Brasil e Argentina dominam a Copa Libertadores, sem qualquer indicativo de que a força de ambos irá diminuir na competição continental. Mas, com a queda evidente dos clubes uruguaios desde a década de 1990, quem seria a “terceira força” da certame? Por sucessos específicos, Colômbia e Chile poderiam reivindicar este lugar. No entanto, a competitividade dos paraguaios chama atenção nos últimos anos. Os representante guaranis chegaram a duas finais e a quatro semifinais nesta década – alcançadas por quatro agremiações diferentes. Tais números deixam para trás qualquer outro vizinho que se postule como “melhor dos médios”. E as expectativas crescem, diante do desempenho espetacular que o trio composto por Cerro Porteño, Libertad e Olimpia imprime nesta fase de grupos.

Juntos, os três clubes do Paraguai somam 10 vitórias em 12 partidas na fase principal da Libertadores, além de dois empates. Cerro e Libertad confirmaram a classificação nesta semana com vitórias sonoras sobre Atlético Mineiro e Universidad Católica, respectivamente. Além disso, o Olimpia também encaminha a sua vida na liderança da chave. São oito vitórias consecutivas das equipes guaranis nesta edição do torneio continental, algo que nunca havia acontecido na história da copa. Além disso, o aproveitamento que beira os 90% é superior ao de qualquer outro país na competição até o momento.

“A Libertadores começa nos mata-matas”, diria um certo sábio que vestia a camisa 10. E, de fato, muita coisa pode rolar até lá – outra vez com o calendário atravancado por um torneio internacional bem no meio. De qualquer maneira, é possível esperar algo a mais dos paraguaios nas fases eliminatórias. O histórico recente dos clubes do país aponta que este sucesso não é necessariamente uma surpresa, assim como as participações na Copa Sul-Americana guardam outras caminhadas dignas do trio. Que falte o poderio financeiro para se equiparar a brasileiros e argentinos, a organização e a tarimba se tornam armas evidentes dos guaranis, algo que agora se reflete em triunfos.

Aproveitando o impacto do Paraguai na Libertadores 2019, apontamos seis virtudes em comum que ajudam a entender um pouco mais o que dá certo para Cerro, Libertad e Olimpia. Se não dá para ir necessariamente nos clichês de “altitude” ou “alçapão” (a despeito do belíssimo novo estádio dos azulgranas ou mesmo da mística do Defensores del Chaco aos franjeados), há uma porção de elementos interessantes que permitem exaltar os guaranis.

– Os técnicos fora da caixinha

O futebol paraguaio não se inibe em trazer técnicos de fora do país. E, mais do que apostar em medalhões de currículo extenso, o trio da Libertadores 2019 buscou alternativas interessantes no mercado. Apostas que se pagam. O Olimpia confia em Daniel Garnero, que trabalhou em clubes de pouca expressão da Argentina antes de aportar no Paraguai. Após deixar sua marca no Sol de América, seu grande sucesso veio com o Guaraní, campeão do Clausura em 2016, meses antes de ser levado pelos franjeados. Está há mais de um ano no cargo, sustentado pelo bicampeonato nacional. O Cerro Porteño, por sua vez, está sob as ordens de Fernando Jubero. O espanhol trabalhou nas categorias de base do Barcelona, antes de se tornar um achado em terras sudacas. O Guarani também foi seu descobridor, conduzido até as semifinais da Libertadores de 2015 por ele. O catalão ainda passou por Olimpia e Libertad, fazendo boas campanhas nacionais em ambos, antes de fechar com o Ciclón em 2018. Já o Libertad começou sua trajetória continental nesta temporada com o colombiano Leonel Álvarez, lembrado por seus tempos de jogador, mas também vitorioso como técnico em seu país. A relação azedou e a demissão veio logo na fase de grupos, apesar dos bons resultados. Buscaram o ex-zagueiro argentino José Antonio Chamot, outro cara fantástico quando calçava chuteiras, mas que só possui uma parca experiência com o Rosario Central.

– O bom trabalho tático

O mais interessante é que dá para perceber diferentes estilos nos clubes paraguaios desta Libertadores, mas sempre com um trabalho coletivo muito forte. Até o momento, o Cerro Porteño se indica como time mais azeitado, forte na marcação e perigoso nos contragolpes. Chamot tenta dar continuidade a um Libertad com muito vigor ofensivo, que empilhou gols sobretudo na fase preliminar da competição continental. E o Olimpia merece destaque pela boa composição de seu meio-campo, com jogadores que aparecem à frente para resolver. Conjuntos, o que não foge à regra do que se viu nas boas campanhas do Paraguai nas Libertadores recentes. A força do grupo, por exemplo, foi uma virtude muito clara de Nacional e Guaraní – sem grandes recursos individuais, mas com muita consciência tática e solidez sem a bola. Mesmo times recentes do Olimpia e do Cerro que ganharam destaque também souberam usar suas armas, pela maneira como criavam armadilhas e montavam o plano de jogo baseado em peças-chave – como as escapadas pela direita de Alejandro Silva com a camisa franjeada em 2013 ou a capacidade de Cecílio Domínguez na armação do Ciclón que foi semifinalista da Sul-Americana em 2016. Ideias que encurtam distâncias aos guaranis.

– Os últimos frutos da geração mundialista

Algo em comum entre os grandes clubes paraguaios é a presença massiva de jogadores que fizeram parte da seleção. A geração que levou a Albirroja às suas últimas Copas do Mundo está prestes a se despedir dos gramados. Assim, vários veteranos decidiram voltar para casa antes de pendurar as chuteiras. E estão distantes de apenas fazer figuração. Participam ativamente das equipes, concentrados justamente no trio de ferro da Libertadores. Os melhores exemplos deste renome estão no comando dos ataques. Roque Santa Cruz continua em boa forma no Olimpia, fundamental na conquista do bicampeonato paraguaio. Nelson Haedo Valdez por vezes sai do banco no Cerro Porteño, mas incomoda e marca os seus gols. Por fim, o poder de fogo de Oscar Cardozo no Libertad é inegável, com direito até a gol do meio-campo nesta Libertadores. São complementados por uma vasta lista de antigos companheiros em Copas, que inclui Paulo da Silva e Cristian Riveros (Libertad), Victor Cáceres (Cerro Porteño) e Antolín Alcaraz (Olimpia) – à beira dos 40 anos e ainda referências em suas equipes.

– Os nomes rodados do mercado interno

Existe uma rotação grande de atletas entre os próprios clubes paraguaios. Mesmo que não sejam atletas experimentados em Copas do Mundo ou em times europeus, eles possuem uma experiência vital no alto nível do futebol sul-americano. Já disputaram a Libertadores e a Sul-Americana em outras equipes do continente ou mesmo participaram das campanhas notáveis das equipes guaranis nas competições da Conmebol. Olimpia e Cerro Porteño abrigam antigos membros do Guaraní semifinalista em 2015. Além do mais, os franjeados ainda têm em seu plantel dois jogadores que estiveram presentes no vice-campeonato do Nacional em 2014. Já o Libertad se aproveita justamente de alguns espólios do Olimpia finalista em 2013 e do Cerro Porteño semifinalista em 2011, bem como de outros jogadores que frequentemente participam das copas sul-americanas com a camisa do próprio clube. Sabem como lidar com as situações encaradas nos gramados internacionais e se valem desta experiência.

– Boas contratações estrangeiras

Além do mais, o número de jogadores estrangeiros no Paraguai tem aumentado. Os três representantes do país na Libertadores possuem uma quantidade razoável de forasteiros. Boas observações dos guaranis no mercado, especialmente pela diferença que estes reforços geram nos resultados. O Olimpia reúne jogadores rodados, como os colombianos Sergio Otálvaro e Jorge Arias, bem como os uruguaios Maximiliano Oliveira e Tabaré Viúdez. Protagonista no vice da Libertadores de 2013, Alejandro Silva também voltou do Lanús. O Cerro Porteño se vale de uma mescla entre jogadores uruguaios e argentinos, incluindo alguns de seus destaques, como o atacante Diego Churín, o meio-campista Federico Carrizo e o goleiro Rodrigo Múñoz. Também investiram no tarimbado venezuelano Fernando Amorebieta. Já no Libertad, o mercado recente garantiu Martín Silva, Macnelly Torres e Alejandro Mejía, todos com finais de Libertadores no currículo, embora quem dê as cartas seja o argentino Adrián Martínez, autor de seis gols em sete partidas pela competição continental. O atacante de 26 anos passou pelo Sol de América antes de assinar com o Gumarelo.

– O nível interessante do campeonato local

O Campeonato Paraguaio quase nunca recebe as atenções merecidas dos vizinhos sul-americanos. No entanto, é uma das ligas nacionais mais competitivas do continente. Ok, nem todos os times possuem seu peso, mas o número reduzido de participantes (12 na primeira divisão) promove duelos frequentes entre as principais forças locais. Há um pelotão de frente que geralmente almeja o título ou a vaga na Libertadores – incluindo, além do trio supracitado 2019, também Guaraní e Nacional. E mesmo na faixa central, há agremiações de relevância, como Sportivo Luqueño e Sol de América, com aparições dignas na Sul-Americana. Desta maneira, os confrontos diretos constantes se tornam fundamentais à sequência do campeonato e também ajudam a moldar as equipes em um bom nível. Se a reclamação sobre “jogos supérfluos” no Brasil são constantes e o calendário na Argentina reduz muito os clássicos, os paraguaios precisam sempre se provar bem mais.