As duas pontas da história

O Gabão une as duas pontas mais distintas da história do futebol de Zâmbia. Em 1993, 18 jogadores morreram no território do país em um acidente aéreo. Viajavam a Senegal para disputar mais uma etapa das eliminatórias, em busca da sonhada vaga na Copa do Mundo. Dezenove anos depois, os Chipolopolo (balas de cobre) seguem sem seu Mundial. Mas neste domingo levantaram na mesma Libreville a Copa Africana de Nações, em memória a seus heróis do passado.

Os zambianos estiveram longe do favoritismo nos prognósticos do torneio. Entretanto, mais que o título, apresentaram um futebol dos mais gostosos de se assistir ao longo da CAN. A fluidez do time chamou atenção, sobretudo pelas atuações de Christopher Katongo, Stophira Sunzu e Rainford Kalaba. O técnico Hervé Renard soube extrair o empenho de seus jogadores e não mudou seu padrão de jogo. E o elenco sem estrelas consagradas não precisou se preocupar nem mesmo com as reclamações dos clubes europeus. Os únicos jogadores cedidos por equipes do continente foram Chisamba Lungu e Emmanuel Mayuka – este o único de um clube de elite, o Young Boys.

A surpreendente vitória sobre o favorito Senegal na estreia não se mostrou mero acaso. Pelo caminho, ficaram a anfitriã Guiné Equatorial, Líbia e Sudão. Os Estrelas Negras de Gana foram derrubados nas semifinais pela eficiência dos Chipolopolos e pelo goleiro Kennedy Mweene. E, assim como na fase anterior, os zambianos não se esconderam na decisão, contra outra equipe bem mais badalada como Costa do Marfim. Equilibraram o confronto e, pelo que foi apresentado, não seria surpresa se vencessem dentro dos 90 minutos.

Aos elefantes, resta esperar por 2013. Assim como seis anos atrás, os marfinenses não resistiram a uma série de pênaltis. E, desta vez no tempo normal, Didier Drogba desperdiçou uma cobrança que poderia premiar a sua geração – capaz de ir a duas Copas, mas sempre penalizada quando esteve próxima de chegar ao topo da África.

Como não poderia deixar de ser, a comemoração de Zâmbia após o triunfo foi cercada de lembranças aos mortos em 1993. “Nós queríamos esta honra. É um sinal do destino, escrito nos céus. Uma força esteve conosco, nos ajudou”, disse Hervé Renard. “Sabemos o quão terrível foi o acidente para a nação. Só voltaríamos ao Gabão se chegássemos à final, isso nos fortaleceu. A tragédia exerceu esse papel. Não éramos favoritos, mas acreditamos em nós mesmos”. O treinador ainda agradeceu a Kalusha Bwalya, que escapou do desastre e hoje é o presidente da federação.

Outra cena tocante durante a celebração foi protagonizada pelo defensor Joseph Musonda. Lesionado no início da partida e substituído aos prantos, o veterano foi carregado no colo por Renard até a roda de oração formada por seus companheiros.

Melhor jogador da CAN, Chris Katongo teve o privilégio de levantar a taça da Copa Africana, o primeiro atleta de seu país a realizar o feito – após a vitória nas quartas de final, já tinha ganho até mesmo patente no exército nacional. Não serão menores as honras de estado dedicadas agora aos outros 22 novos campeões africanos. A festa nas ruas da capital Lusaka já começou.

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Equipe Trivela

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