A USSF, ou US Soccer, como é conhecida, está considerando realizar uma mudança que já deveria ter acontecido há muito tempo: acabar com a proibição de protestar ajoelhando durante o hino nacional americano. A atual presidente da entidade, Cindy Parlow Cone, que assumiu interinamente depois da renúncia de Carlos Cordeiro, convocou uma reunião para esta terça-feira e na sexta uma votação será realizada para acabar com a proibição.

O movimento de se ajoelhar começou com Colin Kaepernick, em 2016, que fez questão de deixar clara a sua insatisfação com que negros são tratados no país, um racismo que se traduzia em violência policial. O ato foi seguido e apoiado por diversos atletas, como LeBron James, por exemplo. E chegou ao futebol. Ao menos, no futebol feminino.

Megan Rapinoe fez o mesmo gesto de protesto pelo seu clube, Seattle Reign, e levou para a seleção americana, ainda em 2016. A US Soccer proibiu o gesto depois do presidente Donald Trump vociferar contra esse tipo de protesto desde a época da sua eleição, em 2016, pedindo inclusive que os donos demitissem os jogadores que o fizessem.

Curiosamente, a NFL, liga que Trump tanto falou que deveria proibir o gesto, nunca criou uma regra, como ele sugeriu. Mas a US Soccer criou: em março de 2017, a entidade aprovou uma regra que obrigava os jogadores a ficarem em pé durante o hino nacional. O presidente então era Sunil Gulati, que deixaria o cargo em 2018, depois da seleção americana masculina não conseguir a classificação para a Copa do Mundo 2018. Ele decidiu não concorrer à reeleição e o seu vice-presidente, Carlos Cordeiro, acabou eleito.

“Todas as pessoas representando uma federação nacional devem ficar de pé respeitosamente durante o hino nacional em qualquer evento que a federação esteja representada”, dizia a regra. Rapinoe tinha protestado se ajoelhando em jogo da seleção americana em setembro de 2016, contra a Tailândia, e repetiu o gesto em dezembro, contra a Holanda.

Na época, a técnica do time, Jill Ellis, campeã do mundo em 2015 e 2019 pela seleção americana, foi conivente com uma regra estúpida como essa. “Eu sempre senti que isso deveria ser o que nós fazemos, honrar o país, ter o orgulho de colocar a camisa da seleção nacional. Eu disse anteriormente. Eu acho que essa deveria ser a expectativa”, afirmou a treinadora em 2017. “Aquele é o nosso local de trabalho e eu acho que devemos representar nós mesmas e o país. Então, sim, eu estou satisfeita com isso [a regra]”.

Ellis, curiosamente, não é americana, mas sim britânica, que acabou ficando boa parte da carreira nos Estados Unidos. Atualmente é inclusive cotada para substituir Phil Neville como técnica da Inglaterra, já que o ex-jogador deixará o cargo em 2021.

Se for decidido na reunião desta terça-feira que a proibição deve ser retirada e a medida for aprovada na votação na sexta-feira. A medida seria aplicada imediatamente, mas de forma interina. A medida terá que passar novamente por votação no Congresso Anual da US Soccer, que será realizada em fevereiro ou março, quando uma medida definitiva será votada.

Com os protestos antirracistas ganhando cada vez mais força nos Estados Unidos depois do assassinato de George Floyd, um negro, por um policial branco em Minneapolis, a discussão voltou à pauta. Em alguns dos protestos que se espalharam nos Estados Unidos, alguns policiais se ajoelharam com os manifestantes, em uma demonstração de apoio pela causa contra a brutalidade e violência policial.

Segundo informado pelo ESPN FC, o Conselho de Atletas da USSF, que tem o para-atleta Chris Ahrens, o ex-jogador Carlos Bocanegra e a ex-jogadora Lori Lindsey, discutiram a possibilidade de retirar a proibição em uma reunião via conferência no domingo. A reunião contou com participação de atuais e antigos membros da seleção americana feminina e masculina e o sentimento era forte em favor de derrubar a proibição.

A votação envolve o Conselho de Juventude, Conselho Adulto, Conselho Profissional e diretores independentes. Ainda não se sabe como cada diretor e área irá votar, mas segundo as informações da ESPN americana, a presidente Cindy Parlow Cone recebeu apoio suficiente da diretoria da entidade para levar a medida adiante e estar otimista com a queda da proibição. Veremos quais serão os próximos passos nos dias a seguir.