A desumanização do torcedor

Um indivíduo é várias coisas ao mesmo tempo. Ele pode ser homem ou mulher, homossexual ou heterossexual, branco ou negro (ou índio, ou oriental, ou a mistura de algumas dessas coisas), gremista ou corintiano (ou colorado, ou flamenguista, ou palmeirense, ou cruzeirense…), esquerdista ou direitista (ou apolitizado), católico ou evangélico (ou judeu, ou muçulmano, ou espírita…), racional ou emocional… Bem, deu para entender. Há várias condições que se unem para definir a personalidade de uma pessoa. Algumas são de nascença. Outras se adquirem com o tempo.

Há, porém, uma condição que está acima de tudo, que é igual a todos: somos seres humanos. Como seres humanos, deveríamos ter uma dose de instinto selvagem, mas também deveríamos ter em maior dose o instinto de autopreservação (do indivíduo e da espécie) e de viver em coletividade.

Bem, é assim com pessoas normais, mas as discussões futebolísticas passaram do limite do razoável e fizeram muitos torcedores acharem que devem aplicar o instinto selvagem. Como se discutir o futebol fosse questão de matar ou morrer, em que vale qualquer tipo de ataque ou agressão – mesmo que verbais – para vencer um debate.

Conceitos de ética já ficaram de lado há anos, o que fica evidente na atitude de torcedores que acham legal que seu time trapaceie para conseguir alguma vantagem, como captar dinheiro imoral ou ilegal, vencer fora da regra ou mesmo desrespeitar o direito do oponente. Mas essa questão aí já ficou tão batida que muita gente nem briga mais por ela.

O problema mesmo é a desumanização, e um grande exemplo vi em um blog aqui da Trivela nesta semana. O Menon desabafou contra o futebol brasileiro, e o descaso que permitiu que um garoto de 14 anos morresse em um treino da categoria de base do Vasco, sem médico de plantão e com a suspeita de que não teria sido devidamente alimentado antes da atividade física.

Em um dos primeiros comentários (talvez o primeiro, não tenho estômago para voltar lá e conferir), um imbecil escreveu algo assim: “é assim mesmo que tem que fazer. Fica tratando bem esses moleques e eles te fodem. É só ver o caso do Oscar com o São Paulo”. Imagino que o imbecil em questão seja são-paulino, mas poderia torcer para qualquer time, pois há figuras igualmente infelizes em todas as torcidas brasileiras.

Veja bem: o cretino (e estou sendo econômico nos adjetivos ao sujeito) perdeu tanto a noção da realidade que ele acha que é justificável e aceitável criar situações que levem uma criança de 14 anos à morte. A vida de uma criança vale menos que a irritação que ele passou porque um jogador entrou na Justiça para sair de seu clube.

O torcedor que pensa assim não é mais um ser humano. Perdeu sua humanidade, sua condição mais básica como indivíduo. Só não digo que ele virou um animal porque os animais são muito mais evoluídos que esse infeliz.

Ubiratanice do dia
Não importa se fica gostoso ou não, se é saudável ou não. Pizza que merece respeito não pode ter catchup, maionese, frutas em geral, batata, brócolis, escarola, alface, rúcula ou qualquer outro legume ou folha. Pizza é simples: basta criar alguma combinação com molho de tomate, queijo(s), carne de porco, frango, peixe, cebola, ovo, pimenta ou milho. Orégano ou manjericão em cima é bem vindo. Pronto.

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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