A Folha e as estatísticas

Há algumas semanas, postei aqui no blog uma brincadeira sobre as novas tendências do jornalismo esportivo que, reproduzido por outros blogs, fez relativo sucesso. Falava, claro, de nomes consagrados, gente que, ao contrário de mim, já tem história na profissão. Se não, que graça ia ter eu falar?

A maior parte das reações foi bem humorada, mas justamente onde eu não esperava houve um mal-estar: na Folha, onde trabalhei por algum (pouco) tempo e onde só deixei amigos. O “sacaneado” pelo post, o repórter Paulo Cobos, é querido por todos, e além disso nem estava no Brasil. O comentário, pelo que ouvi, foi o de que o post era uma babaquice de um “foca” querendo se promover em cima de repórteres consagrados.

Aceito a parte do “foca”: foi na Folha que aprendi o pouco que sei – embora não com o Paulo Cobos, que não estava lá no período em que estive. E dos profissionais consagrados, idem. Se não fossem consagrados, quem é que ia entender a brincadeira? Quanto a querer me promover, coloco na conta da amizade da turma pelo Cobos. Como ficou claro para todo mundo que me escreveu ou ligou, inclusive alguns dos “sacaneados”, foi uma brincadeira com as marcas do estilo de cada um.

Volto ao tema um pouco porque não imaginei que ia causar desconforto em pessoas de quem gosto, e faço questão de deixar isso claro. Mas, principalmente, por causa da matéria de hoje do repórter Paulo Cobos, na qual ele analisa a seleção com o Kaká, Ronaldinho e Robinho juntos. De acordo com as contas, com o trio jogando, o Brasil “fica mais frágil e ineficiente”. A conclusão é baseada inteiramente em números frios. O que, me parece claro, deveria ser evitado.

A estatística por si só não é ridícula, mas a forma como é apresentada deixa margem para achar que é. Diz o texto que os trio jogou desde o início em 13 jogos na era Dunga, e compara estatísticas desses jogos com as dos outros, em que o trio não atuou completo desde o início. Não faz, entretanto, o básico: que jogos foram esses em que os três atuaram juntos? E em quais não atuaram? Quais foram as circunstâncias de cada partida? Qual era o esquema de jogo do time em cada uma delas?

Talvez o repórter tenha se feito todas essas perguntas, e as respondido satisfatoriamente para sua tese. O leitor, entretanto, não sabe disso. Da forma como está, é um punhado de números vazios, que não dizem nada, não servem para nada e servem para esvaziar uma discussão importante. Coisa que um “foca” até pode fazer, embora não repetidamente. Mas que um repórter experiente não deveria.

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Equipe Trivela

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