9º – Béla Guttman: inovador, arrogante e vencedor

 

Muitos falam da arrogância e autossuficiência de treinadores como José Mourinho ou do estilo andarilho de técnicos rodados como Bora Milutinovic. Outros ainda mencionam o pioneirismo tático de comandantes como Herbert Chapman ou Vittorio Pozzo. Mas poucos treinadores até hoje juntaram todas essas características de forma tão clássica como Béla Guttmann. E nenhum as congregou de um jeito mais vencedor e histórico como ele nos quase 20 times que treinou no decorrer da carreira.

Vaidoso, pioneiro, nômade, mercenário e ofensivo. Essas talvez sejam as melhores definições para esse húngaro de origem judaica. Não as únicas, mas com certeza as que mais o agradariam.

Atleta contestador

Nascido na cidade de Budapeste, então parte do Império Austro-Húngaro, Guttmann começou defendendo o modesto Törekvés em boas campanhas no nacional húngaro, antes de assinar em 1919 com o tradicional MTK, onde conquistou dois campeonatos nacionais atuando ao lado de Gyula Mándi. Em 1922, assinou pelo Hakoah Viena, lendário time de origem judaica, por onde conquistou um campeonato austríaco, em 1925.

No ano seguinte, em uma turnê do clube pelos Estados Unidos para fortalecer o movimento sionista, o zagueiro e meio-campista, junto com outros companheiros, optaram por ficar no país, que contava com um ainda incipiente campeonato. Em terras americanas defendeu Brooklyn Wanderers, New York Giants, New York Soccer Club e dois times formados majoritariamente por atletas de seu antigo clube austríaco e jogadores judeus: New York Hakoah e Hakoah All-Stars.

Após fazer sucesso na primeira versão da Liga Americana de Futebol (o soccer e não o tradicional americano), conquistando inclusive a Copa dos Estados Unidos em 1929, encerrou a carreira em 1933 novamente defendendo o Hakoah Viena.

Pela seleção húngara atuou em apenas seis partidas, marcando seu único gol na estreia, na vitória por 3 a 0 contra os alemães. Participou dos Jogos Olímpicos em Paris, mas já demonstrando seu espírito contestador, protestou contra o fato de haver mais funcionários do que atletas na equipe húngara. Além disso, reclamou do fato de o hotel ser pouco propício para os treinos.

Começo promissor

Após abandonar a carreira nos gramados, iniciou sua trajetória como técnico no comando do próprio Hakoah Viena, onde teve fracas campanhas no disputado Campeonato Austríaco, obtendo a oitava e duas décimas colocações entre 12 equipes nas temporadas que comandou o time.

Em seguida, rumou para o Enschede, da Holanda. Após um período de adaptação, obteve seu primeiro grande resultado em 1936, ao vencer com o time holandês o grupo do Leste e classificar-se para o hexagonal final, terminando em terceiro lugar, dois pontos atrás do campeão Feyenoord. Mais tarde o time faria parte da fusão que formou o Twente, atual campeão holandês.

No ano seguinte, retornou ao Hakoah, após o clube terminar na última colocação na Liga Austríaca e ser rebaixado. A passagem foi curta, daí rumando para o futebol húngaro, onde daria início a uma promissora carreira no Leste Europeu.

A primeira conquista

Guttmann assumiu o cargo de treinador de seu primeiro time húngaro em 1938, quando assinou com o Újpest, uma verdadeira potência no país, que havia conquistado quatro dos últimos nove torneios nacionais, mas batera na trave nos três anos anteriores.

Logo em seu primeiro ano, e mesmo contando com a forte concorrência de esquadrões como Ferencváros, MTK e Kispest, venceu o campeonato nacional e conquistou seu primeiro título como técnico, na temporada 1938/39, emendando também a Copa Mitropa, competição considerada precursora da atual Liga dos Campeões da UEFA.

Em virtude do início da Segunda Guerra, e pelo fato de ser judeu, se refugiou durante o turbulento período na Suiça. Apesar de pouco mencionado em sua biografia, o período do conflito marcou um trágico fato para Guttmann, que perdeu seu irmão em um campo de concentração.

Retomada pós-guerra

Com o fim do conflito, ele voltou ao futebol da Hungria e fez parte, ao lado de Márton Bukovi e Gusztáv Sebes, da trinca de treinadores húngaros que revolucionou o futebol mundial com a adoção da formação 4-2-4 e um estilo ofensivo e agressivo de jogo.

Primeiro assumiu o Vasas, em 1945. No ano seguinte rumou para o futebol romeno, comandando o Maccabi Bucareste, onde, devido à escassez de alimentos do pós-guerra, insistiu que seu salário fosse pago em produtos alimentícios. No clube participou da melhor campanha da história do time na primeira divisão, com o sétimo lugar daquela temporada.

Em 1947 voltou à Hungria, reassumindo o cargo no Újpest, conquistando seu segundo título da Liga, deixando para trás o poderoso Kispest A.C. (futuro Honvéd).

Como resultado, na temporada seguinte foi contratado para sua primeira passagem pelo Kispest A.C., substituindo o antigo técnico Puskas, pai do lendário jogador, então membro da equipe. No clube, após uma fraca campanha no campeonato nacional e um desentendimento com o craque da companhia (Puskas), foi demitido e deu lugar ao antigo técnico e pai do desafeto.

Polêmicas na Bota

Em 1949, Guttmann rumou para a Itália, onde primeiro passou por Padova e Triestina, e depois de curtas passagens por Quilmes (Argentina) e APOEL (Chipre), aceitou a proposta para trabalhar no Milan.

Em Milão, tendo sob seu comando craques como Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm e Schiaffino, formou o time que conquistaria o título da Série A na temporada 1954/55, depois de dois títulos seguidos de seus arquirrivais.

No meio do campeonato, porém, uma série de desentendimentos com a diretoria, mesmo com os rossoneri liderando o torneio nacional, levaram a demissão de Guttmann, que afirmou em conferência: “Me demitiram mesmo eu não sendo um criminoso ou homossexual. Adeus”.

Na sequência, afirmou que insistiria para que em seu próximo contrato fosse incluída uma cláusula que impossibilitasse sua demissão com o time no topo da tabela, e assinou pelo Vicenza.

Inovação tática

Em 1957 voltou à Hungria para nova passagem pelo Honvéd, onde gerenciou um estrelar elenco com nomes como Ferenc Puskás, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, József Bozsik, László Budai, Gyula Lóránt e Gyula Grosics.

Durante uma excursão pelo Brasil, onde o mágico time húngaro realizou uma série de partidas contra Flamengo e Botafogo, o técnico e seu estilo de jogo chamaram a atenção do São Paulo.

E o feiticeiro não pestanejou quando recebeu uma proposta para trabalhar na América do Sul, terra até então pouco desbravada por europeus no mundo do futebol.

Ele ficou no país para assumir um time que contava com jogadores como Dino Sani, Mauro e Zizinho, este um pedido do próprio treinador, que apostou no experiente craque, já com 35 anos.

No Tricolor conquistou o título do Campeonato Paulista de 1957 e ajudou a difundir no futebol brasileiro a formação 4-2-4, inspirando a seleção brasileira que conquistaria, no ano seguinte, sua primeira Copa do Mundo.

Em 1962 ainda teria uma rápida passagem pelo Peñarol, do Uruguai, onde deixaria o cargo antes da conquista do Campeonato Uruguaio no mesmo ano.

Enfim, lenda

Apesar do pioneirismo, seu período de maior sucesso como treinador só foi alcançado com sua chegada ao futebol português. Sua passagem teve início em 1958, quando, na mesma temporada, levou o Porto ao título português, terminando a temporada empatado em pontos com o rival Benfica, mas vencendo pela vantagem de dois gols de saldo. O título foi o último antes de uma fila de 17 anos dos portistas.

Surpreendentemente, no fim da temporada, Guttmann revelou um contrato já assinado com o Benfica e assumiu os Encarnados. Demitiu prontamente 20 jogadores profissionais e promoveu uma série de jovens promessas.

Diz a lenda que, em um encontro com o brasileiro Bauer em uma barbearia de Lisboa, ouviu falar de um promissor jovem atacante de Moçambique que o Sporting tentava trazer para o Alvalade. Astuto, passou a perna nos Leões e trouxe o menino. Seu nome? Eusébio.

Com uma equipe que incluía, além do Pantera Negra, José Águas, José Augusto, Costa Pereira, António Simões, Germano e Mário Coluna, iniciou uma dinastia que, sob seu comando, levaria o bicampeonato nacional, a Copa de Portugal e a maior glória da carreira do treinador: o bicampeonato da Copa dos Campeões da Europa, derrotando em duas finais consecutivas os poderosos Barcelona e Real Madrid, este contando em suas fileiras com seu desafeto Puskas.

No fim da temporada, após o sucesso do time de Lisboa, Guttmann pediu um aumento à direção benfiquista. Como a pedida fora recusada, deixou o comando da equipe.

Fim da carreira e legado

Em 1964, o treinador teria seu único trabalho em uma seleção, ao assumir a Áustria durante apenas cinco partidas ao lado de Josef Walter. Com três vitórias, um empate e uma derrota, deixou o cargo no mesmo ano, graças em boa parte ao forte antissemitismo encontrado em parte da torcida.

Trabalharia, ainda, como técnico na Suíça, no comando do Servette, e na Grécia, pelo Panathinaikos, além de um curto período no Austria Viena. Teria também uma nova passagem pelo Benfica e encerraria a carreira em 1973, no Porto.

Filho de instrutores de dança e tendo obtido também o certificado com apenas 16 anos, levou para os campos quando jogador sua habilidade nessa arte, mas foi como técnico, exigindo de seus atletas a beleza e plasticidade da dança, que ele guardou seu lugar na história.

O treinador pode ser considerado um dos inventores e maiores propagadores da formação tática 4-2-4, sistema que moldaria times como o Santos de Pelé, a Seleção Brasileira e até mesmo o Carrossel Holandês. Mais do que a tática, contudo, o técnico considerava o estilo ofensivo como o ideal, com uma filosofia de jogo bonito, em detrimento de qualquer tática defensiva.

Nômade, como o jornalista inglês Jonathan Wilson apontou na obra “Invertendo a Pirâmide”, para Guttmann a terceira temporada era fatal, o que sempre o impedia de permanecer em um clube por muito tempo de forma consecutiva. Muitas vezes tido como mercenário, por pedir altos salários e bônus por resultados, mereceu cada centavo nele investido.

Diz-se que um dos motivos para seu desentendimento com Puskas no Honvéd seria a preferência de Guttmann em jogar determinada partida com dez jogadores, devido ao fato do 11º atleta ser extremamente ruim e não ser permitidas substituições à época. O craque discordou e exigiu o retorno do atleta.

Polêmico, ao deixar o cargo no Benfica após ver recusado seu pedido de aumento salarial, amaldiçoou: “Sem mim essa equipe nunca mais ganhará uma final europeia”. Finalista em cinco ocasiões desde então (1963, 1965, 1968, 1988 e 1990), o time de Lisboa em todas as oportunidades foi derrotado na decisão.

Falecido aos 81 anos, o sepultamento foi realizado em Viena, onde a equipe do Benfica, pouco antes de uma final da Copa dos Campeões com o Milan, orou e pediu para que a maldição fosse quebrada. Não deu. Vitória milanista. Polêmico até em sua morte. Esse era Guttmann.

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