A partida foi chata e o futebol apresentado não impressionou em nada. O resultado até apertado (2 a 0), porém, foi o de menos na vitória de Portugal sobre a China. O que contou mesmo foi ver os jogadores, nem tanto pelo que apresentaram, mas por simplesmente terem sido convocados. Afinal, é quase certo que, com algumas pouquíssimas exceções, este foi, adicionado a alguns desfalques, quase 90% do grupo que deverá estar na Copa do Mundo em junho defendendo a seleção das Quinas.

Dos 18 chamados por Carlos Queiroz, 16 são nomes tidos como certos na África do Sul. Somente Tonel, chamado de última hora em razão da lesão de Ricardo Carvalho — outro garantido — e Varela, enfim testado pelo treinador, não têm, teoricamente, o passaporte carimbado. Para os demais, presentes em boa parte das convocações de Queiroz — que, como se vê, segue o estilo Dunga, baseando-se no que julga ser coerente —, foi, como Cristiano Ronaldo qualificou, um simples jogo de preparação.

Em linhas gerais, o time já está desenhado, ainda que Queiroz mostre querer fazer alguns últimos testes, mas já envolvendo atletas do grupo “fechado” para a Copa. Taticamente, o esquema será o 4-3-3 de sempre (ou 4-1-2-2-1, como preferirem), com quatro defensores alinhados; um triângulo no meio-campo, com um volante e dois meias com qualidade para atuar mais avançados, mas também para auxiliar quando o time estiver sem bola; dois pontas e um centroavante.

Contra a China, o meio-campo até viu algumas modificações, até pela ausência de Pepe, cuja grave lesão tornou-o grande dúvida para o Mundial. Queiroz usou Tiago e Raul Meireles no meio, tal como no jogo contra a Bósnia. Porém, se nas eliminatórias, Meireles teve mais liberdade — tanto que em um de seus avanços, fez o gol que classificou os Tugas para a Copa —, dessa vez, atuou como volante, enquanto Tiago e principalmente Simão (no teórico lugar de Deco) jogaram mais à frente.

Ainda assim, é difícil imaginar que, poucos meses antes do início da Copa e com amistosos pouco qualitativos a serem jogados — Cabo Verde e Moçambique —, Queiroz promoverá mudanças drásticas na forma de sua equipe atuar. Em seu retorno à seleção, Deco deve voltar ao meio-campo, em substituição a Tiago ou até no lugar de Nani. O segundo caso é o mais provável, já que uma dupla Deco-Simão no meio fatalmente desguarneceria a retaguarda, que ficaria restrita a um volante.

Na verdade, essa dupla até seria interessante, caso o time não jogasse com dois pontas, mantendo, por exemplo, Cristiano Ronaldo e Liedson no ataque. Neste caso, seriam necessários dois volantes com boas saída de bola e marcação. Até há bons nomes com essa natureza, como Miguel Veloso, Pedro Mendes e o próprio Raul Meireles, mas a obrigatoriedade de uma maior atenção à defesa pode “minar” eventuais e úteis avanços desses jogadores. Porém, como dito, já é tarde para mexer em qualquer coisa.

Por falar em Ronaldo, faça-se justiça, este fez uma partida muito interessante, sendo responsável pelas principais jogadas na primeira etapa. Nani não foi mal, mas Simão ainda é uma opção melhor para a ponta. E, definitivamente, Hugo Almeida dá pinta de que a naturalização de Liedson pode evitar maiores vexames. Apesar de fazer o seu, perdeu outros tantos gols. Não inspira confiança desde as eliminatórias, e mesmo com o luso-brasileiro em má fase, Almeida parece destinado ao banco.

No restante do time, poucas surpresas. No gol, Eduardo ratificou, no Braga, que merece ser titular. Paulo Ferreira começou entre os onze na lateral direita, mas Bosingwa, ausente por lesão, é o provável escolhido para iniciar a Copa na posição. Duda, mesmo irregular, improvisado e questionável, dá cada vez mais pinta de é o escolhido na esquerda. Miguel, que habitualmente atua na direita, não comprometeu — mas também não acrescentou — quando substituiu Duda. É outro com passaporte carimbado.

A zaga também soa estar fechada, ao menos com três nomes “de origem”: Bruno Alves, Rolando e Ricardo Carvalho. O eventual quarto zagueiro pode até ser Tonel, que vem em evolução no Sporting, mas, pelo que se compreende, Queiroz tem valorizado jogadores versáteis. Paulo Ferreira — que também pode atuar ao centro — e Miguel Veloso — poupado do amistoso contra os chineses, joga também de lateral esquerdo, além de zagueiro e, principalmente, volante — devem ocupar o espaço.

Em tese, portanto, há de duas a três vagas somente em aberto, já que um dos goleiros reservas será Rui Patrício ou Hilário (e talvez ambos rumem ao Mundial), e, além dos vários nomes já falados nesta coluna para o meio, há ainda João Moutinho. Pepe vem em uma recuperação mais rápida que a esperada, e, caso esteja apto, é candidato fortíssimo a uma vaga na África do Sul. Com isso, na pior das hipóteses, pode restar somente uma camisa a ser disputada em Portugal.

E muitos são os possíveis concorrentes. Atualmente, Varela e Edinho têm alguma vantagem. O primeiro foi lembrado recentemente, mas vive grande fase no Porto e pode ser mais útil que o segundo no esquema utilizado por Queiroz. Correm por fora os jovens Ruben Micael e Fábio Coentrão. Micael deu nova cara ao Dragão quando chegou do Nacional, e há tempos merecia uma chance. Coentrão, por sua vez, é versátil, atuando tanto na lateral esquerda como no meio e até nas pontas. E (por que não?) Quim é um possível concorrente para voltar a defender a meta lusitana.

É fato que a seleção vista nas eliminatórias e no amistoso contra a China ainda desagrada em campo. Notório também que dificilmente ver-se-ão mudanças nesse estilo de jogo. E não bastasse o futebol irregular, Queiroz vive sob constante desconfiança, e sua cabeça é pedida há tempos. No entanto, tal como Dunga, o treinador português não soa disposto a mudar convicções, o que faz com que a visão de torcedores e mesmo análises sobre o que se poderá ver dos lusos na África não permita muitas “fugas”. Ainda assim, vê-se que Portugal está quase pronto para a Copa. Pelo bem ou pelo mal.