Benzema: de Lyon para o mundo

do Olheiros.net

Na temporada passada, o futebol francês viu a afirmação de uma valorosa promessa. Com um desempenho impactante na Ligue 1, o meia Samir Nasri classificou o Olympique de Marselha para a Liga dos Campeões e, de quebra, passou a receber a perigosa alcunha de “novo Zinedine Zidane”. Perigosa, pois é um fardo que já estragou a carreira de nomes outrora promissores como Bruno Cheyrou, Camel Meriem e Mourad Meghni. Não obstante, Nasri, a exemplo do ídolo Zizou, é filho de argelinos, o que tornou a comparação entre ambos ainda mais fatal. 

Quis o destino que a atual temporada ficasse marcada pela consolidação de um novo candidato a sucessor do ex-craque. Líder e referência do Lyon na provável conquista do heptacampeonato local, o atacante Karim Benzema, outro com ascendência argelina, é o novo queridinho do país. Culpa de uma participação expressiva e simplesmente soberba em 07/08. São mais de 30 gols, ilustrados por atuações que deixaram até mesmo mitos como Just Fontaine e Jean-Pierre Papin boaquiabertos. Atuações que caracterizam o prodígio como um potencial world-class.

Le Petit Benzema

Filho de imigrantes, Benzema teve uma infância bastante humilde, na qual um único sonho permeava seus pensamentos: ser jogador de futebol. Os primeiros chutes do futuro artilheiro foram dados no Bron Terrailon, pequeno clube suburbano da cidade natal, Lyon. Não demorou muito para que o atento Olympique Lyonnais manifestasse interesse em seus atributos, tidos como brilhantes nos percalços do subúrbio. Em 1996, aos nove anos de idade, o garoto franco-argelino rumava a Gerland. Rumava à construção de um sonho que logo se tornaria realidade.

No Lyon, o atacante foi, aos poucos, moldando uma carreira vitoriosa. Ser chamado para as seleções de base era questão de tempo. A primeira convocação veio em 2003 (sub-16). O primeiro título importante, em maio do ano seguinte. Camisa 18 da equipe comandada por Phillipe Bergeroo, participou da campanha que culminou na conquista do Campeonato Europeu Sub-17, disputado em território francês. Os Espoirs tinham Samir Nasri como principal destaque, e também contavam, entre outros, com os prodigiosos Hatem Ben Arfa e Jérémy Menez.

Embora não costumasse fardar no onze inicial, Benzema foi peça importante para o triunfo. Na estréia da fase final de grupos, contra a Irlanda do Norte, furou o até então insuperável goleiro Jonathan Tuffey, marcando o gol inaugural da vitória por 3 x 0. Na decisão, ajudou os companheiros a superar uma Espanha liderada por nada mais nada menos que Cesc Fàbregas, eleito o melhor jogador da competição. O 2 x 1 (gols de Nasri e Kévin Constant para os franceses, e Gerard Piqué para os espanhóis) acabou vindo de forma dramática. O levantamento de taças estava só começando…

As marcas do jovem goleador instigavam e impressionavam a todos. Somando as seleções sub-16 e sub-17, entre 2003 e 2005, foram 15 tentos marcados em 25 partidas, além do título e da artilharia da tradicional Meridian Cup, ao lado de Menez, em 2005. No clube, a média era de praticamente um gol por jogo: 12 em 12 compromissos pelo time sub-18, campeão da categoria na temporada 04/05, e dez em 11 pelo Lyon B. A base estava ficando pequena demais para Karim Benzema, e um aproveitamento na equipe principal surgia como algo inevitável.

Le Grand Benzema

Lançado pelo técnico Paul Le Guen, Benzema não decepcionou em sua estréia na Ligue 1. A assistência para Bryan Bergougnoux diante do Metz foi um belo cartão de visitas. De contrato renovado, marcou o primeiro gol como profissional em 05/06. E logo em um duelo da Liga dos Campeões (vitória sobre o Rosenborg pela fase de grupos)! Com 13 atuações, também fez parte do grupo comandado pelo experiente Gerárd Houllier na conquista do penta francês.

Na temporada seguinte, mesmo com a forte concorrência no setor ofensivo, as oportunidades aumentaram. Dois tentos na competição européia – o mais importante deles em Kiev, contra o Dinamo – ilustraram o poder de fogo do atacante, que foi às redes cinco vezes no campeonato local. A recompensa viria em março de 2007, quando Raymond Domenech o convocou para um amistoso da seleção principal. Resultado? O único gol do triunfo frente à Áustria.

Com a lesão do brasileiro Fred e a liberação do veterano Sylvain Wiltord, Benzema, aos 19 anos, iniciou 07/08 respaldado pela confiança do técnico Alain Perrin, contratado após o título da Copa da França sob comando do Sochaux. Logo de cara, titularidade na obtenção do Troféu dos Campeões (2 x 1 em cima do próprio Sochaux), além de um golaço na rodada inaugural da Ligue 1 (vitória por 2 x 0 sobre o Auxerre). Era apenas o início de um desempenho que iria dar o que falar…

A artilharia do “Francesão” foi arquitetada por gols de todos os tipos. Gols de perna direita, gols de perna esquerda. Gols de cabeça. Gols de oportunismo, gols em chutes de longa distância. Até mesmo gols em cobranças de falta, especialidade do ofuscado companheiro Juninho Pernambucano, ídolo máximo em Gerland. Gols épicos, como o último nos 3 x 0 diante do Lens, no primeiro turno. Gols. Muitos gols. Um expressivo número de 19 gols contabilizados em 34 partidas até a antepenúltima rodada.

Mesmo prejudicado pelo mau início de campanha e falta de consistência lionesa, Karim Benzema também fez bonito na Liga dos Campeões. No confronto que decidiria uma vaga para a segunda fase, fez o que quis com os defensores do Rangers, marcando duas vezes e calando Ibrox. Nas oitavas-de-final, deixou sua marca no primeiro jogo contra o Manchester United de Carlos Tevez e Cristiano Ronaldo. Não conseguiu, contudo, evitar a eliminação após o revés em Old Trafford.

Futuro promissor

Consolidado como referência no futebol francês, Karim Benzema almeja novos objetivos. O maior deles, indubitavelmente, é a titularidade na Eurocopa ‘08, que terá início no próximo mês. Futebol para isso não lhe falta. Porém, Domenech deverá optar pela experiência do “foguete molhado” Nicolas Anelka ao lado do intocável Thierry Henry. Há ainda a possibilidade dos Bleus atuarem no 4-2-3-1. Com isso, Nasri ganharia um lugar no time, e a briga de Benzema passaria a ser com Florent Malouda, interior esquerdo que não vive bom momento no Chelsea.

A versatilidade, aliás, é um dos grandes trunfos do atleta. Habilidoso, incisivo e goleador, lembra muito mais Henry do que o clássico e técnico Zidane, a quem costuma ser comparado. É perfeito para o 4-3-3, podendo atuar como centroavante, extremo esquerdo e extremo direito sem decréscimo de qualidade. No 4-4-2, é capaz de fazer ambas as funções ofensivas – segundo atacante e homem de referência – com magnitude semelhante. Testado como playmaker nas três primeiras rodadas da Ligue 1, foi um dos poucos a se salvar nas derrotas para Toulouse e Lorient.

Se em 2005 a base estava ficando pequena demais para Benzema, hoje o mesmo ocorre com o futebol francês. Apesar de ter renovado seu vínculo até 2012, o garoto dificilmente continuará lá por muito tempo. Clubes top da Europa como Real Madrid, Milan, Manchester United e Arsenal já manifestaram interesse no seu passe, e, embora o presidente Jean-Michel Aulas queira desmentir, o Lyon sabe que a concorrência é absolutamente desleal. Propostas milionárias serão feitas em breve, o que pode transformar uma eventual transferência em uma penosa novela.

A exemplo dos igualmente jovens Sergio Agüero, Alexandre Pato e Bojan Krkic, nomes que denotam a qualidade no surgimento de novos atacantes em nível mundial, Karim Benzema já é uma realidade, uma resposta ao saudosismo ainda presente em grande parte da imprensa esportiva. Seu futuro, provavelmente em um dos clubes supracitados, dirá se ele realmente tem condições de ser um world-class. Qualidade e potencial existem em profusão. Resta aguardarmos pelos próximos capítulos. Quem sabe, já na Eurocopa, o prodígio do Lyon mostre do que é capaz.

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Equipe Trivela

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