No último fim de semana, a Costa do Marfim derrotou a Nigéria nos pênaltis e ficou com o título do Campeonato Africano Sub-17, o primeiro da história dos Elefantes na categoria. Em que pese terem sido as finalistas do torneio, ambas as seleções ficaram marcadas negativamente na passagem pelo Marrocos, que foi o país-sede. Tudo porque, com a competição em andamento, marfinenses e nigerianos tiveram três jogadores excluídos de seus respectivos elencos por conta de falsificação de idade (outros três do Congo também foram banidos), resgatando uma velha teoria: o processo de formação de jogadores na África precisa ser revisto.

Antes de entrar no mérito da consequência dessas artimanhas, vale um parágrafo para o retrato da decisão do torneio. Costa do Marfim e Nigéria personificaram o velho estigma da “inocência” africana, um conceito absolutamente ultrapassado, mas que ainda se faz muito presente na base. Equipes sem nenhuma disciplina tática, porém com um vigor físico invejável.

É claro que isso está diretamente ligado ao frágil sistema de formação dos clubes africanos. Não cabe uma comparação com as seleções profissionais do continente, que em sua maioria, contam com jogadores que atuam na Europa e/ou treinadores estrangeiros, introduzindo conceitos que elevam a competitividade das equipes – nem todos, claro, especialmente no caso dos treinadores.

A “mentalidade vencedora” introduzida desde a base impulsiona o fenômeno da adulteração de idade de jogadores. Em um determinado período, a vantagem é óbvia: contra jogadores mais jovens, a tendência é o atleta se sobressair fisicamente e atingir destaque, aumentando a possibilidade de conquista de títulos e abrindo portas para contratos milionários com clubes estrangeiros. Treinadores e dirigentes muitas vezes são coniventes com essa prática, além dos próprios jogadores, que ainda na infância, encontram nessa alternativa a possibilidade de melhorar a qualidade de vida de suas famílias.

Enquanto as seleções só se preocupam em acumular títulos na base, a consequência é o desmoronamento de qualquer trabalho a longo prazo, até porque o jogador tende a estagnar muito mais cedo. No Africano Sub-17, foram descobertos nove casos de falsificação de idade DURANTE o torneio – além de outros 18 antes do início da competição. Todos estes atletas reprovaram no teste de Imagem por Ressonância Magnética (IRM), tecnologia utilizada pela Fifa desde 2003. Aliás, entre 2003 e 2007, nos testes realizados em edições do Mundial Sub-17, mais de 35% dos jogadores foram “detectados” como maiores de idade.

A CAF, por sua vez, não tomou nenhuma providência para punir as seleções. O raciocínio é simples: todos estes jogadores disputaram a fase qualificatória de forma irregular, prejudicando outras equipes. O ex-presidente da Associação Ganesa de Futebol, Ben Koufie, fez uma recomendação formal para a Fifa pedindo a expulsão das equipes que apresentarem jogadores com idade adulterada em situações como essa. Nesse caso, a própria seleção de Gana, que teve dez jogadores reprovados no IRM antes do torneio, seria banida, além das finalistas Costa do Marfim e Nigéria e do Congo.

Esse tipo de prática só faz o futebol africano enganar a si mesmo, criando uma ilusão de que está no mesmo patamar das grandes forças do futebol mundial. O segredo de um trabalho de formação competente não está na conquista de títulos, mas sim na estrutura que os clubes oferecem para extrair o potencial de seus jovens. Talento não falta. A África precisa de pessoas comprometidas com o desenvolvimento do futebol do continente, e não com oportunistas que, visando o sucesso imediato, destroem a carreira de centenas de meninos que sonham com um lugar ao sol no competitivo mercado do mundo de bola.

Curtas

– No último dia 28 de abril, a maior tragédia do futebol zambiano completou 20 anos. A caminho de um jogo das eliminatórias da Copa de 1994, contra o Senegal, 18 jogadores da seleção da Zâmbia (além de outras 12 pessoas, envolvendo dirigentes e tripulantes), morreram em um acidente aéreo próximo a Libreville, capital do Gabão.

– Em homenagem às vítimas, a seleção zambiana realizou um amistoso contra o Zimbábue no último domingo, exatamente no dia em que a tragédia completou 20 anos. Com uma equipe formada apenas por jogadores que atuam no futebol local, Zâmbia venceu por 2 a 0. Toda a renda do jogo foi destinada às famílias das vítimas.

– Capitão da seleção da República Centro-Africana, Éloge Enza-Yamissi, do Troyes, está empenhado em ajudar a restabelecer a paz no seu país, que vive um golpe de Estado. O defensor lidera uma campanha junto a jogadores e compatriotas para que haja uma intervenção militar francesa no país e que sejam realizadas eleições presidenciais o mais rápido possível.

– No entanto, as perspectivas não são nada boas. Para que haja esta intervenção, a França exige reconhecimento do governo da República Centro-Africana, e o mandato de Michel Djotodia, que se autoproclamou presidente na metade deste mês, não é aceito pelo país europeu. Enza-Yamissi revelou que está preocupado com o clima de insegurança no país, mesmo porque seu pai ainda vive em Bangui.

– Jean-Paul Akono, que trabalhava como treinador interino de Camarões desde setembro, não continuará no cargo. Tudo porque, sem o seu conhecimento, a Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot) decidiu fazer um processo de recrutamento para encontrar um técnico permanente. Através de um comunicado em seu site oficial, a Fecafoot declarou que mais de 100 treinadores se inscreveram.

– Os candidatos deveriam atender a cinco quesitos: possuir um título, ter experiência internacional, disponibilidade para morar em Camarões, capacidade de adaptação e trabalho em equipe e fluência em inglês ou francês. Surpreso, Akono declarou inclusive que conversava com os dirigentes camaroneses sobre a assinatura de um contrato até julho de 2014, o que não aconteceu. Especula-se até mesmo que a Puma, fornecedora de material esportivo dos “Leões Indomáveis”, tenha influenciado nessa decisão.

– Um dos maiores clássicos do futebol africano terminou empatado neste fim de semana. No dérbi de Casablanca, Wydad Casablanca e Raja Casablanca empataram em 1 a 1 e decretaram o 53º empate em 114 clássicos na história do Campeonato Marroquino. Faltando quatro rodadas para o fim, o Raja lidera o Botola com 56 pontos, seis a mais que o FAR Rabat (com dois jogos a menos).

– A Federação Tunisiana de Futebol (FTF) decidiu que o quadrangular final do Campeonato Tunisiano começará no dia 9 de maio. No entanto, a polêmica entre Bizertin e Club Africain por conta de uma vaga ainda não acabou. No próximo dia 1, a federação vai convocar uma reunião com jogadores do Bizertin e do Kairouan para esclarecer a acusação de manipulação de resultado no duelo entre os times, na última rodada da fase de grupos.

– Vale lembrar que, na primeira fase, Bizertin e Club Africain terminaram empatados no 2º lugar do Grupo A (29 pontos) e o Bizertin levou vantagem no saldo de gols e no confronto direto. No entanto, por conta da suposta manipulação, o time de Bizerte foi eliminado e o Club Africain avançou. A situação, no entanto, pode sofrer uma reviravolta após a supracitada reunião.

– Sidney Sam pode ser a grande novidade da Nigéria para a Copa das Confederações. A Federação Nigeriana de Futebol (NFF) trabalha para regularizar a naturalização do jogador do Bayer Leverkusen, que nasceu na Alemanha e é filho de pai nigeriano. Segundo os dirigentes locais, a situação já está “80% resolvida”.

– Por outro lado, o artilheiro da última Copa Africana de Nações, Emmanuel Emenike, será desfalque na Copa das Confederações e na programação das eliminatórias para a Copa do Mundo em junho. Após se recuperar de uma lesão no tendão, o atacante nigeriano voltou aos campos na última semana e sofreu uma nova contusão, desta vez no joelho. A recuperação vai demandar, no mínimo, dois meses.

– Na Argélia, o ES Sétif goleou o ASO Chlef por 4 a 1 e pode ser campeão da Ligue 1 já na próxima rodada (a 27ª de 30), dependendo de uma combinação de resultados. Já pelo Campeonato Sul-Africano, no duelo entre os dois primeiros colocados, Kaizer Chiefs (56 pontos) e Platinum Stars (50) empataram sem gols.

– Meyong, sempre ele, garantiu a oitava vitória do Kabuscorp em nove jogos no Campeonato Angolano. Com gol do artilheiro, a equipe bateu o atual campeão, Recreativo do Libolo, por 1 a 0 e lidera com 25 pontos, sete a mais que o vice-líder.


Os comentários estão desativados.