Auxerre: Do nada ao topo, pelas mãos de um homem

No Brasil, costuma-se dizer que o São Paulo é um clube especial, porque tem entre seus maiores ídolos um técnico, Telê Santana. Na França, porém, um time guarda uma relação muito mais forte com seu treinador. Para o Auxerre, o técnico Guy Roux não é apenas o maior ídolo do clube – é a própria personificação da história do clube.

Para se ter uma idéia, em setembro, Roux quebrou o recorde de partidas por um treinador na primeira divisão francesa: 782. Para atingir essa marca, Guy levou 22 temporadas. Porém, o hoje veterano já comandava o Auxerre desde muito antes da promoção à primeira divisão. Somando partidas internacionais, de copas e de divisões inferiores, o número de vezes que Guy Roux sentou no banco do AJA supera tranqüilamente os 1500, em uma história que se estende por mais de 40 anos.

Subindo junto com Guy Roux

Um dos maiores desafios para os viciados em Championship Manager (ou outros simuladores do gênero) é pegar um time desconhecido de uma pequena cidade na divisão mais baixa de um país e levá-lo, após vários anos, ao título nacional. Pois é, Guy Roux fez exatamente isso. Só que na vida real.

Era o ano de 1961. Após passar meses rodando a França sem sucesso atrás de uma vaga como jogador profissional, o então jovem Guy Roux viu-se forçado a voltar para o Auxerre, clube que o formou. Por falta de opção, a diretoria do clube concordou em dar-lhe o cargo de técnico-jogador. Nessa época, o time jogava na Division d'Honneur, a mais baixa da pirâmide do futebol francês (hoje, a DH é a sexta divisão).

Sem grande talento dentro do campo, Roux logo aposentou as chuteiras para concentrar-se na função de treinador. E nisso ele era bom. Em 1970, o Auxerre já chegava pela primeira vez à Nationale, a terceira divisão do campeonato francês, que é a primeira a ser disputada em nível nacional (as inferiores são regionais). Quatro anos mais tarde, a equipe subiu para a segunda divisão.

Em 1979, ainda na segundona, Guy Roux conseguiu seu primeiro grande feito a nível nacional: levar o Auxerre à final da Copa da França, derrubando vários times da primeira divisão, coisa bastante rara à época. No ano seguinte, veio a glória, com a tão sonhada classificação para a divisão de elite do futebol francês.

Mas Roux não parou por aí: em 1984, pela primeira vez classificou o Auxerre para uma competição internacional, a Copa UEFA. Daí em diante, o time se tornou 'habitué' das competições internacionais, com mais de dez participações. O melhor resultado conseguido foi uma semifinal da Copa UEFA, em que a equipe foi eliminada nos pênaltis pelo Borussia Dortmund.

A glória definitiva para o Auxerre veio em 1996, quando a equipe venceu o campeonato francês e a Copa da França. Foi o auge de uma caminhada que levou 35 anos. Na temporada seguinte, o AJA disputou pela primeira vez a Liga dos Campeões, caindo nas quartas-de-final, novamente frente ao Borussia Dortmund.

Nos anos que se sucederam, o Auxerre se manteve próximo ao topo, até que em 2000 veio o choque: Guy Roux anunciou que não mais treinaria a equipe, quebrando uma seqüência que já durava 39 anos – talvez a mais longa do futebol mundial. De fato, na temporada 2000/1, Roux se limitou a exercer um cargo administrativa, mas não se conteve. Com o fraco desempenho do Auxerre, voltou ao banco da equipe na temporada seguinte e logo de cara conseguiu um terceiro lugar, que mandou o time de volta à Liga dos Campeões.

Os segredos do sucesso

Ao ver a trajetória de Guy Roux, é inevitável não se perguntar como um técnico consegue se manter tanto tempo assim à frente de um time. Bom, a principal resposta para isso é a mais simples possível: bons resultados. Em 40 anos sob o comando de Roux, o Auxerre conseguiu cinco promoções, sem nenhum rebaixamento, além de quatro títulos.

Outro fator importante é que a continuidade é um valor natural ao Auxerre. Basta dizer que o presidente do clube, Jean-Claude Hamel, está no cargo desde 1963. O ótimo entendimento entre o presidente e o treinador foram essenciais para o sucesso da equipe ao longo do tempo.

Aliás, Hamel merece grande crédito nessa história. Afinal, não é fácil fazer crescer um clube situado numa cidadezinha de apenas 40 mil habitantes. O Auxerre nunca contou com um patrono rico nem com injeções de capital. Seu grande segredo é a administração austera e a ênfase nas categorias de base – seu centro de formação, inaugurado em 1982, é considerado um dos melhores da Europa.

O trabalho com as categorias de base, aliás, é outra marca registrada de Guy Roux. Copiando o modelo do Ajax, da Holanda, o técnico faz questão de que as equipes das categorias de base usem sempre o mesmo esquema tático do time principal. E o mais impressionante é que em quatro décadas esse esquema nunca mudou: Roux é um defensor ardoroso do 4-3-3, que até hoje funciona bem para o Auxerre.

O Auxerre antes de Roux

Apesar de só haver chegado às divisões nacionais do futebol francês há três décadas, o Auxerre tem quase 100 anos de história.

O clube foi fundado por Abbé Deschamps, no ano de 1905, com o nome de Association de la Jeunesse Auxerroise (que perdura até hoje). Como o nome indica – associação da juventude de Auxerre -, desde sua fundação o clube tem vocação para o trabalho com jovens. Outra característica sua é a ligação com a igreja. Deschamps era padre (abbé = abade) e manteve grande influência sobre o clube por décadas, tendo dirigido a equipe de futebol até 1946. Quatro anos mais tarde, Deschamps faleceu, e a diretoria homenageou o fundador rebatizando o estádio do time com seu nome.

Um momento crucial para a história do Auxerre aconteceu após o final da I Guerra Mundial. Com a França se recuperando, Abbé Deschamps começou a comprar terrenos da região, a um preço muito bom. O padre se revelou um ótimo homem de negócios e aumentou muito o patrimônio do clube, que até hoje é dono de 15 hectares de terras.

O Auxerre sempre foi um clube pioneiro, estando entre os sócios fundadores da liga regional da Yonne e da Borgonha, nas primeiras décadas do século. Em 1917, a equipe participou da primeira edição da Copa da França, que contou com 48 participantes. Mas apesar do espírito empreendedor, o Auxerre nunca conseguiu sair do limbo até a chegada de Guy Roux. Aliás, o clube só abraçou oficialmente o profissionalismo em 1980, quando subiu para a primeira divisão, que só admitia equipes profissionais.

Com paciência, consistência e uma administração responsável, o Auxerre provou para o mundo que é sim possível subir e manter-se na elite sem torrar milhões de dólares. Mas não pense que a equipe está satisfeita. “Ainda falta ganharmos a Liga dos Campeões”, declarou o carismático treinador com um sorriso. Para outro, poderia ser uma tarefa impossível, mas para o Auxerre de Guy Roux parece não haver limites.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo