A vida do Doutor na Europa

A passagem de Sócrates pela Europa foi rápida. Permaneceu apenas uma temporada na Fiorentina, a de 1984/85. Em sua chegada, foi exaltado pelos principais jornais locais. “Sócrates chegará aqui no esplendor de sua forma”, apontou a Gazzetta dello Sport. Era a contratação de um personagem que transcendia ao simples jogador de futebol.

Sócrates era o capitão da seleção brasileira e um dos artífices do time de 1982. Chegou à Itália depois de Falcão, Zico e Toninho Cerezo, completando o meio-campo que tinha encantado dois anos antes na Espanha. Moraria em Florença, cidade considerada pelos próprios italianos como a de melhor qualidade de vida do país, historicamente marcada pelo Renascimento.

O Doutor era, mais que tudo, um personagem político. Deixou o Corinthians depois que a proposta das Diretas Já, a qual apoiava nos comícios, foi rejeitada no Congresso Nacional:  “Fui para a Fiorentina por causa das Diretas Já. Fiquei absolutamente frustrado com a derrota. Naquele momento, com o grau de mobilidade da sociedade, a gente não conseguiu pressionar o Congresso para responder nossos anseios”, afirmou, em entrevista à extinta Revista Invicto, em 2010.

Participou de 25 partidas e balançou as redes seis vezes, mas a Viola não passou da nona colocação na Serie A. Sua saída do clube foi conturbada. Teve uma briga por conta de uma dívida do clube que o presidente, o conde Ranieri Pontello, se recusava a pagar. A rusga aumentou ainda mais quando sua negociação com a Ponte Preta em 1985 foi por cancelada e ele permaneceu na Itália.

Já desligado pelo clube, mas com direitos pendentes, Sócrates foi assistir a um amistoso da Fiorentina no estádio. Foi vaiado pelas sociais, chamado de palhaço, mas aplaudido pelas gerais. Sentou-se com na geral, com “o povão”, e saiu de bem com a torcida.

E como era a sua vida em Florença? “Foi triste. Muito triste. Sou brasileiro até no nome. Fiquei um ano, não aguentei e vim embora. É triste morar fora, uma vida ruim. Quem não assimila isso não consegue transformar a sua atividade em arte. O espírito aqui no Brasil tem ligação com liberdade, independência, criatividade. Ao contrário do europeu, que é quadrado, planejado, não consegue se mexer. É uma sociedade velha”.

O imbróglio só teria capítulo final em 1986, quando finalmente reestreou por outro clube brasileiro, o Flamengo. Ainda passaria por Santos e pelo Botafogo de Ribeirão Preto, time pelo qual foi revelado, antes de se aposentar. Faleceu na madrugada deste dia quatro de dezembro, após complicações causadas por uma infecção intestinal. Fica a homenagem a um craque da bola e da vida.

A repercussão do adeus
Atualizado às 18h02

 

A morte de Sócrates rendeu tributos em diversos veículos de imprensa ao redor do mundo. As maiores homenagens aconteceram nos periódicos italianos. A Gazzetta dello Sport fez uma longa matéria especial sobre o tema, repassando a carreira do brasileiro. “Adeus Sócrates, o Doutor de Florença”, diz a manchete do Corriere dello Sport.

O El País, da Espanha, classifica Sócrates como um “democrata do futebol” e se aprofunda também nos pensamentos políticos do ex-meio-campista. O artigo do inglês Guardian o coloca como o “pintor do Brasil em campo que teve negada a glória mundial”. O Doutor ganhou espaço até mesmo na página online do New York Times, dos Estados Unidos.

Na Argentina, o site do jornal Olé demonstrou seu respeito na manchete “Se foi um grande”.  A revista El Gráfico, por sua vez, recontou a história a partir da chegada do jogador ao Corinthians.

O francês L’Equipe divulgou uma entrevista com o ex-jogador Alain Giresse, adversário durante a Copa do Mundo de 1986: “Sócrates foi o coração daquele time de excepcional de 82. Ele acrescentava ao time inteligência, técnica e visão de jogo”.

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