A Conmebol possui este insistente hábito de anunciar medidas esdrúxulas para as suas competições e se esquecer dos reais problemas do futebol sul-americano. A mais recente novidade foi oficializada nesta terça-feira e soa como um ultraje aos próprios torneios da entidade. A partir de agora, clubes na segunda divisão nacional não poderão mais disputar a Libertadores ou a Copa Sul-Americana. E que exista uma aura de “melhorar o nível dos campeonatos” na iniciativa, ela só expõe a estupidez da Conmebol, que desconhece as próprias particularidades do continente e seus regulamentos estapafúrdios.

Na nota oficial, a Conmebol declara que os clubes classificados para a Libertadores e para a Sul-Americana em 2020 precisarão “estar disputando o torneio nacional de sua associação membro na divisão principal em 2020”. Não há qualquer ressalva ao fato de que a alteração interfere diretamente nas competições já em curso pelo continente. E isso, provavelmente, é mesmo proposital, para não escancarar as intenções dos cartolas.

Ao que tudo indica, a mudança de regra repentina promovida pela Conmebol têm um claro alvo: o Tigre. O clube portenho deveria ter se classificado à Copa Sul-Americana de 2020 através do Campeonato Argentino, mas acabou barrado por um mecanismo da própria liga. Como os Matadores terminaram rebaixados no promédio, a vaga à qual tinham direito pela nona colocação no torneio ficou com o décimo, o Huracán.

Ainda assim, existia um novo caminho ao Tigre. Criada para rechear o calendário na Argentina, a Copa da Superliga também classificará seu campeão à Libertadores de 2020 e o vice à Copa Sul-Americana. Estrelados por Walter Montillo, os rebaixados fazem sucesso. Golearam o Atlético Tucumán por 5 a 0 na ida das semifinais e têm tudo para disputar a decisão, contra Boca Juniors ou Argentinos Juniors. Mas o sonho continental se rompeu, depois que cartolagem resolveu baixar sua medida arbitrária e descarada.

Anteriormente, a federação argentina chegou a barrar clubes rebaixados em seu campeonato das copas continentais – o que prejudicou o River Plate, sem poder disputar a Sul-Americana de 2011. Desta vez, porém, a própria Superliga Argentina se manifestou contra a Conmebol. Pediu a intervenção da AFA, para que não se interfira no regulamento já aprovado de sua competição. “Neste sentido, as novas medidas da Conmebol não podem afetar as situações e direitos adquiridos em conformidade com a regulamentação da Superliga”, escreveu a entidade.

Ressalte-se que, se o Tigre acaba prejudicado por um lado, outro clube ganha um auxílio. Entre os possíveis beneficiários após as alterações, o River pode saltar direto das preliminares à fase de grupos da Copa Libertadores 2020. Ou então quem pode receber um empurrãozinho é o Argentinos Juniors, 26° entre os 26 times que disputaram o Campeonato Argentino, mas que não caiu graças ao promédio. Embora faça uma campanha igualmente louvável nas semifinais da Copa, seus “méritos totais” são menores que o dos Matadores.

As causas

Em suma, a patifaria da Conmebol ignora a própria realidade do futebol na América do Sul. Parece que os dirigentes se esquecem de seus próprios mecanismos para proteger os grandes clubes. Há alguns pontos centrais, importantes de se entender diante da nova medida. Eles impulsionam a presença de times das divisões de acesso nas competições continentais e contextualizam o cenário que a Conmebol, de forma imbecil, resolve atacar. São, em sua maioria, consequências de outras atitudes impensadas da cartolagem e que agora facilitam a participação dos rebaixados aos torneios internacionais.

– O inchaço de Libertadores e Sul-Americana: Por trocas de favores políticos, a Conmebol resolveu aumentar o número de participantes na Libertadores e na Copa Sul-Americana durante os últimos anos. A medida acontece não apenas por relações escusas da cartolagem, mas também pela pressão que alguns clubes mais importantes faziam em prol de uma organização maior das competições continentais. O resultado disso? Torneios tomados por brasileiros e argentinos, vagas excessivas a países com ligas nacionais mais enxutas e óbvia queda de nível técnico nas fases iniciais.

– A criação de copas nacionais: O gigantismo desnecessário da Conmebol tem seus reflexos claros nas competições nacionais. Basta olhar para o Brasileirão. O aumento do G-4 para G-6, G-7 ou G-8 e o amplo acesso à Sul-Americana custaram um bocado da emoção na Série A. A situação se intensifica a ligas com um menor número de participantes. Não à toa, se tornou comum que muitos países no continente ressuscitassem ou fundassem novas copas nacionais, para aumentar a competitividade e o interesse nas classificações internacionais. Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Venezuela criaram ou recriaram copas a partir de 2007, destinando uma vaga na Libertadores ou na Sul-Americana ao campeão. Já o Peru fará um teste em breve: organizará a chamada Copa Bicentenário, durante a Copa América, que reunirá times das duas primeiras divisões e valerá um lugar na Sul-Americana 2020.

– A realidade particular do Brasil: A única copa nacional organizada ininterruptamente na América do Sul desde o século passado é a Copa do Brasil. Desde sua criação, o torneio destinava uma vaga à Copa Libertadores. E isso nunca foi um limitador a uma competição plural, que sempre permitiu espaços às zebras – embora o gargalo tenha se afunilado nos regulamentos recentes. Além do mais, a CBF sempre aproveitou o excesso de vagas destinadas ao país para contemplar outras competições regionais com classificações internacionais. A Copa Verde e a Copa do Nordeste valeram vagas à Sul-Americana em anos recentes, por exemplo. A nova imposição da Conmebol praticamente tira esta possibilidade.

– O tiro no pé do promédio: E vale citar ainda que não são apenas as copas nacionais que encurtam o caminho da segunda divisão às competições sul-americanas. Graças a uma aberração chamada promédio, pensada para privilegiar os grandes, o caso do Tigre é possível. O rebaixamento dos portenhos, que tirou sua vaga na Copa Sul-Americana 2020, não aconteceu pelo desempenho atual. Ele aconteceu por campanhas ruins acumuladas nos anos anteriores e que não tornaram possível escapar da degola, mesmo com a boa pontuação registrada na Superliga 2018/19. Os Matadores têm méritos atualmente e por isso deveriam estar no torneio continental. Acabam pagando o preço por aquilo que fizeram dois ou três anos atrás. Estão em melhor fase que o Huracán, por exemplo, mas serão barrados pela ignorância dos cartolas – ou pela canalhice, se você preferir olhar por este viés, pensando na falta de força política dos portenhos.

Os reflexos

Em cima destes pontos, vale olhar para o histórico e analisar algumas situações. Até hoje, seis clubes disputaram a Libertadores enquanto estavam na segunda divisão. Criciúma, Santo André e Paulista conquistaram a Copa do Brasil enquanto figuravam na segundona. Não tinham assegurado a presença por merecimento? Palmeiras e Santiago Wanderers, por outro lado, ganharam suas copas nacionais em anos nos quais terminaram rebaixados. Também não tinham assegurado a presença por merecimento? No caso dos palmeirenses, que faturaram a taça cinco meses antes da queda, precisariam rever todo o planejamento por imposição da Conmebol?

E a maior singularidade aconteceu com o Jorge Wilstermann. Os bolivianos ganharam o Apertura de 2010, na mesma temporada em que terminaram rebaixados por culpa do promédio. Ainda mais, não tinham assegurado a presença continental por merecimento? É isso que a Conmebol nega, com a nova medida. Há até mesmo a possibilidade de que um campeão continental não defenda seu título, caso seja rebaixado. Ponte Preta e Goiás chegaram a ser vices da Sul-Americana em anos nos quais caíram na Série A. É totalmente factível que ocorra novamente.

Os episódios do passado podem soar como exceção. Todavia, com o aumento das copas nacionais e o inchaço dos torneios continentais, as chances de se tornarem mais frequentes é significativa. O Santiago Wanderers campeão da Copa Chile em 2017 é um exemplo recente disso, assim como o Independiente de Campo Grande, que fez sua estreia na Sul-Americana de 2019 após ser rebaixado no Campeonato Paraguaio. A Copa Sul-Americana, aliás, tende a ser muito mais interferida pelos promédios, como já costuma ser comum. Mas como a Conmebol lida com a questão? Mudando o regulamento de uma forma que, acima de incongruente, é burra.

A impressão é de que a Conmebol tenta agradar patrocinadores e copiar o modelo da Uefa. Olhando a Champions League como espelho, entende que não pode aparecer um time de segunda divisão em sua principal competição. Mas se esquece das diferenças entre uma confederação com dez filiados e outra com 55; relativiza inchaços e excessos em seus certames; e, pior, sequer considera que um torneio como a Liga Europa não possui um mecanismo antidesportivo como o imposto na Sul-Americana ou na Libertadores, justamente porque está aberto a admitir os vencedores das copas nacionais. De fato, a Conmebol se sabota.

O Tigre é quem está na iminência do prejuízo, mas outros times podem ter seu trabalho prejudicado pela arbitrariedade dos cartolas. Entre tantos problemas da nova medida, talvez o maior seja o seu estabelecimento com as competições nacionais em curso. As copas e as ligas sequer puderam determinar por antecipação como será o redirecionamento da vaga se um time de segunda divisão for campeão ou se um time rebaixado em 2019 conquistar a classificação continental. Não à toa, fica a abertura para que o entrave seja levado ao Tribunal Arbitral do Esporte e emperre a situação como um todo.

E, vale ponderar, a “intenção” fajuta da Conmebol não é das piores. Mas, como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Realmente, é importante elevar o nível técnico das competições continentais. Mas não é barrando um time que fez valer sua conquista em campo, apesar da divisão, que se melhorará o quadro. Há outros problemas muito mais urgentes: a desorganização, a falta de uma gestão inteligente, o inchaço das competições, os acordões políticos, o protecionismo aos grandes. No entanto, se parece muito difícil de encontrar um caminho para tudo isso, os dirigentes preferem nem pensar em sua canetada. Vão pela burrice ou pela desonestidade.

No fim das contas, a gente sabe que as mudanças realmente necessárias não acontecerão. A Libertadores não vai reduzir seu número de participantes e muito menos a Conmebol implantará uma gestão de competições mais capaz. Sendo assim, o novo critério atravanca sobretudo os menores e os sem força política. Os pequenos que tentarão buscar seu crescimento por caminhos alternativos e verão suas façanhas negadas por um absurdo. Por outro lado, será que a cartolagem agiria da mesma maneira se um grande fosse envolvido, como um River Plate ou outra agremiação representativa rebaixada recentemente? Fica o questionamento. Não é de se duvidar que a regra virasse em uma situação como esta. Nada novo ao sol, a uma confederação que já deveria ter sido abandonada por ligas e clubes, diante da maneira como recorrentemente rasga regulamentos e agrava a própria incompetência.