A Copa de 2010 começa agora

Entre 25 de agosto e 7 de setembro, acontecerá a décima terceira edição dos Jogos do Pacífico Sul, em Samoa. Na modalidade futebol, dez seleções que estão entre as piores do planeta enfrentam-se no complexo Joseph S. Blatter, situado em Ápia, capital samoana. Apesar da maciça presença de jogadores semi-profissionais, da longa inatividade de algumas seleções da região (a maioria fez sua última partida em 2004) e do nível técnico risível, o torneio tem com a FIFA uma relação que vai muito além do nome da praça esportiva que abrigará duelos como Tonga x Vanuatu.

Os Jogos do Pacífico Sul de 2007 funcionam, também, como estágio inicial da Copa das Nações da Oceania e, principalmente, como primeira fase das Eliminatórias da Oceania para a Copa de 2010. Os três primeiros colocados se unem à Nova Zelândia na segunda fase, disputada sob a forma de um quadrangular, com partidas de ida e volta. O melhor dentre os quatro assegura a chance de travar, contra o quinto lugar das Eliminatórias asiáticas – e não mais o das sul-americanas -, uma luta por um cantinho na Copa do Mundo da África do Sul.

E a Austrália, onde fica em tudo isso? Na Ásia. Descontentes com a “meia vaga” disponibilizada para a Oceania, os Socceroos há tempos pleiteavam uma “mudança de continente”, solução recentemente autorizada pela FIFA. Por isso, a Austrália, hoje, concorre a uma das 4,5 vagas destinadas à Ásia, ao passo que a “meia vaga” da Oceania deixa de ter a seleção de Harry Kewell e Mark Viduka como dona permanente. Esse cargo foi repassado, teoricamente, para a Nova Zelândia. Apenas teoricamente.

Nas últimas Eliminatórias, esperava-se que os All Whites (esse é o apelido do escrete neozelandês) fossem os adversários da Austrália no play-off decisivo da Oceania. Afinal, os dois países são os únicos do continente que já tomaram parte em Copas do Mundo (Nova Zelândia em 1982 e Austrália em 1974 e 2006) e sempre estiveram bem acima da fraquíssima vizinhança. A heróica seleção das Ilhas Salomão, no entanto, desbancou os All Whites, atingindo a decisão contra os australianos. Essa zebraça de poucos anos atrás serve de exemplo para os salomônicos e para os times dos outros arquipélagos. Caso um deles surpreenda a Nova Zelândia novamente, estará a um passo da Copa. Um passo complicado, é verdade: para as seleções do Pacífico Sul, confrontos com equipes como Irã, China ou Iraque representariam grandes obstáculos. Irônico seria topar com a Austrália…

Antes da apresentação do regulamento dos Jogos do Pacífico Sul e dos perfis das equipes que deles participarão, um detalhe intrigante: Tuvalu, nação que ainda não é filiada à FIFA, está na competição e, portanto, pode, em tese, avançar ao quadrangular. Sua improvável classificação provocaria problemas, pois, embora não esteja habilitado para lutar por um lugar no Mundial, o país tem o direito legítimo de brigar pelo da Copa das Nações da Oceania. A Confederação de Futebol da Oceania reza para que Tuvalu cumpra com discrição seu papel de figurante.

Regulamento

Os dez times estão divididos em dois grupos de cinco. Do Grupo A fazem parte Fiji, Taiti, Nova Caledônia, Ilhas Cook e Tuvalu. Pertencem ao Grupo B Ilhas Salomão, Vanuatu, Samoa, Tonga e Samoa Americana. As equipes jogam entre si dentro dos grupos, e os dois primeiros de cada um deles garantem vaga nas semifinais. Depois da decisão do título dos Jogos do Pacífico Sul, os dois finalistas e o terceiro colocado (haverá um jogo para defini-lo) entram no quadrangular que vale o título da Copa das Nações e a vaga no play-off da Copa do Mundo, contra uma seleção asiática. Vale lembrar que a Nova Zelândia completa a lista de componentes do mencionado quadrangular.

Grupo A

Fiji
O técnico da seleção fijiana, 165a colocada do ranking da FIFA, é o uruguaio Juan Carlos Buzzetti, que, nas Eliminatórias para a Copa de 2006, treinava Vanuatu. Na ocasião, conseguiu uma memorável vitória (por 4 a 2) sobre a Nova Zelândia. Sob o comando de Buzzetti, Fiji também foi capaz de bater os neo-zelandeses – isso ocorreu há poucos dias, num amistoso. Embora os All Whites não tenham utilizado seus titulares, o raro triunfo não deixa de ser um dado animador. O gol da vitória de Fiji nesse recente duelo foi marcado por Roy Krishna, garoto de 19 anos conhecido como “Wonder Kid” no arquipélago composto por 322 ilhas. A velocidade do jovem ataque fijiano poderá compensar a ausência do contundido centroavante Esala Masi, 33 anos, maior figura do futebol de Fiji até hoje.

Comparada a outras seleções do Pacífico Sul, a de Fiji conserva alguma respeitabilidade. Foi campeã da última edição dos Jogos, em 2003, e tem um saldo negativo de apenas dois gols na história de Eliminatórias de Copa (67 feitos, 69 sofridos). Nada mal, se levarmos em conta as goleadas impiedosas que a Austrália costumava aplicar em todos os oponentes da Oceania.

Taiti
A seleção taitiana, vencedora do torneio de futebol dos Jogos do Pacífico Sul em 1966, 1975, 1979, 1983 e 1995, ocupa o 180o lugar no ranking da FIFA. Sua última aparição deu-se em 2004, em jogos válidos pela Copa das Nações da Oceania e pelas Eliminatórias 2006, simultaneamente. O penúltimo compromisso dessa campanha foi uma desastrosa derrota, a pior de sua história: 0x10, frente à Nova Zelândia. O atual técnico Gerard Kautai, jogador da seleção nos anos 70, já dirigia o Taiti em 2004. Aliás, exerce tal função há dez anos.

O principal jogador taitiano, o atacante Marama Vahirua, tem 27 anos e joga no Lorient, da França. Tem no currículo passagens por Nantes e Nice. Em Samoa, porém, o Taiti vai ter de se virar sem ele. Uma das fontes de jogadores selecionados é o AS Pirae, time do próprio país, que decidiu a Copa dos Campeões da Oceania de 2006 com o Auckland City, da Nova Zelândia. Em que pese o desfalque de seu jogador mais relevante, a seleção taitiana tem boas chances de progredir, mas só até certo ponto – chegar à Copa, por exemplo, é paradisíaco demais. Mais até do que os bangalôs sobre as águas de Bora Bora.

Nova Caledônia
A seleção neocaledônia, atual 178a colocada do ranking da FIFA, filiou-se à entidade em 2004. Sagrou-se campeã dos Jogos do Pacífico Sul em 1963, 1969, 1971 e 1987. Há pouco tempo, realizou dois amistosos contra Vanuatu, vencendo um (5×3) e perdendo o outro (0x2) Como Vanuatu é uma das favoritas à classificação no grupo B, os resultados podem ser tidos como positivos.

O jogador mais importante de Nova Caledônia é o atacante Michael Hmae, autor de dez gols com a camisa da seleção. Ele defende o AS Magenta, time caseiro. Embora bastante modesta, a equipe neocaledônia tem condições de obter um posto nas semifinais, já que Ilhas Cook e Tuvalu parecem ainda mais frágeis.

Ilhas Cook
O primeiro embate da seleção das Ilhas Cook aconteceu em 1971. Nada poderia ser mais traumatizante: o Taiti lhe impôs um humilhante 30 a 0. O último jogo das Ilhas Cook de que se tem notícia – derrota de 8×0 diante da Nova Zelândia, em 2004 – também deixou amargas lembranças. No ranking da FIFA, a seleção do país ocupa a 198a posição. Haveria algum elemento capaz de se contrapor ao inevitável prognóstico de eliminação para o selecionado desse arquipélago de 18.000 habitantes?

Com boa vontade, dá para encontrar um: o treinador (Tim Jerks) é australiano e uns poucos jogadores atuam em clubes da Nova Zelândia. Não significa tanto, mas confere ao time alguma experiência internacional.O atacante Joseph Chambes, jogador com o maior número de convocações no percurso histórico as seleção de Ilhas Cook, é o destaque do time.

Tuvalu
Como já se disse acima, Tuvalu ainda não se filiou à FIFA e entra (paradoxalmente) nas Eliminatórias da Copa, com a missão de ser eliminado. O país tem um território de apenas 26 quilômetros quadrados e sua capital chama-se Funafuti. Algo a ver com futebol? Provavelmente, não. A vitória mais elástica que a seleção já obteve foi um 5 a 3. Sobre Tonga, é bom acrescentar.

Enquanto Tuvalu, com seus 10.000 habitantes, desempenha esse estranho papel nos Jogos do Pacífico Sul, Papua Nova Guiné, país que tem a segunda maior população da Oceania (4,5 milhões, inferior apenas à da Austrália) e é membro da FIFA, está fora. O país não se inscreveu na competição.

Grupo B

Ilhas Salomão
Na primeira fase das Eliminatórias para a Copa de 2006, a seleção salomônica produziu sua maior façanha: um empate (2×2) com a Austrália, que colocou o time acima da Nova Zelândia na tabela. Ambos os gols foram marcados por Commins Menapi, atacante do Waitakere United, clube neozelandês. Menapi não é o único “estrangeiro” do time: vários integrantes do elenco que está em Samoa atuam em times neozelandeses ou australianos. O treinador é Aírton Andrioli, brasileiro que, quando jogador, esteve na liga australiana. Entre os atletas que defendem clubes das Ilhas Salomão, o destaque é o defensor Gideon Omokirio.

Nos últimos dois anos, a seleção só disputou uma partida – vitória por 2 a 1 sobre Papua Nova Guiné -, mas, estimulados pela recente proeza, os salomônicos, que figuram na 168a posição do ranking da FIFA, desejam ser, outra vez, o pesadelo da Nova Zelândia. As cores da bandeira do país (verde, amarelo, azul e branco) são igualmente inspiradoras.

Vanuatu
Ettienne Mermer, atacante que joga no futebol australiano, é o jogador mais conhecido da seleção vanuatense, 177a colocada no ranking da FIFA. O técnico Job Alwin substitui Juan Carlos Buzzetti, que levou Vanuatu a uma inesperada vitória sobre a Nova Zelândia (4×2), nas Eliminatórias para a Copa de 2006.

Recentemente, os vanuatenses encararam Nova Caledônia em dois amistosos, nos quais colheram uma derrota e uma vitória. Como Tonga e Samoa Americana possuem times muito ruins, é possível que Vanuatu brigue diretamente com a anfitriã Samoa por uma vaga nas semifinais. O jogo entre as duas seleções está marcado para a primeira rodada do certame.

Samoa
Em 2001, a seleção de Samoa aniquilou Samoa Americana por 8 a 0. Sabe-se que Samoa Americana é um péssimo parâmetro, mas o resultado serve, ao menos, para mostrar que os samoanos de Samoa são melhores que os samoanos de Samoa Americana. Além disso, Samoa conta com um técnico nascido na terra que inventou o futebol, o inglês David Brand, que, segundo a esposa, casou-se numa sexta-feira e, no sábado, já estava jogando futebol. Pelo visto, não vai lhe faltar fôlego para berrar à beira do campo. Brand assumiu a seleção samoana em novembro de 2002. Outro ponto favorável a Samoa é o fato de jogar em seus domínios. Não que o público se entusiasme muito com futebol – os samoanos preferem rugby -, mas casa é sempre casa. Junior Michael, que marcou dois gols nas Eliminatórias para a Copa de 2006, é um dos principais jogadores de Samoa inscritos nos Jogos.

Para concluir, um pormenor interessante: o horário de Samoa tem 11 horas de atraso em relação ao do meridiano de Greenwich. Fiji, por sua vez, está 12 horas à frente. Isso significa que, quando os Jogos começarem, na tarde de sábado (dia 25) samoana, já será tarde de domingo em Fiji.

Tonga
A única conquista do futebol de Tonga ocorreu numa Copa da Polinésia realizada em 1993. Os adversários eram Samoa e Ilhas Cook. Hoje, a seleção tonganesa ocupa o 192o lugar do ranking da FIFA e é treinada por Milan Jankovic. Ex-jogador da antiga Iugoslávia, Jankovic, portador de bagagem internacional adquirida em ambientes de alta competitividade (defendeu o Estrela Vermelha e o Real Madrid), é a grande arma de Tonga. Quiçá a única.

Os dois primeiros duelos de Tonga serão contra Ilhas Salomão e Samoa, dois dos mais fortes candidatos a vagas nas semifinais. Logo, é possível que Tonga apenas cumpra tabela em suas duas últimas partidas.

Samoa Americana
O ano era 1983. O dia, 22 de agosto. O que você estava fazendo nessa data? Samoa Americana estava batendo Wallis and Futuna por 3 a 0. Um êxito para não ser esquecido. Afinal de contas, foi o único. A seleção de Samoa Americana exibe 30 confrontos em seu currículo e coleciona 29 derrotas. Empates? Nenhum. Vitórias? Somente aquela, sobre o Wallis and Futuna, numa jornada épica de 1983.

No ranking da FIFA, Samoa Americana aparece no 199o lugar. Em 2001, sofreu a mais acachapante derrota da história dos jogos entre seleções nacionais: 31 a 0 para a Austrália. Jogos como esse motivaram Archie Thompson, jogador da seleção australiana, a declarar certa vez, a respeito das Eliminatórias da Oceania: “Nós não temos de jogar essas partidas. Elas são uma grande perda de tempo.”. No processo de qualificação para a Copa de 2006, realizado em 2004, Samoa Americana anotou apenas um gol, por meio de Natia Natia, que ainda faz parte da equipe. Desde então, o time não atua, para tristeza dos apreciadores de escores grandiosos.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo