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Abalo-Dosseh: ´´Muitos falarão de nós´´

Antes de se tornar um dos cinco países africanos classificados para a Copa, quase ninguém saberia dizer alguma coisa sobre Togo. Jean-Paul Yaovi Abalo Dosseh foi um dos principais responsáveis por fazer o mundo conhecer o seu país. Muito embora deixe transparecer a euforia por conquistar uma vaga inédita no Mundial, o capitão togolês sabe das dificuldades que precisou superar para chegar até a Alemanha.

Para as nações do continente, falar em organização no futebol parece ser ainda uma utopia. Em entrevista exclusiva, Dosseh comentou a respeito de como o esporte é tratado em Togo. “Para mim é uma catástrofe. Não temos campos com um gramado aproveitável em lugar algum, e por isso acredito que nos daríamos bem jogando na areia”, afirma, sem perder o bom humor.

Por conta de tantas adversidades, o capitão togolês mantém os pés no chão quanto ao desempenho da seleção na Copa. Enquanto se espera haver sempre uma surpresa da África no torneio, Dosseh traçou planos bem realistas. “Posso dizer que Togo não possui grandes chances de ir muito longe”, ponderou.

Nesta entrevista, o defensor ainda falou sobre as características principais da seleção, opinou sobre os adversários da primeira fase, esclareceu os problemas durante as eliminatórias com a troca de treinadores e falou sobre o fracasso nas eliminatórias de times mais tradicionais como Camarões e Nigéria. Depois da Copa, tudo será diferente para o país. “Muitos falarão de Togo”, garantiu Dosseh.

Confira abaixo a entrevista completa

Nós no Brasil não temos uma idéia de como é a situação do futebol em Togo. Como o país está em termos de organização?
Hoje a organização do futebol no Togo está bem atrasada. Neste ano, o campeonato nacional foi disputado em uma temporada regular, diferente do passado. Esta é uma das dificuldades para elevar o nível. Os países do norte da África, Camarões e Nigéria estão mais organizados do que nós em termos de campeonato.

E quanto à infra-estrutura? Há bons estádios no país?
Para mim é uma catástrofe. Não temos campos com um gramado aproveitável em lugar algum, e por isso acredito que nos daríamos bem jogando na areia (risos). Há o estádio de Lomé que podemos chamar de aceitável.

Mesmo com tantos problemas, o público costuma freqüentar os jogos?
Apesar de não termos bons estádios, o público comparece aos jogos. Mas isso depende de qual equipe está em campo. Alguns times apresentam um bom nível de jogo e atraem as pessoas. Porém, há alguns anos, o número de espectadores nos estádios caiu muito. Isso tem uma explicação, porque a principal despesa do povo é comer, antes de qualquer outra coisa.

Quando você sentiu que a classificação para a Copa estava garantida para Togo?
Foi quando nós ganhamos do Mali. Fizemos um grande esforço e vi a capacidade do nosso time se classificar para a Copa do Mundo.

Senegal foi uma seleção estreante em 2002 e surpreendeu com uma boa campanha na Copa. Acredita que Togo seja capaz de fazer o mesmo?
Sim, é possível. Quando começaram as eliminatórias, não pensava que poderia ir à Copa do Mundo. Uma vez que nos classificamos para o Mundial, acredito que possamos surpreender da mesma forma que os senegaleses em 2002.

Grande parte dos jogadores togoleses atua no futebol francês. Qual será as sensação de enfrentar a França na primeira fase?
Para nós que jogamos na França será muito bom jogar contra eles, pois é uma partida que atrairá muito a atenção do público. Muitos falarão de Togo, e pouca gente conhece a seleção.

Na sua opinião, você acha que Togo caiu em um grupo fácil?
O grupo não é tão fácil assim. Posso dizer que Togo não possui grandes chances de ir muito longe. Mas no futebol a teoria é diferente da prática. Temos confiança, jogamos sempre com o coração e acredito que possamos surpreender.

Qual a sua análise dos adversários da chave?
No papel, a França está acima dos rivais do grupo. Em seguida, viriam a Suíça e a Coréia do sul. Conheço pouco sobre os sul-coreanos. Apenas sei que é uma seleção cujos jogadores correm bastante e não desistem nunca das jogadas. Creio que será um adversário muito difícil. A Suíça não perdeu para a França nas eliminatórias, por isso posso dizer que é um rival de peso. Como eu disse, nossas chances são mínimas. E ainda tem a França… mas sei que para os jogadores togoleses tudo é possível, e podemos passar por eles.

Muitos dizem que a seleção togolesa é “Adebayor e mais dez”. O que você acha dessa opinião? Quais outros jogadores merecem destaque?
Sem dúvida o Adebayor é o jogador mais conhecido, mas todos os jogadores contribuíram com algo para a seleção. O futebol é um esporte coletivo. Não dá para falar nomes, até porque nosso forte está no coletivo.

Você é o capitão e um dos jogadores mais velhos do elenco. Como trabalhou com os mais jovens para diminuir a ansiedade?
Nossa equipe realmente é muito jovem, e isso me assusta um pouco. Creio que os jogadores mais novos estejam à altura da pressão e bem preparados para disputar a Copa, pois atuam em bons clubes na Europa. Espero que eles não se esqueçam de jogar quando estiverem no Mundial.

A Copa oferece uma grande visibilidade para os jogadores. Até que ponto a oportunidade de se transferir para um grande clube atrapalhará a concentração dos jogadores togoleses?
Depende de como este fato será encarado por cada jogador. Pode ser positivo se todos levarem este interesse para o lado coletivo, fortalecendo nosso time. Por outro lado, será ruim se cada um passar a jogar por si próprio para se valorizar. Aposto na força coletiva do nosso grupo, pois não valerá nada se formos desclassificados logo. Se conseguirmos ir além na Copa, todos falarão de nossa seleção.

E você, acredita que possa surgir uma proposta de um grande clube?
E por que não? Mas não estou desesperado por uma negociação. Tenho 30 anos, sou um defensor. Mas o futebol tem das suas. Porém, não tenho isso em mente. Quero ter uma boa participação na Copa e, antes disso, jogar bem na Copa Africana de Nações.

Você passou grande parte de sua carreira no Amiens. Depois de mais de dez anos, passou a jogar pelo Dunquerque, da quarta divisão francesa. O que te motivou a fazer esta mudança?
Na verdade, permaneci dez anos como profissional no Amiens e não houve acordo para que meu contrato fosse renovado. Eles não queriam que eu disputasse a CAN. Como sou o capitão da seleção, não poderia ficar de fora deste torneio por Togo. Os jogadores não me perdoariam por isso. Para não ficar sem nada para fazer, pedi ao Dunquerque para que pudesse atuar por lá.

Quais são seus objetivos com o Dunquerque?
A meta principal é fazer o clube voltar a fazer parte do National [3ª divisão francesa]. Hoje não estamos muito bem classificados, mas espero melhorar, pois temos bons jogadores. Para mim, será muito importante atuar bem e me preparar para disputar a Copa.

Nas eliminatórias, Togo chegou a ser comandada pelo brasileiro Antonio Dumas, que trouxe alguns jogadores naturalizados para a seleção. No entanto, o time não rendeu muito bem. O que houve? Como os atletas togoloses reagiram com esta atitude do técnico?
Os jogadores não gostaram da decisão do treinador. A maior parte dos atletas trazidos por ele estavam em um nível abaixo dos demais, mas tinham a confiança por conta da esperança de que trouxessem algo a mais. Apenas um ou dois realmente tinham valor. Alguns togoleses tiveram vontade de abandonar a seleção. Tentei falar com alguns deles para que desistissem da idéia. Para mim, eles eram considerados como togoleses também. São como os jogadores nascidos na África e que defendem a seleção francesa. Eu particularmente não me senti incomodado por isso. Logo nos esquecemos disso e jogamos como se fôssemos todos togoleses. Mas é verdade que os brasileiros não trouxeram muita coisa a mais.

Dumas foi demitido e Stephen Keshi assumiu o cargo. Quais mudanças foram as mais importantes com a chegada dele?
Algumas coisas mudaram na federação togolesa com a chegada de Stephen Keshi. Os treinadores anteriores possivelmente tiveram alguns problemas que os impediram de conseguir fazer um bom trabalho. Com Keshi, a seleção pôde organizar alguns amistosos no exterior, na Europa, por exemplo. Isto foi algo que nunca havia acontecido com Togo. Além disso, ele trouxe um pouco mais de rigor com a preparação dos jogadores. Com ele a situação está bem melhor.

Você já trabalhou com treinadores sulamericanos, europeus e africanos. Quais as diferenças de estilo entre cada um deles?
Não há muita diferença entre os treinadores sul-americanos e africanos. Os africanos enfrentam um pouco mais de problemas com as federações, porque nem sempre são ouvidos e têm aquilo que pedem. Os europeus, ao contrário, recebem tudo o que pedem, são mais rigorosos. Mas os africanos conhecem muito melhor os jogadores.

Houve algum tipo de problema dos jogadores que atuam na Europa para conseguir a liberação dos clubes para atuar nas eliminatórias?
Os clubes europeus precisavam de seus atletas e dificultaram a liberação deles. Este não é meu caso hoje, por isso não quis continuar no Amiens para poder jogar a Copa da África também. Os times ficam irritados com isso, mas eles sabem bem antes de contratar um jogador que ele deve atuar pela seleção. Não entendo porque os clubes agem assim. Eles contratam jogadores africanos porque são bons atletas. Se são bons, eles são convocados pelas seleções deles. Mas os clubes dificultam a liberação para que os jogadores possam defender seus países.

Como será a preparação de Togo para a Copa?
Certamente haverá amistosos de preparação, mas também a Copa Africana de Nações fará parte desta programação. Vamos ver o que acontecerá no torneio. Jogaremos a CAN também pelo Mundial.

Há a tese de que as seleções africanas possuem um estilo ofensivo de jogo, porém descuidam do lado defensivo. Você concorda com esta visão?
Na África nós não pensamos o jogo de uma forma defensiva, isso começa desde o ataque. É verdade que no plano defensivo realmente é preciso aprimorar um pouco, até porque a maioria dos nossos jogadores atua na Europa. No plano defensivo precisamos melhorar, mas também é certo dizer que, com relação ao ataque, todo mundo quer marcar um gol. As equipes africanas possuem dificuldades para jogar de forma defensiva.

Quais são os pontos fortes e fracos de Togo?
Nosso ponto forte está no fato de ninguém nos conhecer muito bem. As pessoas não sabem como atuamos e, por isso, teremos maior facilidade para surpreender. Além disso, não há estrelas na equipe. Todo mundo prioriza o lado coletivo. Jogamos com o coração, pois este é um momento que nunca havia chegado para nós. O ponto fraco reside no pensamento de que não conseguiremos ir muito longe tanto na Copa do Mundo como na CAN. A equipe também é muito jovem e poderia não suportar bem a pressão no Mundial. Ou melhor, não sabemos como será a reação dos atletas com a participação em um grande torneio. Creio que isto possa nos prejudicar.

A África terá quatro seleções estreantes na Copa. O que houve para haver esta renovação? As seleções mais conhecidas como Nigéria e Camarões tiveram uma queda de qualidade ou os demais países africanos apresentaram uma grande evolução nos últimos tempos?
Mesmo sem se classificar para a Copa, Nigéria e Camarões continuam sendo os países do futebol, com grandes jogadores e boas equipes. Mas imagino que seja uma situação difícil para as grandes nações do passado. É preciso ganhar as partidas em casa, para evitar tropeços que dificultem o caminho [Camarões ficou de fora da Copa ao empatar com o Egito; a Nigéria não passou do 1 a 1 contra Angola]. Outros países apresentaram uma boa evolução no futebol, até porque boa parte dos atletas está na Europa. Mas, para mim, Camarões e Nigéria continuam sendo grandes seleções.

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Equipe Trivela

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