Bournemouth: Cerejas em extinção?

No último dia 8, foi anunciado o perigo de extinção das cerejas. Quer dizer, dos Cherries (cerejas, em inglês), apelido do Bournemouth, clube que joga a League One,  a Terceira Divisão inglesa. Na data mencionada, o clube foi oficialmente colocado em estado de insolvência, pelas dívidas que vêm se acentuando há algum tempo.

Não chega a ser um fato surpreendente – o próprio presidente do clube, Jeff Mostyn, disse que a situação já é de declínio há um bom tempo. Mas pode representar um duro golpe para a história de um time que já teve em seus quadros jogadores como George Best (que lá encerrou sua carreira, em 1983), Rio Ferdinand, Jamie Redknapp, John O’Shea e Jermaine Defoe.

A fundação

Desde 1890, o Boscombe St. Johns Institute Football Club atuava no futebol local.  Ele seria o embrião do Boscombe FC, fundado em 1899.

A ascensão do novo clube foi rápida: já em 1902, o time ganhava o status de melhor time da região e iria para o terreno de Kings Park – casa do clube até os dias de hoje – onde mandaria seus jogos. O sucesso em campo continuaria e, pouco tempo depois, o clube se transferiria da liga regional de Bournemouth para a Hampshire League.

Mas, mesmo com o êxito nos gramados, ainda não havia estádio decente em Kings Park. O problema seria sanado apenas em 1910, graças a um homem chamado J.E. Cooper-Dean. Sua família tinha um terreno, próximo a Kings Park. Cooper-Dean, homem de negócios na cidade, doou o terreno ao Boscombe, que lá construiu seu estádio, inaugurado em 31 de dezembro do mesmo ano. Homenageando o benfeitor, o estádio recebeu o nome de Dean Court, pelo qual até hoje é conhecido.

Com o novo estádio, veio também o apelido de Cherries que acompanharia o clube. As origens têm duas histórias: a alcunha pode ter vindo do vermelho das listras do uniforme, que tem a mesma tonalidade de cerejas, ou das várias cerejeiras que ficavam próximas ao Dean Court.

Em 1914, o time se profissionalizaria. A Primeira Guerra Mundial interrompeu a sólida ascensão do Boscombe. Mas ela voltaria em 1919, com a volta à Hampshire League, após uma estada mal-sucedida na South Eastern League. No ano seguinte, o time iria para a Southern League.

A ascensão à Third Division não tardaria: em 1923, a Football League aceitou a inscrição do Boscombe e o time já jogaria na temporada 1923/24 do torneio, na Third Division South. Ainda em 1923, o time mudaria seu nome, transformando-se no Boscombe and Bournemouth Athletic. O ídolo da época foi o atacante Ron Eyre, até hoje maior artilheiro do clube na era profissional, com 202 gols.

Alguns sucessos, nenhum título

Na temporada 1956/57, viria a primeira aparição dos Cherries no cenário nacional do futebol inglês. Seria na ótima campanha realizada na FA Cup, até hoje a melhor da história do time na competição. O Bournemouth alcançaria as quartas-de-final da competição, encarando o Manchester United, ainda com a primeira geração dos Busby Babes.

Após uma classificação já surpreendente para as quartas, com uma vitória sobre o Tottenham Hotspur, o time comandado por Fred Cox jogou em casa contra os Red Devils. A partida, realizada em 02 de março de 57, rendeu o recorde de público ao Dean Court, até hoje não quebrado: 28.799 pessoas compareceram à partida. Mas um 2 a 1 eliminou os Cherries.

Depois da surpresa, o time passou mais algum tempo no limbo até a temporada 1970/71. Justamente numa fase dura, em que o time fora rebaixado para a quarta divisão, surgiram jogadores que marcariam a história do clube. Tudo começou com a contratação do técnico John Bond, que levaria o time de volta à Terceira Divisão.

O time de Bond ficou famoso pelo ataque, com a parceria entre o galês Phil Boyer e o escocês Ted MacDougall. Junto do inglês Mel Machin, o trio de avantes seria o principal sucesso. No período 1971/72, o sucesso continuou: Machin e Boyer armavam jogadas aos montes para o artilheiro MacDougall, que, não contente em ter feito 49 gols no período, conseguiu o feito, que dura até hoje, de ser o jogador com maior número de gols em apenas uma partida na FA Cup: na goleada por 11 a 0 contra o Margate, em 20 de novembro de 1971, pela primeira fase da competição,  “SuperMac” fez nove gols.

Mas a boa fase não durou. Após o azar de ter sido o terceiro colocado na Third Division, numa época em que apenas dois clubes subiam, o Manchester United conseguiu tirar MacDougall do Bournemouth, por 200 mil libras. Depois, foi a vez de John Bond ir para o Norwich City, levando consigo Mel Machin e Phil Boyer. Os tempos de dureza voltaram: os públicos de até 20 mil pagantes da era Bond caíram para uma média de 3 mil e, na temporada 1974/75, o clube caiu novamente para a quarta divisão, de onde só sairia em 1982.

O sucesso da era Redknapp

O técnico Harry Redknapp levaria o Bournemouth à melhor fase de sua história. Ex-jogador do time, entre 1972 e 1976, Harry iniciaria sua carreira de técnico em Dean Court. Finalmente efetivado em 1984, Harry já mostraria serviço em sua estréia, salvando os Cherries do rebaixamento e, na FA Cup, eliminando o então campeão Manchester United, na terceira rodada.

As temporadas seguintes serviram para o treinador montar um time que, contando com o meia Sean O’Driscoll (que viria a ser técnico do clube) e o goleiro Gerry Peyton, chegaria ao ápice na temporada 1986/87, com o título da Terceira Divisão. Na Segunda Divisão, o time fez campanhas estáveis, ficando no meio da tabela. Mas, novamente, tempos difíceis viriam após a temporada 1989/90 (justamente quando o filho de Harry, Jamie, iniciou sua carreira, no clube). Prejudicado por várias contusões, o time seria novamente rebaixado, após uma derrota que ficaria marcada como o início da derrocada que levaria o time à penúria: durante o jogo contra o Leeds United, brigas nas arquibancadas deixariam torcedores e policiais feridos, causando um prejuízo de 1 milhão de libras. Para piorar, logo após a Copa da Itália, Harry Redknapp sofreria um grave acidente de automóvel – o diretor do time à época, Brian Tiler, que o acompanhava, morreria – e deixaria temporariamente o futebol, na temporada 1991/92.

Dívidas e mais dívidas

Tony Pulis assumiria o lugar de Redknapp, mas sofreria com a falta de dinheiro, deixando o clube pouco antes do início da temporada 1994/95. Sem técnico e com um péssimo time, o clube perdeu as nove primeiras partidas na Terceira Divisão. O rebaixamento parecia iminente, quando o velho ídolo Mel Machin assumiu o comando. Com um bom trabalho e algumas contratações, conseguiu evitar a queda.

Mas as dívidas se avolumavam e, na temporada 1996/97, o clube esteve muito próximo da falência, chegando a vender o estádio Dean Court. A salvação veio da torcida, que formou um fundo para comprar o time. Após uma oferta, o fundo conseguiu o controle do clube, no que foi a primeira experiência de um “clube comunitário” na Europa, salvando o clube do fechamento. Graças a tal experiência, os resultados da temporada seguinte foram o menos importante. O que valia era ver os ‘Cherries’ vivos.

Em 2000, Sean O’Driscoll assumiu o comando do time onde passara onze anos como jogador, de 1984 a 1995. Um de seus comandados era justamente o jogador que lhe tirou o posto de atleta com mais partidas pelo clube: o atacante Steve Fletcher, hoje no Chesterfield, com 495 jogos.

No ano seguinte, uma novidade: o estádio de Dean Court foi demolido para sua reconstrução, sendo reinaugurado ainda em 2001, rebatizado oficialmente Fitness First Stadium. Mas, no ano seguinte, o time encararia novo rebaixamento para a League Two (Quarta Divisão). Mesmo assim, o time continuou sob o comando de O’Driscoll, que correspondeu à confiança e, já na temporada seguinte, levou o time de volta à League One.

Só que o estádio deixou uma grande dívida e o clube foi entrando numa situação sem saída. A diretoria chegou até a ceder o comando do clube à associação de torcedores, que escolhia o presidente junto com representantes dos credores. Ainda que tendo um estádio fantástico para a League One, o Bournemouth sofria com a dívida. No final de 2005, em meio a muita chiadeira dos torcedores, o Fitness First foi cedido a uma companhia imobiliária com direito a um leasing e a uma recompra preferencial em cinco anos pelo clube.

Em 2006, Sean O’Driscoll deixou o time, indo para o Doncaster Rovers. Kevin Bond, filho do lendário John Bond, assumiu o cargo e contratou o veterano Darren Anderton. Na temporada atual, mesmo tendo começado a League One com apenas 9 jogadores, dois deles goleiros, sob contrato, alguns jogadores foram adquiridos, como o atacante Jo Kuffour.

Infelizmente, as dívidas voltaram a crescer, mesmo depois da injeção de dinheiro feita pela venda do estádio. O risco de falência voltou, com os 4 milhões de libras em dívidas e a declaração do estado de insolvência, que causou uma perda de 10 pontos ao clube (uma das condições para a entrada do clube numa espécie de “concordata” à qual os clubes na Inglaterra podem entrar como último recurso antes da extinção) e aumentou o perigo de um novo rebaixamento. Caso venha a falir, o Bournemouth será o primeiro clube da Football League a falir desde 1981 (o último foi o Aldershot). A torcida de Dorset é para que continuem a brotar cerejas em King’s Park.

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Equipe Trivela

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