B de Bahia?

A regularidade no futebol, um dos meios mais instáveis que se conhece, é uma virtude alcançada por poucos. Mas há casos em que o padrão é não haver padrão algum: dono do retrospecto mais mediano da Série B, o Bahia parece afundado em uma crise mais de identidade do que financeira ou estrutural. Pior do que combater um problema grave é não conhecê-lo, e é talvez esta letargia que promove uma perigosa estagnação no tradicional clube nordestino, que aos poucos começa a se acostumar com a Segunda Divisão.

Do terceiro lugar na rodada inicial ao 14º posto há três semanas, o Tricolor sempre se manteve na parte intermediária da tabela. Após perder para o Fortaleza no sábado, encontra-se em posição emblemática: décimo lugar, com cinco vitórias, cinco empates e cinco derrotas. Marcou 19 gols e sofreu a mesma quantidade.

A quatro jogos do final do primeiro turno, a equipe chegou a ficar seis rodadas sem vencer, na transição entre Alexandre Gallo e Paulo Comelli, e só conseguiu duas vitórias consecutivas em uma oportunidade (lanterna Campinense fora e Vasco em casa). A vitória sobre os cruzmaltinos, aliás, encerrou um jejum de três partidas sem triunfo no Pituaçu, que desde que começou a ser utilizado pelo clube havia se transformado em um caldeirão, certeza de vitória certa. Desacreditada, parte da torcida chegou a se mobilizar pelo “público zero” no confronto com os cariocas, alegando que o time não conseguia vencer como mandante e que, por isso, de nada adiantaria a torcida apoiar.

O efeito foi exatamente contrário: o público de 25.376 é o segundo maior do campeonato até agora, atrás apenas de Ceará 0x2 Vasco, com 27.629. Ações com resultados assim mostram quanta discordância de opiniões há sobre o time. Da mesma forma, uma enquete promovida após a inesperada vitória sobre o Vasco mostrou divisão total de pensamentos: 31,5% dos participantes disseram acreditar no acesso, contra 28,5% de descrentes. Já 40% dos que opinaram se disseram em dúvida, condicionando a volta à elite após sete anos a fatores tão distintos quanto troca da diretoria, contratação de reforços ou mais garra em campo.

Mas afinal, o que faz do Bahia, campeão brasileiro e uma das folhas salariais mais caras da Série B, um clube que ainda não deu mostras de que pode voltar à Primeira Divisão – e, principalmente, permanecer nela? A falta de planejamento da diretoria é a alegação número um dos críticos: gastou-se demais para trazer nomes rodados como Patrício, Nen, Rubens Cardoso e Nadson e até agora apenas o zagueiro tem correspondido, transformando-se no único destaque do time. Não obstante, falta ainda um meia responsável pela armação e que chame a responsabilidade, carência da equipe durante toda a temporada.

Um pouco da reclamação do torcedor é movida pelo coração, já que Paulo Carneiro possui história no rival rubro-negro. Se a falta de planejamento é regra no futebol brasileiro e pode ser relevada, a alegada saudade de Carneiro dos tempos de Barradão parece reavivar quando ele cita o rival, que “subiu há dois anos mudando de treinador quatro vezes. Então qualquer time pode fazer isso”, disse quando do anúncio de Sérgio Guedes.

Há muitos acertos, como investimentos no CT e modernização da estrutura, mas não dá para negar que contratar quarenta jogadores em oito meses é um pouco de exagero. Some-se a isso o criticado retorno de Paulo Comelli (bancado pelo presidente Marcelo Guimarães Filho, mas não apoiado por Carneiro), que, para muitos, fez o time retroceder, mudando a forma de jogo e desestabilizando a defesa, único setor que funcionava bem. Não à toa, durou menos de um mês no cargo, sendo demitido pelo telefone após acumular duas vitórias, dois empates e duas derrotas: desempenho apenas mediano, que reflete bem a apatia da equipe.

Apatia que é outro sintoma detectado por quem acompanha o clube. Não há jogadas ensaiadas, entrosamento e o torcedor reclama da falta de vibração e entrega dos jogadores. Foram quatro oportunidades em que o Tricolor saiu na frente mas permitiu a virada ou o empate, ao passo que só se recuperou contra o Vasco, numa atuação considerada exemplar, mas exceção até aqui.

Tudo isso faz a saída de Comelli parecer menos repentina e mais compreensível, tão logo um treinador com o perfil desejado ficou disponível no mercado. Sérgio Guedes chega respaldado pelas boas campanhas com Ponte Preta e Santo André, no maior desafio de sua ainda curta carreira. Nos dois clubes, teve mais tempo e menos pressão para trabalhar, mas lidou com elencos parecidos: mesclando jovens e experientes, ainda que mais homogêneos do que terá no Fazendão.

O Bahia ainda tropeça. Cada uma das críticas carrega um pouco de razão, e um time que não briga em campo, não cria e não se incomoda com o revés irrita mais o torcedor que um grupo limitado que se entrega, mas cede ao final – vide a Portuguesa do ano passado. Se continuar assim com o novo técnico, pode dar outro passo rumo a uma realidade que hoje já parece bem mais palpável: transformar-se em um ex-grande, com importância regional relativa e nacional reduzida. Um clube pequeno demais para a Série A, mas que é grande demais para a Série B.

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Equipe Trivela

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