Cem Anos de Solidão (entre blues e noite)

“I
I'm a new day rising
I'm a brand new sky to hang the stars upon tonight
but I
I'm a little divided
do I stay or run away and leave it all behind”
(Foo Fighters)

O dia dez de março de 2008 foi cinzento e chuvoso. Era um momento ruim em minha vida. Eu estava desempregado e passava os meus dias negando o peso da minha própria existência, um substrato schopenhaueriano. Trocava o dia pela noite e jogava as madrugadas fora ouvindo discos de Van Morrison, Black Sabbath e promiscuos arquívos em Mp3. Os últimos trocados que haviam em meu bolso pagaram a garrafa de refrigerante que consumi para poder acompanhar o desfecho de uma tragédia anunciada duas ou três semanas antes do crepúsculo que não vi naquele dia.

Eu estava numa lanchonete qualquer e com certeza Massimo Moratti estava nas tribunas de Giuseppe Meaza. O que será que se passava pela cabeça do presidente da Inter um dia após o clube completar seu centenário? O que poderia ser pior do que a sina de um cara que vive à sombra de algo ou alguém? Sem querer, evoca-se a imagem de um Buendia tragicamente atrelado a generosas ilusões sul-americanas. Com certeza Massimo aprendeu a amar a Internazionale ao ver seu pai presidir uma era dourada. Será que ele se sente um perdedor? Massimo tem o mundo em seus gramados mas não conseguia conquistar nada além de seus próprios horizontes.

Fico a imaginar aquele magnata solitário numa sala suntuosa ou em qualquer lugar onde pudesse estar consigo mesmo. Uma página num diário pessoal que jamais será lido por alguém ele poderia estar a escrever: “Hoje olho para esse gramado verdejante. ‘Azzuli’ em inglês é sinônimo da tristeza solitária que clama pelo lamento das guitarras. A partida que acabou de se encerrar foi digna de um blues. Pudera eu estar num pub em Liverpool onde agora um rubro furor estará tomando conta das ruas. Ousei tornar-me um conquistador. Lancei-me ao azul do mar e quase me afoguei antes de alcançar as areias de uma praia tropical. Naquela areia distante meninos radiantes chuvatam uma bola dourada. Meus olhos já não podiam diferenciar lúcidas silhuetas de ébrios dribles dionisiacos. Ousei trazer para os meus gramados meninos que chutavam uma bola dourada. Como um alquimista acreditei que poderia verter couro em ouro. Há algo de misterioso nas entrelinhas do destino. Ronaldo padeceu com seu joelho direito vestindo o manto ‘neroazzuli’ num estádio batizado Olímpico. A pouco padeceu do joelho esquerdo trajando a malha ‘rossoneri’. Um dez de março tão doloroso quanto o cinco de maio que vivi quando tive Ronaldo em meus gramados. O menino da bola dourada se perdeu em lágrimas. Hoje Rivas parecia nervoso enquanto Cambiasso tombava pateticamente em sua própria área. As bolas que Ibrahimovic chutava desviavam da meta num passe de mágica. Fui derrotado novamente. O que se aprende com tantas derrotas? Ter Roberto Baggio foi belo e melancólico ao mesmo tempo. Hoje sinto a mesma frustração que consumiu a alma do ‘codino divino’ na marca daquele penalti a ter um escaldante sol yankee por testemunha. O silêncio de Giuseppe Meaza parece me condenar. Envolto neste manto azul me entrego ao silêncio da noite. Papa, perdoname”.

Pudera o acaso fazer com que Massimo se encantasse com outro clube. Deus, porém não joga dados e o futebol é uma cigana lascíva que cega garotos inocentes e os fazem esquecer que há um mundo a ser conquistado além do horizonte. Se eu pudesse encontrar Massimo num pub pegaria minha última moeda, iria até a jukebox e perguntaria a ele: ‘Eric Clapton ou Jeff Beck? Por que não, um tango?’
 

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