A crise de Proficulato

Destemido. Vanguardista. Meticuloso. Estrategista. Ludopédico Proficulato era o que se podia chamar de unanimidade até para quem não concordava com nada, nem com si próprio. Hábil, treinador eloqüente, podia armar um esquadrão do goleiro ao ponta esquerda ou erguer, com material escasso e de péssima qualidade, um time competitivo.

Alvissareiro de uma nova geração. A Solução. O caminho para as vitórias. Ludopédico era disputado a tapas pelas grandes agremiações, que não tinham pudores em açoitar com a má língua da descompostura os técnicos que ainda estava no comando dos respectivos clubes. Aqueles com o mínimo de dignidade retiravam-se, já outros arrumavam o verniz do rosto maciço e seguiam em frente. Em todo o caso, era certeza inexpugnável que momentos tempestuosos aguardavam estes profissionais.

No entanto, numa súbita reviravolta a crise se instalou. Não lembro precisar o momento exato quando isso aconteceu e nem sei o momento que eu percebi isso. Proficulato não acertava mais nada. A regularidade passou a ser acompanhada dos erros. De Proficulato, logo passaram a chamá-lo de Asnoculato. O que teria acontecido com o estrategista, estudioso, os olhos argutos para táticas e descobertas de talentos promissores?

Explicações empíricas, científicas, cabalísticas tomaram conta da imprensa e dos torcedores. Todos bradavam teorias mirabolantes, idéias fantásticas brotavam para explicar a queda intrépida do antes absoluto gênio da prancheta. Falta se atualizar. Está ficando caquético. Não consegue explicar ao jogador o que ele tem que executar em campo. Incrível como as palavras tornaram-se inimigas de Proficulato, as mesmas letras que antes o carregavam agora pisavam no acossado técnico.

Há de se registrar que felizmente, Proficulato não foi tomado por uma súbita e trágica perda de massa cinzenta. Tão pouco passou a ignorar o futebol. Muito menos tinha se tornado ultrapassado. Não obstante, o problema era outro, ainda mais complexo. Melancolicamente, a auto-indulgência das quatro linhas acometeu Proficulato. O grande mal do ser humano chegou até ele, justamente um dos mais correlatos do meio.

O interesse nos valores das negociações subjugou a qualidade do jogador, as roupas simples foram deixadas de lado, tudo o que o fez chegar até onde estava foi esquecido. Proficulato tirou a escada enquanto ainda estava subindo. E o pior de tudo é que acreditava que o apoio não existia, ele tinha feito tudo sozinho.

Não me lembro o que aconteceu com o Proficulato. Acho que a última vez que eu ouvi falar dele, o cidadão estava em um clube grande, enganando e sendo ludibriado. Continuava a ganhar muito dinheiro, mas não lembrava nem de perto o grande sujeito e treinador que tinha sido. O mais lúgubre é que muitos de boa índole davam atenção ao que ele continuava a dizer. E no devaneio de crenças até pueris, aceitavam tudo o que ouviam.

Certa vez, perguntado sobre a sua carreira, Proficulato desenvolveu um discurso robótico, decorado, enumerando títulos, clubes e finalizando com a sapiência máxima de se você quer saber se eu sou vitorioso, o quanto eu ganho é uma das maneiras de ter a certeza. Não sei quanto aos outros, mas para mim Proficulato é mais uma triste história do futebol, alguém brilhante que se perdeu e acabou na pobreza. Neste caso, na miséria de caráter. No lugar da escola tática, foi esta lição que Proficulato ajudou a disseminar no futebol.

Certa vez, ouvi dizer que Proficulato era chamado agora de Peculato. Mas não tenho certeza disso…
 

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