A bipolaridade e o Botafogo de 2012

Em alguns dias, o filme “Heleno, o príncipe maldito” vai estrear. Todos vão gostar. Quem gosta de futebol, quem gosta de cinema, quem gosta do Rodrigo Santoro e quem gosta do Botafogo. Esses últimos, em especial, vão ficar saudosos daqueles tempos que não voltam mais – e que, provavelmente, nem viveram. Vão dizer que o Botafogo é isso, um clube que se espelha em seus ídolos, tenham eles alguns parafusos a menos ou não. É Heleno de Freitas, é Garrincha, é Marinho Chagas, é Túlio Maravilha, é isso aí.

Vão dizer também que hoje Loco Abreu e Jóbson são os representantes dessa turma. Gente que tem ficha corrida, seja no manicômio ou no tribunal da Suíça. Rapaziada que de pureza não tem nada e que não esconde isso de ninguém. Gente que se identifica com o time que tem uma torcida chamada Loucos pelo Botafogo e que não tem vergonha de balançar bandeira e confeccionar camisas com o número 22. Clube que, vale lembrar, tem sede em frente ao Pinel*.

* Instituto Philippe Pinel: hospital psiquiátrico em frente à sede de General Severiano

Além Loco e Jóbson, há espaço para Herrera, que também é meio despirocado. Apesar de argentino, ele cava faltas de forma esdrúxula, se amarra (muito) em reclamar com o juiz e fala português muito bem… com os braços. Já empurrou Caio numa partida em que seu time ganhava de 3 a 0. Esse outro, por sinal, também é da turma dos doidinhos, junto com Fábio Ferreira e suas madeixas psicodélicas e a indecifrável personalidade de Elkeson, o ex-menino maravilha.

Mas essa é apenas uma faceta do Botafogo, clube que preza por seus grandes jogadores na história e tem em Nílton Santos sua mais viva representação. O lateral-esquerdo nunca vestiu outra camisa, a não ser a da seleção brasileira. Tirando um pisão para fora da área em 1962* ou um empurrão em Armando Marques túnel do Maracanã abaixo**, Nílton Santos (ou “Niltinho, parceiro das antigas”, para Caio) sempre foi conhecido por sua classe e elegância dentro e fora de campo.

* Se você não conhece essa história, você não é brasileiro. Caso você seja argentino, clique aqui.

** Essa você tem que clicar mesmo que já conheça.

Renato é, sem dúvida, o melhor representante desta escola no atual elenco. Seu comportamento profissional e seriedade invejável talvez até deixem a impressão que ele joga mais do que realmente joga. Útil e indispensável para esse Botafogo, não chega a ser essa Coca-Cola toda, mas dá conta do recado e tem no banco de reservas um companheiro de estilo. Oswaldo de Oliveira, não dá para negar, faz o tipo daquele cara que cheira a taça de vinho duas vezes antes de beber. Nada contra.

Autor de um hattrick no clássico contra o Vasco, o meia Fellype (será que muda para Felllype?) Gabriel acompanha o mestre. Calmo e tranquilo, é daqueles que não incendeia uma partida nem quando marca três gols. Serena o jogo, assim como Jefferson, que alguns ousam chamar de Homem de Gelo e que lembra a frieza do Dida. Apesar de ser tecnicamente o melhor jogador do Botafogo e figura frequente na lista do Mano, o goleiro não é exatamente um líder dentro de campo.

Num time que revela um jogador chamado Lucas Zen (pausa para comentário nonsense: Seria genial se no momento em que a torcida grita o nome dos jogadores no começo da partida, os torcedores fizessem um “Ahummmm”. Com pose, é claro) e que idolatra Jóbson – com apenas 35 jogos pelo clube, 10 gols, dois empréstimos para outros clubes, suspensões, indisciplina e [escreva aqui alguma parada bizarra], a lógica nem sempre faz muito sentido. Se os botafoguenses gostam tanto de dizer que são preto e branco, claro e escuro, luz e trevas, yin e yang, não há nada como um bipolaridadezinha básica para animar a temporada. E deixar a eterna sensação de que alguma coisa está para acontecer ali em frente ao Pinel.

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Equipe Trivela

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