Anzhi: endinheirado, o pequeno quer virar grande

 

Por Rodrigo Gasparini

Até hoje, a vocação do Anzhi Makhachkala, da Rússia, sempre foi a mesma dos clubes pequenos, que perambulam entre várias divisões e não fazem nada além de campanhas medianas. Desde 1991, quando foi fundado, o máximo que o time conseguiu foi um quarto lugar na Premier Liga em 2000 — ano de sua estreia na principal divisão russa – e ser eliminado pelo Rangers, da Escócia, na primeira fase da Copa Uefa da temporada seguinte.

Mas no início deste ano, um bilionário resolveu botar as cartas, ou melhor, o dinheiro na mesa e tornou-se dono do Anzhi, numa transação que pode mudar os rumos da história do clube.

Suleyman Kerimov é o nome do homem. Tido pela revista Forbes como o 136º mais rico do mundo (avalia-se que tenha US$ 5,5 bilhões), empresário dos ramos de petróleo, mineração e siderurgia e ocupante de uma das cadeiras do Conselho Federal do país (uma espécie de Senado local), o novo dono da bola é nascido no Daguestão, a república separatista da Rússia onde está a cidade de Makhachkala, sede do Anzhi. Daí, sua ligação com o clube e a vontade de fazê-lo crescer.

Kerimov abriu os cofres e colocou o Anzhi no noticiário internacional. Logo de cara, contratou o lateral esquerdo Roberto Carlos, que vivia crise no Corinthians após a eliminação na Copa Libertadores. A reboque, foram o volante Jucilei (também ex-Corinthians) e o atacante Diego Tardelli, do Atlético Mineiro. O zagueiro brasileiro João Carlos (ex-Genk, da Bélgica) e o lateral camaronês Benoí Agbwa, que estava no Saturn, foram outras contratações importantes.

Início na União Soviética

A história do Anzhi, se não é tão extensa, começa numa época em que a Rússia ainda nem existia. Fundado em 1991, justamente no último ano de existência da antiga União Soviética, o clube venceu o campeonato do Daguestão e se credenciou a disputar a terceira divisão do Russo a partir do ano seguinte.

Em 1996, quando ainda estava na terceirona, o Anzhi contratou o técnico Eduard Malofeev, ex-jogador e ex-técnico da seleção soviética. A aposta deu certo. Logo na primeira temporada, ele conduziu o time ao vice-campeonato e ao consequente acesso para a segunda divisão. Aliás, aquele ano foi realmente especial para os torcedores de Makhachkala: o time da cidade chegou a uma inédita fase de oitavas de final da Copa da Rússia depois de eliminar o Alani, então campeão nacional. Na sequência, caiu perante o Dynamo Moscou.

As duas primeiras temporadas na segundona, porém, não causaram suspiros na torcida. Ainda sob o comando de Malofeev, o Anzhi ficou apenas em 13º e 11º lugar, respectivamente.

Em 1999, o clube ganhou novidades na sala da diretoria e no banco de reservas. Khizri Shiksaidov, então presidente da República do Daguestão, assumiu a presidência e contratou Gadzhi Gadzhiev para o comando técnico. O novo treinador vinha com a experiência de ter sido o auxiliar técnico na conquista da medalha de ouro pela União Soviética nas Olimpíadas de Seul, em 1988.

Logo na primeira campanha, 26 vitórias, oito empates e oito derrotas. Resultado: o título da segunda divisão e o direito de disputar a Premier Liga.

Quarto lugar histórico, mas lamentado

Gadzhiev permaneceu no ano seguinte e comandou o Anzhi à sua melhor colocação em toda a história: um surpreendente quarto lugar na divisão de elite do futebol russo, mesmo com um time formado por jogadores veteranos e jovens desconhecidos.

Mas o feito poderia ter sido ainda maior e disso reclamam os torcedores até hoje. Na última rodada, o Anzhi ocupava a terceira colocação e tinha confronto direto com o Torpedo, de Moscou – então quarto colocado – na casa do adversário.

O time de Makhachkala saiu na frente aos 14 minutos, com Budunov. Aos 15’ do segundo tempo, Aristarkhov empatou. A igualdade ainda era favorárel ao Anzhi, mas no último minuto o árbitro assinalou pênalti num suposto toque de mão dentro da área. Revoltados, os jogadores do Anzhi ameaçaram abandonar o campo, mas voltaram atrás na decisão (veja o vídeo sobre o jogo aqui http://rutube.ru/tracks/2876869.html?v=63b9b5663519292c709b4844e073ff8c). Gashkin bateu a controversa penalidade e deu o terceiro lugar do Campeonato Russo ao Torpedo.

De qualquer forma, a campanha do Anzhi foi digna de nota para um estreante na divisão de elite: 15 vitórias, 7 empates e 8 derrotas (apenas uma em casa), 44 gols marcados e 31 sofridos. E vaga na Copa da Uefa.

Vice na Copa e estreia internacional

Em 2001 o Anzhi não conseguiu repetir a façanha de ficar entre os primeiros no campeonato nacional (finalizou a competição em 13º lugar), mas nem por isso deixou de ter um ano muito agitado.

O time chegou à final da Copa da Rússia e protagonizou um emocionante jogo com o Lokomotiv, no estádio Dynamo, de Moscou. Nos acréscimos, o capitão Narvik Sirkhayev abriu o placar para o Anzhi, que parecia conquistar o título. Mas houve tempo para Zaza Janashia empatar. Nos pênaltis, vitória do Lokomotiv por 4 a 3.

Ainda naquele ano, o Anzhi jogou pela primeira e única vez uma competição internacional. E foi um jogo só, contra o Rangers. Derrota por 1 a 0 e eliminação precoce na Copa Uefa. O time escocês se recusou a jogar em Makhachkala, devido aos conflitos existentes na época na região do Daguestão (muito próximo à Thechênia). Assim, a disputa eliminatória teve apenas uma partida, em campo neutro – Varsovia, na Polônia – ao invés do tradicional ida e volta.

Queda e ascensão no Russo

A irregularidade voltou a tomar conta do futebol do Anzhi a partir de 2002. Décimo quinto colocado da Premier Liga, o time foi rebaixado e voltou a jogar a segunda divisão, onde permaneceu até 2009, ano em que faturou o título e reconquistou o direito de jogar entre os principais clubes do país.

Coincidência ou não, o novo acesso foi conquistado pelas mãos de Omari Tetradze, ex-jogador que voltou ao clube como técnico e se intitula “discípulo de Gadzhi Gadzhiev”.

Omari surpreendeu os dirigentes do Anzhi ao pedir demissão logo depois da primeira rodada do campeonato de 2010, já na divisão de elite (empate por 0 a 0 com o Spartacus). A solução encontrada foi chamar novamente Gadzhi Gadzhiev, que está no cargo até hoje.

11 aposentada

A camisa 11 do Anzhi está aposentada desde 1999. Naquele ano, o mesmo do primeiro título e acesso, o atacante Ibrahim Gasanbekov morreu num acidente de carro. Ele é o maior artilheiro da história do clube, com 233 gols em 153 jogos.

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