton e Bolton). No ataque, Roberto Colautti, do Borussia Mönchengladbach, jogador nascido na Argentina. Jovens promessas como Toto Tamuz (19 anos) e Ben Sahar (18) podem ganhar espaço e incrementar a produção ofensiva.

O técnico é o experiente Dror Kashtan, vencedor de seis campeonatos israelenses, por quatro clubes diferentes. Ele é o sucessor de Avram Grant, hoje no Chelsea, que executou elogiável trabalho entre 2002 e 2006. Kashtan tem a seu dispor alguns jogadores de origem árabe, como Abbas Suan e Walid Badir, recorrentes vítimas de racismo nos estádios de Israel. Nas eliminatórias para a Copa de 2006, duas partidas consecutivas, contra Irlanda e França, foram empatadas, nos acréscimos, por gols de Suan e Badir, respectivamente. “Não-judeus significam gols” foi a manchete que um jornal local estampou, na ocasião. Não há dúvida de que a seleção de Israel tem, além de seus objetivos esportivos, a missão de aplacar a discriminação dentro do país, estimulando uma coexistência pacífica.

De 1970 a 2010

Caso seja bem-sucedida em sua empreitada, a seleção de Israel terá chegado pela segunda vez a um Mundial. Em 1970, o time foi ao México, após ter passado por eliminatórias que misturaram equipes da Ásia e da Oceania. Essa geração era encabeçada por Mordechai Spiegler, autor do único gol de Israel em Copas, assinalado contra a Suécia. O gol e as boas atuações conferiram a Spiegler alguma fama e lhe renderam uma transferência para o Paris Saint Germain. Posteriormente, ele ainda faria uma incursão no futebol norte-americano − jogou no New York Cosmos, ao lado de Pelé e outros veteranos craques.

Na década de 70, a seleção israelense pertencia à confederação asiática, pela qual chegou a sagrar-se campeã continental, em 1964. Quando sua permanência nas disputas asiáticas tornou-se insustentável, Israel virou nômade. Deu-se uma espécie de diáspora futebolística. O país fez, no início dos anos 80, uma incursão nas eliminatórias européias, algo que já havia acontecido em 54, 62 e 66. E fracassou, terminando a competição na lanterna de seu grupo. Participou das eliminatórias para 1986 e 1990 como membro da confederação da Oceania. Poderia ter eliminado a Colômbia de Valderrama e Higuita da Copa de 1990, num play-off entre representantes da Oceania e da América do Sul. No estádio Ramat Gan, houve empate sem gols, e a Colômbia venceu por 1 a 0 em Bogotá.

Esse confronto com a Colômbia fez da seleção de Israel a única no planeta a ter disputado jogos válidos por eliminatórias de Copa contra países de todos os continentes. Em 1961, um duelo contra a Etiópia havia registrado o componente africano dessa verdadeira descoberta do mundo.

Em 1992, Israel filiou-se à Uefa. A nova e fixa residência lhe fez muito bem. O contato com grandes clubes e seleções do futebol europeu ajudou a desenvolver o futebol no país, atraindo investimentos e patrocinadores. Surgiram jogadores como Eyal Berkovic, que defendeu clubes britânicos por quase uma década. Nas eliminatórias para a Copa de 1994, os efeitos da mudança de ares ainda não podiam ser sentidos, e a seleção israelense ficou na última colocação de seu grupo. Isso não a impediu de aprontar uma inesquecível travessura: no Parc des Princes, derrotou a França por 3 a 2, resultado que, no fim das contas, acabou tirando os Bleus do Mundial dos EUA.

Nas três eliminatórias seguintes (1998, 2002 e 2006), Israel não perdeu nenhuma partida em casa. O ótimo aproveitamento em seus domínios é, também, um dos trunfos com que os israelenses contam na disputa por uma vaga na Copa de 2010.

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