Bósnia: União pelo futebol

Um país com menos de 20 anos de existência, marcado por uma guerra civil de proporções nacionais e um genocídio em massa cometido contra muçulmanos. Infelizmente ainda hoje esta é a imagem mais associada à Bósnia e Herzegovina. No entanto, os últimos anos têm sido de destaque para um aspecto pouco conhecido da cultura bósnia; seu futebol. O aparecimento de jogadores em alguns grandes clubes europeus e o consequente bom desempenho da seleção nas eliminatórias para a Copa de 2010, colocaram a Bósnia e Herzegovina definitivamente no mapa do futebol europeu, unindo o País, tão dividido no passado, em torno de um objetivo comum.

Da tradição iugoslava ao incipiente futebol bósnio

Localizada na porção oriental da Europa, na região dos Balcãs, a Bósnia e Herzegovina foi durante muito tempo alvo de conflitos e anexações em seu território, tendo feito parte do Reino da Hungria, Império Otomano, Império Austro-Húngaro, Reino dos sérvios, croatas e eslovenos e, depois da Segunda Guerra Mundial, da chamada República Socialista Federativa da Iugoslávia. Com o colapso da União Soviética no início da década de 90, uma verdadeira onda de separatismo assolou o território, que viu a Croácia se tornar independente em 1991 e uma sangrenta guerra civil entre etnias ser deflagrada no território bósnio a partir de sua insurgência, em 1992. As tensões locais foram normalizadas somente em 1995, quando as forças conflitantes assinaram uma trégua.

Na mesma época foi estabelecida a Federação de Futebol da Bósnia e Herzegovina, fundada em 1992 e reconhecida pela Fifa em 1996. Já o primeiro campeonato nacional bósnio só foi acontecer em 1997. As primeiras edições do torneio acabaram sendo realizadas em três módulos, um para cada etnia (croata, sérvia e bósnia), situação que só foi ser alterada na temporada 2002-03, quando houve uma unificação nacional. Seu maior campeão até hoje, considerando os campeonatos divididos, é o FK Zeljeznicar Sarajevo, com três títulos.

A seleção nacional foi formada em 1993, pouco depois de a Federação ter sido criada. Contudo, acabou sendo bastante prejudicada pela divisão do território iugoslavo, já que muitos jogadores do “ex-país” acabaram optando, ou por melhores condições financeiras, ou por pura identificação, defender outros países e não a Bósnia. Os principais casos se referem a atletas que nasceram no lado bósnio, mas que acabaram construindo sua carreira na seleção croata, como, por exemplo, Mario Stanic, Darijo Srna e Vedran Corluka.

Surpresa europeia

Por conta dessa prática que excede o âmbito do esporte, o futebol bósnio acabou tendo seu desenvolvimento bastante limitado nos anos que sucederam a estreia de seu selecionado nacional. Sua primeira glória internacional, ainda que sem títulos, só foi ocorrer em 2001 na disputa da Sahara Cup. No torneio, a Bósnia e Herzegovina teve bom desempenho, obtendo vitórias contra Bangladesh, Uruguai B e Chile, mas perdendo a final para a Iugoslávia (que na época era a seleção de Sérvia e Montenegro).

Depois de terminar as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 na quarta posição de seu grupo, resultado que eliminou os bósnios na primeira fase, a seleção teve um bom desempenho na classificatória para a Eurocopa de 2004. Mesmo caindo em um grupo formado por Dinamarca, Noruega, Romênia e Luxemburgo, a Bósnia e Herzegovina conseguiu resultados muito bons, que deixaram a equipe a uma vitória dos playoffs. Contudo, a Dinamarca, líder do grupo, engrossou o jogo em Sarajevo e conseguiu terminar a partida com um empate, resultado que levou os dinamarqueses ao torneio e a Noruega à segunda fase eliminatória.

O fato de não participar de competições de grande porte não fez tão mal quanto poderia se imaginar ao selecionado nacional, que voltou com tudo nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006. O escrete começou o que poderia ser a caminhada rumo à primeira Copa de forma surpreendente, empatando com a Espanha e com a Sérvia e Montenegro. Na sequência, tropeçou, mas os bons desempenhos de Elvir Bolic, até hoje o maior artilheiro da seleção com 24 gols em 55 partidas, e Hasan Salihamidzic ajudaram os bósnios a manter uma boa forma nos confrontos seguintes, garantindo uma chance mínima de a seleção se classificar para os playoffs. A difícil combinação de resultados, vitória diante de Sérvia e Montenegro e derrota da Espanha para San Marino, no entanto, acabou não vindo a Bósnia e Herzegovina ficou novamente fora do mais importante torneio de futebol do planeta.

Reformulação e futuro promissor

A surpresa nas classificatórias para a Copa do Mundo trouxe uma expectativa maior sobre o que aquele time poderia fazer nas eliminatórias para a Euro 2008. Apesar de não contar mais com Bolic e Salihamidzic, que se aposentaram da seleção ainda em 2006, a Bósnia e Herzegovina iniciou muito bem o torneio classificatório, vencendo por 5 a 2 a seleção de Malta fora de casa. No entanto, derrotas para Hungria e Grécia em solo bósnio e um inesperado empate com a Moldova fora de casa praticamente minaram qualquer chance de classificação. Irritada com os resultados pífios no torneio, a Federação de Futebol da Bósnia decidiu substituir o treinador Blaž Sliškovi? por Fuad Muzurovic. As coisas ficaram ainda piores logo na sequência, depois que 13 jogadores decidiram não atender a convocação de Muzurovic em protesto contra a entidade de futebol do país. Praticamente sem jogadores de alto nível para chamar, o treinador montou um elenco quase do zero e o mandou a campo para uma difícil partida contra a Noruega, em Oslo.

Ao contrário do que se esperava, a seleção fez uma partida perfeita, aproveitando as poucas chances que teve para terminar o jogo com um 2 a 1. O resultado surpreendente abriu caminho para uma verdadeira reformulação, e jovens jogadores como Vedad Ibisevic e Edin Dzeko logo se estabeleceram entre os titulares. Mesmo com a vitória contra a Noruega e dois outros sucessos contra a Turquia e Malta, os bósnios acabaram tendo uma brutal queda de desempenho na segunda metade do torneio, perdendo os 5 jogos restantes e não conseguindo a classificação.

Apesar de ruins, os resultados não alteraram o processo de renovação pelo qual o escrete bósnio passava. Com o novo treinador Miroslav Blazevic tendo o time cada vez mais na mão e seus jogadores cada vez mais experientes, tanto em nível nacional, quanto em seus clubes, a Bósnia e Herzegovina começou a classificatória para a Copa do Mundo de 2010 com uma força ainda maior do que a já observada. Depois de uma derrota esperada contra a Espanha fora de casa, a equipe enfiou um sonoro 7 a 0 na EstÊnia, registrando a maior goleada de sua história. Na sequência, uma derrota de virada contra a Turquia e uma vitória por 4 a 1 contra a Armênia colocaram os bósnios em boas condições para duas partidas decisivas contra a Bélgica. Nos dois jogos vitória da Bósnia e Herzegovina, uma por 4 a 2 fora de casa e outra por 2 a 1 dentro de seus domínios, resultados que deixaram o país muito próximo de uma classificação à fase seguinte. Com 12 pontos em seis jogos e confrontos em casa contra as duas maiores forças de seu grupo, Espanha e Turquia, a Bósnia e Herzegovina tem boas chances de conseguir a segunda colocação de seu grupo. Se isso vai resultar em uma vaguinha na próxima Copa ainda não se sabe, mas a certeza é uma só: a euforia com o futebol nacional já foi suficiente para unir um pouco mais a população bósnia, tão afetada por conflitos internos no passado.

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Equipe Trivela

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