O favoritismo na Copa Libertadores quase sempre recai sobre os clubes brasileiros ou argentinos, algo natural pela tradição e pelo poderio financeiro dos últimos anos. No entanto, a competição deixa claro que não dá para manter o pensamento binário e desconsiderar os oponentes que vêm dos outros cantos do continente. São times com menor investimento, mas com os seus destaques individuais e tantas vezes com uma boa mentalidade coletiva. Aproveitando o início do torneio nesta semana, elaboramos uma lista com seis clubes estrangeiros que merecem uma atenção extra na fase de grupos, por aquilo que aprontaram nos meses recentes. Confira:

Junior de Barranquilla

Mais uma vez adversário do Palmeiras na fase de grupos, o Junior está longe de ser uma surpresa nesta lista. Campeão do Finalización, o segundo turno do Campeonato Colombiano, o time vem de campanhas consistentes nos torneios continentais. Flamengo e Atlético Paranaense foram seus algozes recentes na Sul-Americana, embora a ineficácia tenha custado caro demais na decisão passada do torneio. De qualquer maneira, os tiburones ainda estão devendo na Libertadores. Têm capacidade para chegar aos mata-matas, o que não aconteceu nesta ascensão recente. É uma equipe com qualidade técnica e potencial ofensivo, mas com propensão enorme às derrapadas. E agora vem com novo técnico: Julio Comesaña saiu e assumiu Luis Fernando Suárez, comandante de Honduras na Copa de 2014.

O elenco mantém a mesma base que chegou à final da Copa Sul-Americana. As principais perdas se concentram na linha de frente. Jarlan Barrera seguiu ao Rosario Central, enquanto Yony González já caiu nas graças da torcida do Fluminense. Em compensação, a diretoria trouxe o experiente Matías Fernández, que estava no Necaxa. Um jogador de qualidade nas bolas paradas, para servir de garçom ao interminável Teo Gutiérrez, referência do ataque. Também na armação, Luis Díaz é um nome bastante interessante e tem chão para se desenvolver. Já a cabeça de área depende da onipresença de Victor Cantillo, um dos melhores volantes do país. Por fim, Sebastián Viera é a liderança sob as traves, em sistema defensivo no qual ainda se sobressai o lateral Marlon Pedrahita. Uma espinha dorsal forte, que pode levar os alvirrubros às fases mais agudas da Libertadores.

Peñarol

O Peñarol anda decepcionando em suas últimas participações na Copa Libertadores. Os aurinegros não avançam aos mata-matas desde 2011, quando disputaram a final contra o Santos. Desde então, são seis quedas consecutivas na fase de grupos – incluindo a frustração em 2018, quando ficaram pelo caminho em uma chave relativamente acessível, na qual avançaram Atlético Tucumán e Libertad. A boa notícia está na produção recente do time no cenário nacional. Os carboneros fizeram um ótimo Clausura no Campeonato Uruguaio e terminaram faturando o título da temporada. O treinador Diego López conduz um time experiente e com alguns jogadores vivendo grande fase.

O argentino Maxi Rodríguez e o lateral Guillermo Varela se despediram da torcida. Já as contratações não possuem tanto impacto, com menção principal ao uruguaio Maximiliano Rodríguez (ex-Grêmio), para auxiliar no meio-campo. Trunfo maior é a continuidade de outros destaques. Na lista de medalhões, Walter Gargano vem de ótimos clássicos contra o Nacional e serve de esteio no meio-campo, onde Cebolla Rodríguez continua decisivo. O goleiro Kevin Dawson brilhou demais no Clausura, tendo o auxílio do firme Fabricio Formiliano no miolo de zaga. Já na frente, quem desequilibra é Gabriel Fernández. El Toro chegou a acertar sua transferência ao Celta, mas segue no Campeón del Siglo para acumular seus gols até o fim do semestre. O centroavante de 24 anos combina explosão e capacidade de definição.

Olimpia

Os clubes paraguaios estão no segundo pelotão da Libertadores. Podem não ter o poderio de Brasil ou Argentina, mas, ao lado dos colombianos, são os que mais fazem frente na competição continental ao longo dos últimos anos. E o Olimpia merece respeito na atual edição. Os franjeados conquistaram os dois títulos nacionais em 2018, algo que não acontecia desde a virada do século. Imaginar um repeteco da final de 2013 parece difícil e depende de uma conjunção de fatores, como daquela vez. No entanto, dá para acreditar que os alvinegros farão um bom papel no torneio. A começar pelo fato de terem sido sorteados em um grupo tecnicamente mais tranquilo, sem grandes brasileiros ou argentinos pelo caminho. Na estreia, o empate por 0 a 0 contra o Godoy Cruz em Mendoza foi um resultado razoável.

O treinador do Olimpia é Daniel Garnero, argentino que vinha de bom trabalho à frente do Guaraní. Comandou toda a ascensão recente dos franjeados e possui o elenco em suas mãos. A base principal tem vários jogadores notáveis, como o goleiro Alfredo Aguilar, o lateral Sergio Otálvaro, o meia William Mendieta e o atacante Néstor Camacho. Não bastasse isso, a diretoria trouxe uma porção de reforços de peso para a competição continental. Entre os acréscimos recentes, estão Alejandro Silva, Tabaré Viúdez, Antolín Alcaraz e Rodrigo Rojas. Mas a grande atração no Defensores del Chaco é mesmo Roque Santa Cruz. Aos 37 anos, o artilheiro retornou ao clube de coração e vem sendo protagonista dos últimos feitos nacionais. Agora, espera dar uma alegria para a sua torcida também além das fronteiras. Sua sequência é positiva.

Libertad

Dos clubes que superaram a fase preliminar, o Libertad é o que demonstra mais qualidade. Adversário geralmente cascudo na Libertadores, passou aos mata-matas na última edição, mas não foi tão bem no Campeonato Paraguaio. Em compensação, dominou as prévias continentais contra desafiantes de peso. Passou o trator sobre o Strongest, enquanto superou um duelo difícil contra o Atlético Nacional, no qual dependeu dos pênaltis para prevalecer. E a sua capacidade ficou explícita logo nesta terça, durante a abertura da fase de grupos. Apesar do clima gélido no Defensores del Chaco, grande demais para a torcida diminuta do Gumarelo, a equipe aplicou uma goleada por 4 a 1 sobre a Universidad Católica, atual campeã chilena. A impressão é de que, inclusive, cabia mais, pela quantidade de chances desperdiçadas no segundo tempo.

Apesar da média de idade elevada, o Libertad possui qualidade em seu elenco. A lista de destaques inclui Martín Silva, Paulo da Silva, Alexander Mejía e Sergio Aquino. Há muita intensidade pelas pontas, com menção principal a Antonio Bareiro. E a dupla de frente se mostra muito entrosada. Óscar Cardozo anotou até gol do círculo central nesta Libertadores, enquanto o argentino Adrián Martínez desponta para ser artilheiro da competição, com seis tentos em cinco partidas. Consistência e opções no banco, apesar do problema que o Gumarelo deverá encarar nas próximas semanas. Leonel Álvarez era o condutor do grande trabalho, mas, logo após a goleada sobre a Católica na abertura da fase de grupos, resolveu pedir o boné por problemas de relacionamento com jogadores e dirigentes. Gerir tantas estrelas será mesmo um desafio ao sucessor, além da missão de seguir imprimindo um futebol eficiente.

Sporting Cristal

Faz tempo que um clube peruano não faz uma boa campanha na Copa Libertadores. Não há um representante do país nas oitavas de final desde 2013, quando o Real Garcilaso chegou lá. E o Sporting Cristal, mesmo sendo figurinha carimbada na competição continental, não chega aos mata-matas desde 2004. Este é o momento de confiar que o longo hiato se encerrará. Os cerveceros conquistaram a última edição do Torneio Descentralizado com autoridade. Somaram mais pontos do que qualquer outro clube nas diferentes fases e, durante as finais, atropelaram o Alianza Lima com o placar agregado de 7 a 1 nos dois jogos. O fato de caírem em um grupo ligeiramente mais tranquilo, sem brasileiros, também serve para injetar confiança. Talvez seja a melhor ocasião para refletir, entre os clubes, o que o futebol do país viveu através de sua seleção nos últimos meses.

A maior dúvida se concentra no comando. Mario Salas chegou com cartaz após ser bicampeão chileno com a Universidad Católica e cumpriu o esperado em Lima, mas acabou se mudando ao Colo-Colo para esta nova temporada. Seu substituto no Sporting Cristal é Claudio Vivas, que trabalhou por muito tempo como assistente de Marcelo Bielsa, embora não tenha grande currículo como treinador principal. Assume um elenco que une juventude e experiência, entre alguns medalhões e outros jovens que se projetam. A velha guarda é comandada por Carlos Lobatón, embora o grande nome seja Emanuel Herrera. O atacante argentino de 31 anos quebrou o recorde de gols do Campeonato Peruano na última temporada, balançando as redes 40 vezes. Mas há também garotos para ficar de olho, como o lateral Johan Madrid (já convocado à seleção) e o ponta Fernando Pacheco.

LDU Quito

A LDU é uma atração especial nesta Libertadores. A conquista do título equatoriano em 2018 representa o fim de um jejum que durava desde 2010. E lá se vão oito anos sem avançar aos mata-matas da competição continental. Seu grupo é difícil e alguém acabará sobrando rumo à Copa Sul-Americana, considerando também o peso de Flamengo e Peñarol. De qualquer maneira, encarar os Albos sempre é um desafio. Além da altitude de Quito, um obstáculo razoável aos adversários que virão do nível do mar, ainda há o calor proporcionado pela torcida no Estádio Casa Blanca. Falta ao clube a regularidade dos representantes de Guayaquil além das fronteiras, com Emelec e Barcelona fazendo bons papéis na Libertadores. Em contrapartida, é um momento de afirmação da Liga e isso pode trazer uma motivação extra.

O elenco não possui grandes estrelas estrangeiras. O principal nome entre os “gringos” é o goleiro argentino Adrián Gabbarini, que vem em ótima forma. Por outro lado, há jogadores de qualidade do próprio Equador. Jefferson Orejuela, trazido do Fluminense, foi um dos principais acréscimos na campanha vitoriosa, assim como o artilheiro Juan Anangonó, que estava no futebol mexicano. E vale ficar de olho mesmo nos bons produtos das categorias de base dos Albos. Há vários jogadores com merecido espaço, em ascensão com o clube. Jefferson Intriago é o capitão e a referência no meio-campo. Além dele, vale ficar de olho também nos irmãos Anderson Julio e Jhojan Julio, decisivos ao sucesso recente. No banco, olho em Pablo Repetto: o técnico condutor do Independiente del Valle à final de 2016 tenta aprontar mais uma vez.