A Alemanha viveu um marco de sua história contemporânea em 9 de novembro de 1989. A queda do Muro de Berlim simbolizou o início da reunificação do país dividido em dois e a derrocada do regime comunista na Alemanha Oriental – assim como, de uma maneira mais ampla, também o final da Guerra Fria. A integração das metades do estado alemão, obviamente, não foi imediata. E isso ficaria evidente também dentro de campo, em meio àquele período fumegante nas ruas alemãs. Em 15 de novembro de 1989, apenas seis dias depois do início da destruição da muralha, as duas Alemanhas jogaram. Ambas faziam partidas decisivas pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. A transformação política se refletiria sobre os times, de maneiras bastante distintas.

Nenhuma das equipes alemãs havia se confirmado no Mundial de 1990 àquela altura. A Alemanha Ocidental compunha o Grupo 4 e jogava sua vida na rodada final. Naquela edição das Eliminatórias na Europa, três grupos tinham apenas quatro seleções. Apenas os primeiros colocados estavam garantidos na Copa, enquanto o vice-líder com menor pontuação nas três chaves acabaria eliminado. O time de Franz Beckenbauer iniciou a rodada atrás da Holanda na chave e precisava de uma vitória sobre Gales a qualquer custo, caso terminasse na segunda colocação. Depois de duas finais consecutivas, os alemães ocidentais se viam pressionados em Colônia, correndo risco de uma queda precoce.

A Alemanha Oriental, por sua vez, ocupava o Grupo 3. Nesta chave, com cinco equipes, os dois primeiros colocados não dependiam de mais ninguém para ir à Copa. E o time de Eduard Geyer poderia garantir a classificação ao segundo Mundial de sua história. Para tanto, em Viena, um empate contra a Áustria já poderia ser decisivo para levar os alemães orientais à competição internacional. Porém, não seria nada fácil aos jogadores visitantes se concentrarem no que aconteceria em campo, quando estava claro que suas vidas mudariam profundamente a partir de então. O duelo, afinal, aconteceria seis dias depois do amanhã.

Aproveitando a virada do ano, lançamos aqui na Trivela alguns textos de efemérides que, por algum motivo ou outro, não foram publicados durante a devida data por estarem incompletos. Nesta quinta, uma lembrança sobre as Alemanhas 30 anos depois da queda do Muro.

O desmanche oriental

A Alemanha Oriental vivia os seus últimos tempos como país, mas seu futebol estava distante de parecer moribundo. Pelo contrário, a seleção nacional se rejuvenescia, a partir de um projeto que melhorou a capacidade dos clubes em desenvolverem seus jogadores. As principais agremiações do país passaram a ser tratadas como centros de excelência na formação de talentos e traziam boas fornadas. Isso se percebeu de formas distintas no fim da década de 1980.

Dentro da antiga Oberliga, mais times se tornaram competitivos. Isso aconteceu de maneira concomitante à derrocada do Dynamo Berlim, clube controlado pela Stasi (a polícia secreta do regime alemão oriental), que perdeu sua influência nos bastidores e seus benefícios extracampo. O Dynamo Dresden rompeu o decacampeonato dos berlinenses na liga, ao mesmo tempo em que registrou boas campanhas continentais. Enquanto isso, o Lokomotive Leipzig também alcançou a decisão da Recopa Europeia em 1987, derrotado pelo Ajax na final.

Além do mais, as próprias seleções de base da Alemanha Oriental obtiveram resultados expressivos em torneios europeus e mundiais. Essas promessas logo começaram a aparecer no nível principal, integrando a seleção adulta ao final da década de 1980. A equipe possuía uma mescla perceptível entre nomes mais rodados, acima dos 30 anos, e os garotos que ascendiam a partir dos níveis formativos, com seus 20 e poucos anos. Os orientais montavam um time competitivo, que voltou a mirar a Copa do Mundo como objetivo real.

Nas Eliminatórias rumo ao Mundial de 1986, os alemães orientais ficaram a um ponto da vaga, em chave na qual se classificaram França e Bulgária. Logo na sequência, também almejaram a Eurocopa 1988. Não superaram a União Soviética no qualificatório, mas terminaram a campanha do grupo cinco pontos à frente da França, campeã continental anterior. E, com uma espinha dorsal fortalecida, a equipe voltaria a sonhar com a Copa de 1990. Os germânicos entraram em um grupo duro, mas equilibrado. Reencontraram-se com os soviéticos, além de pegarem também Áustria, Turquia e Islândia.

A campanha da Alemanha Oriental no Grupo 3 começou com uma boa vitória sobre a Islândia em Berlim, mas atravessaria uma duríssima seca na sequência. Foram duas derrotas para a Turquia e uma para a União Soviética, além do empate com a Áustria em Leipzig. Os tropeços derrubariam até mesmo o técnico Manfred Zapf, substituído por Eduard Geyer. O novo comandante estava com moral, após faturar o título nacional com o Dynamo Dresden. Confiaria nos seus pupilos do clube para reerguer a equipe nacional. Sob as ordens de Geyer, os alemães orientais derrotaram a Islândia em Reykjavík e a União Soviética em Karl-Marx-Stadt. Assim, chegavam vivíssimos à rodada final, com reais possibilidades classificação ao Mundial.

Na última rodada, aconteceriam dois jogos, que definiriam os dois classificados do grupo. Líder isolada, a União Soviética tinha nove pontos e recebia em Simferopol a Turquia, com sete. Um empate seria suficiente para os soviéticos não darem margem ao azar – e eles acabariam vencendo por 2 a 0, com gols no segundo tempo. Já o outro confronto paralelo se deu em Viena, onde a Áustria encarava a Alemanha Oriental. Os dois times possuíam também sete pontos e o empate, no caso, beneficiava os alemães orientais por terem um saldo de gols melhor. O problema era se concentrar no que aconteceria em campo, diante da queda do Muro.

Uma semana antes da partida contra a Áustria, os jogadores já estavam concentrados em Leipzig. Ou seja, o elenco inteiro da Alemanha Oriental acompanhou em conjunto os desdobramentos da noite histórica de 9 de novembro de 1989. A equipe se reuniu ao redor da televisão no centro de treinamentos e assistiu aos eventos ao vivo. A cada instante, os alemães orientais recebiam uma nova informação: liberdade para ir e vir, trocas de câmbio, buracos no muro. Enquanto milhares se reuniam no Portão de Brandemburgo, os astros da equipe nacional se deram ao luxo de estourar champanhes para comemorar a unificação iminente. Em compensação, teriam cada vez menos cabeça para focar no duelo pelas Eliminatórias.

O jogo decisivo da seleção parecia o menos importante em um momento no qual ficava claro que a Alemanha Oriental realmente estava próxima de acabar. Os jogadores não tinham qualquer tranquilidade na preparação, por mais que estivessem fechados na concentração e isolados do transe no restante do país. Nem dava para se afastar totalmente da realidade, afinal. O caos era tamanho que, para distrair os jogadores de todo o turbilhão político e social que acontecia, o técnico Eduard Geyer realizou um desfile com jovens modelos, na tentativa de levar os pensamentos dos comandados em outra direção. Pouco adiantaria.

“Passamos a semana anterior em Leipzig e tentamos nos concentrar no jogo, apesar do clima. Mas quem sabe o que teria acontecido se o muro tivesse caído duas semanas depois? Talvez algo em nossas mentes fosse diferente”, declarou o atacante Andrea Thom, em entrevista ao jornal The Times. Visão complementada pelo centroavante reserva Uwe Rösler, à BBC: “Os jogadores estavam constantemente no telefone, tentando entender o futuro. O foco desapareceu”.

O problema maior nem era pensar que a Alemanha Oriental estava prestes a acabar e a classificação não teria tanto sentido a uma seleção à beira da extinção. O entrave principal era a maneira como a própria transformação do país impactaria diretamente nas carreiras daqueles atletas. O mercado de transferências abria portas tentadoras à jovem geração que despontava. “Quando vimos as imagens do muro caindo e da fronteira se abrindo, todos os jogadores jovens devem ter pensado a mesma coisa: o sonho de jogar na Bundesliga poderia se tornar realidade”, relatou o meia Rico Steinmann, em entrevista à 11 Freunde.

Até então, as transferências de jogadores da Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental eram proibidas. Os raros casos de futebolistas que trocaram o leste pelo oeste após o surgimento de um sistema mais organizado no esporte eram de desertores. Eles faziam uma opção arriscada não só por abandonar suas famílias, que ficavam à mercê dos interrogatórios da Stasi, mas também botavam a própria vida em jogo. Alguns atletas que fugiram terminaram perseguidos pela polícia secreta no exterior. O caso mais famoso é o de Lutz Eigendorf, meio-campista que deixou o Dynamo Berlim para se juntar ao Kaiserslautern. Em 1983, três anos depois da fuga, ele morreu em um acidente de automóvel. Após a unificação, documentos revelaram a participação de agentes orientais em seu assassinato.

Todavia, semanas antes da queda do Muro de Berlim, a federação da Alemanha Oriental já se precavia à abertura do mercado. Os movimentos populares no país cresciam em prol da reunificação e isso se percebia também no futebol. Quatro jogadores das seleções de base aproveitaram uma partida na Suécia para desertar, o que gerava preocupações nos dirigentes. Assim, para evitar uma fuga em massa, eles encontraram uma saída burocrática em outubro de 1989: todos os atletas da Oberliga assinariam contratos. Eles não seriam vinculados aos clubes, mas sim à federação. Para se adaptar ao cenário que inevitavelmente se abriria, a entidade tentou conter a sangria a curto prazo. Assim, qualquer clube ocidental que quisesse levar reforços orientais precisaria fechar o acerto com a própria federação. O dinheiro, de qualquer maneira, iria quase todo aos clubes que fizessem as vendas.

Os jogadores alemães orientais, então, se tornariam verdadeiras pechinchas no mercado. Os clubes alemães ocidentais não precisariam gastar tanto para tirar esses atletas de equipes à beira do colapso do outro lado da fronteira. Diante do próprio sistema da Oberliga, em que todos os times estavam ligados a instituições estatais, o futuro se tornava incerto com o fim do regime. Era mais fácil tirar os futebolistas de agremiações sedentas por dinheiro. Além do mais, os próprios atletas ganhavam uma enorme oportunidade de melhorar suas condições financeiras a partir da mudança para o lado capitalista do novo país. Teriam acesso a novos luxos, antes restritos nos tempos de comunismo.

A partir de 1° de janeiro de 1990, os clubes alemães ocidentais ficariam livres para acertar contratações de jogadores alemães orientais. Assim, o jogo contra a Áustria tornou-se um balcão de negócios. Vários representantes dos times do lado capitalista foram a Viena, na tentativa de convencer os craques comunistas e antecipar os trâmites. No próprio saguão do hotel onde a equipe estava concentrada, agentes perambulavam na tentativa de fisgar algum atleta. Todavia, eles tinham olhares especiais aos mais jovens. Matthias Sammer, Ulf Kirsten, Andreas Thom, Thomas Doll e Rico Steinmann eram os mais cotados, todos abaixo dos 25 anos. Pareciam potes de ouro aos clubes que conseguissem atraí-los. Os medalhões do elenco, por outro lado, não viam a queda do Muro com as mesmas perspectivas às suas carreiras.

E não foi apenas no hotel que tamanho caos se instaurou. Dúzias de empresários se espalharam pelo Praterstadion durante aquele Áustria x Alemanha Oriental em 15 de novembro. A maioria estava nas arquibancadas e tentava realizar suas ofertas atrás do banco de reservas de Eduard Geyer. Contudo, alguns conseguiram ser mais ousados. O exemplo mais célebre é o de Wolfgang Karnath, representante do Bayer Leverkusen, que conseguiu uma credencial como fotógrafo. Usando o colete de profissional da imprensa, ele pôde ficar ao redor do gramado e, durante o segundo tempo, até se sentou ao lado dos alemães orientais no banco.

Dentro de campo, obviamente, as coisas não foram nada bem à Alemanha Oriental. O tumulto não demorou a fazer o time ruir. A Áustria, mesmo desfalcada de jogadores importantes como Andreas Herzog e Heribert Weber, dominou a partida decisiva sem muito esforço. Méritos de Anton Polster, grande referência austríaca naqueles tempos. Logo aos dois minutos, Polster deixou seu time em vantagem, incendiando a torcida que lotava o Praterstadion. Vinte minutos depois, o artilheiro ampliou em cobrança de pênalti. Para piorar, Steinmann perdeu um penal na primeira etapa. E a pá de cal aconteceu aos 16 do segundo tempo. Pela terceira vez, Polster balançou as redes e confirmou a Áustria na Copa do Mundo. Os 51 mil anfitriões nas arquibancadas provocavam os 4 mil visitantes que puderam viajar até Viena. Diante dos 3 a 0 no placar, os alemães orientais já poderiam pensar em outras coisas.

Restando 15 minutos para o apito final, Geyer tirou Sammer de campo. E eis que o pulo do gato de Karnath, o representante infiltrado como fotógrafo, deu certo. “De repente, eu me sentei do lado de Karnath, que me disse que fazia parte do Leverkusen e estava em missão. Ele me pediu para pensar no fato de que foi o primeiro a falar comigo e que precisávamos nos encontrar naquela noite. Foi realmente inteligente da parte dele”, declararia Sammer, tempos depois. O talentoso meio-campista de 22 anos, destaque do Dynamo Dresden, estava entre os mais visados pelos clubes ocidentais. Até por isso, a ação do agente tornou-se um golpe de mestre.

Karnath ainda conversou com Andreas Thom e Ulf Kirsten ao término da partida. O funcionário do Bayer Leverkusen convenceu os jogadores que poderia oferecer “conselhos adequados” em suas transferências à Bundesliga. No início daquela mesma madrugada, o trio da seleção se encontrou com Karnath nos arredores do hotel em Viena. O Bayer Leverkusen, que naquele exato momento brigava pela liderança do Campeonato Alemão, alinhava três excelentes reforços ao seu elenco. Os Aspirinas, campeões da Copa da Uefa em 1988, possuíam atratividade pelo projeto em clara ascensão – uma espécie de RB Leipzig da época.

O trabalho de Karnath se tornou essencial para aproximar os jogadores. Depois dele, quem entrou em ação foi Reiner Calmund, diretor de futebol do Leverkusen – que, inclusive, estava presente em Berlim naquele 9 de novembro para acompanhar a queda do muro. Um dia depois do jogo contra a Áustria, ele visitou Andreas Thom em Berlim Oriental e fez a primeira oferta ao atacante, também sondado por outras equipes ocidentais. Depois, o reencontraria em um voo, quando o jogador viajava até Colônia, convidado para participar de um programa de televisão. Ali, fechou os detalhes do contrato pessoal. Já no fim de dezembro, o Leverkusen alinhou o negócio com a federação alemã oriental. Foi a primeira transferência oficializada da Oberliga para a Bundesliga em 1° de janeiro de 1990.

Thom custou 2,8 milhões de marcos, um valor relativamente alto, mas não tanto quanto poderia valer diante dos muitos clubes interessados em seu futebol. Foi a terceira transação mais cara naquela temporada da Bundesliga, custando cerca de 500 mil marcos a mais que Jürgen Köhler, zagueiro da seleção ocidental que seguiu para o Bayern de Munique. A estreia do atacante aconteceu em 17 de fevereiro, num duelo contra o Homburg pelo Campeonato Alemão. O novato precisou de 15 minutos para anotar o seu primeiro gol pelo Bayer Leverkusen, abrindo a vitória por 3 a 1. Outro herói oriental no lado capitalista foi Axel Kruse, um dos desertores na Suécia, que depois veria sua transferência regularizada do Hansa Rostock ao Hertha Berlim. Ele seria fundamental ao acesso dos berlinenses à primeira divisão naquele primeiro semestre de 1990.

A maior parte dos clubes ainda conseguiu segurar os seus principais jogadores até o final da Oberliga 1989/90. Depois disso, com a unificação monetária em maio de 1990, tornou-se praticamente impossível conter os negócios. Bicampeão nacional naquela temporada, o Dynamo Dresden se despediu dos maiores destaques. O Bayer Leverkusen saía outra vez na frente, apalavrado com Kirsten e Sammer depois do que ocorrera em Viena. Todavia, em conversa com os altos executivos da Bayer, o chanceler alemão ocidental Helmut Kohl declarou que “se aproveitar da situação e levar todos os melhores jogadores alemães orientais poderia ter consequências à imagem da indústria farmacêutica”. Isso brecou a agremiação.

Reiner Calmund precisou seguir as orientações de seus superiores da Bayer. O diretor de futebol do Leverkusen, então, avisou os dois craques orientais que abria mão dos contratos preliminares que haviam alinhado. Sammer admitiu que já tinha outro acordo com o Stuttgart, e para lá seguiu no segundo semestre de 1990, conquistando o título da Bundesliga logo em 1992. Já Kirsten chegou a flertar com o Bochum, mas esteve mais próximo do Borussia Dortmund. Meses depois, porém, os executivos da Bayer mudaram de ideia e deram sinal verde para que o clube levasse o atacante. Calmund “deu o chapéu” no BVB e, durante um amistoso da seleção na Escócia em abril, foi atrás de Kirsten. Os Aspirinas pagaram 3,75 milhões de marcos ao Dynamo Dresden. Ganhariam um de seus maiores ídolos.

Vários jogadores seguiram o fluxo da Alemanha Oriental à Alemanha Ocidental na temporada 1990/91 da Bundesliga. Thomas Doll e Frank Rohde também deixaram o Dynamo Berlim, atraídos pelo Hamburgo. Dirk Schuster trocou o Magdeburgo pelo Eintracht Braunschweig. Olaf Marschall, por sua vez, deixou o Lokomotive Leipzig para rumar à Áustria, acertado com o Admira Wacker. E houve o caso curioso de Rainer Ernst, artilheiro do Dynamo Berlim, que tinha um acerto com o Borussia Dortmund, mas desagradou o clube oriental durante uma entrevista em que deixou nas entrelinhas a influência da Stasi no decacampeonato do clube. Por conta disso, os berlinenses barraram a transferência que deveria acontecer em janeiro e só o liberaram meses depois, por um terço do valor, ao Kaiserslautern.

Alguns veteranos, inclusive, conseguiram sua boquinha. O Fortuna Köln, na segunda divisão, tentou dar um salto de patamar ao fazer a rapa no Dynamo Dresden. Levou de uma só vez Andreas Trautmann, Hans-Uwe Pilz e Matthias Döschner, todos acima dos 30 anos e com passagens notáveis pela seleção. Os dois primeiros, entretanto, não se adaptaram e voltaram a Dresden um ano depois. Muitos jogadores orientais sofriam preconceito do lado ocidental e também não conseguiam se acostumar ao novo estilo de vida. Vários não acompanharam o nível de jogo que encontraram na Bundesliga e viram suas carreiras estagnarem. Não estavam prontos para mudar ao regime profissional.

Tal problema também foi sentido na pele por Joachim Streich. Com 98 partidas pela seleção oriental em seus tempos como atacante, o veterano fez um grande trabalho como treinador do Magdeburgo a partir de 1985. Após a queda do muro, tornou-se o primeiro a assumir a direção de um clube ocidental, chegando ao Eintracht Braunschweig em agosto de 1990. Houve, no entanto, um choque de culturas. A rigidez do comandante do leste não encontrava resposta nos comandados do oeste, que passaram a se insurgir contra os regimes de treinamentos e a disciplina imposta. Segundo o próprio Streich, nos corredores surgiam piadas de que o “oriental estava treinando seus atletas até a morte”. A experiência terminou em março de 1991, com a demissão do técnico.

Do lado oriental, com dinheiro em caixa por suas vendas, o Dynamo Dresden foi um dos raros clubes com poder de barganha para contratar destaques de outras equipes. Ainda em 1990/91, a equipe traria Uwe Rösler do Magdeburgo e Heiko Scholz do Lokomotive Leipzig, duas jovens promessas da seleção, além de buscar Sergio Allievi no Kaiserslautern. Já Rico Steinmann, apesar de muitas ofertas da Bundesliga na mesa, aceitou seguir vestindo a camisa do Karl-Marx-Stadt (atual Chemnitzer) na Oberliga 1990/91. Para tanto, recebeu um polpudo salário da agremiação, mas sairia um ano depois, rumo ao Colônia.

Já a seleção da Alemanha Oriental, apesar da derrocada nas Eliminatórias da Copa de 1990 e da queda do Muro de Berlim, não encerrou suas atividades de imediato. A equipe continuou disputando amistosos no primeiro semestre de 1990 e, sem uma data fixa à unificação do país no início do ano, até foi sorteada para as Eliminatórias da Euro 1992. Naquele período de barganhas, atuar no time até virou uma vitrine para descolar uma transferência à Bundesliga. Não à toa, os comandados de Eduard Geyer seguiram produzindo em alto nível e apresentaram sua força contra diversas seleções que se preparavam ao Mundial de 1990.

A Alemanha Oriental derrotou Estados Unidos, Egito e Escócia às vésperas da Copa do Mundo, além de empatar por 3 a 3 com o Brasil. O duelo no Maracanã foi o último antes do embarque do time de Sebastião Lazaroni rumo ao Mundial. Já a despedida dos alemães orientais como seleção aconteceu em 12 de setembro de 1990, quando a unificação já estava ratificada para acontecer no próximo 3 de outubro. A estreia nas Eliminatórias da Euro 1992, contra a Bélgica, acabou transformada em um amistoso.

Este foi o único jogo disputado pela Alemanha Oriental no segundo semestre de 1990, quando os principais nomes do elenco tinham rumado à Bundesliga. Ao todo, 22 jogadores recusaram o chamado de Eduard Geyer. Muitos alegaram estar lesionados, enquanto outros diziam que não viam mais sentido em defender um país próximo do fim. Restaram 14 atletas à disposição, a maioria deles jovem e com pouca rodagem internacional, que ainda tratavam o compromisso como um trampolim no mercado de transferências. “Acho que provavelmente dez jogadores estavam de início. Eu me lembro do técnico e das outras pessoas da comissão no telefone o dia inteiro. Toda hora ouvíamos eles dizerem que esse ou aquele jogador não viria”, contou Rösler.

Matthias Sammer era a exceção. Foi o único profissional da Bundesliga que compareceu. As condições oferecidas na concentração eram péssimas e o astro temeu o pior, prevendo uma goleada da Bélgica. Ele não queria fazer parte de um vexame e, diante dos riscos, tentou abandonar os companheiros em busca de um voo de volta a Stuttgart. Não conseguiu. Depois, seria convencido por Eduard Geyer e por Dieter Hoeness (então diretor do Stuttgart) a permanecer no elenco. Viajaria com o restante dos atletas a Bruxelas.

O hotel na Bélgica se tornou uma mesa de negociações ainda mais escancarada aos jogadores alemães orientais. Já a federação se aproveitou do momento e ofereceu um polpudo bicho aos atletas em caso de vitória. Deu certo. Usando a braçadeira de capitão, Sammer conduziu a vitória da Alemanha Oriental por 2 a 0. “Olhando para trás, fico feliz que não encontrei um voo. Às vezes, a boa sorte precisa se impor sobre você”, relembrou à televisão alemã, com um sorriso no rosto. Naquela noite, o meio-campista arrebentou e anotou dois gols. O empenho dos alemães orientais foi notável. Fecharam a história com chave de ouro.

Mesmo com a unificação vigente em 3 de outubro, a Alemanha Oriental ainda deveria fazer mais uma partida depois disso. Curiosamente, a Alemanha Ocidental também compunha o grupo das Eliminatórias da Euro 1992. A partida, marcada para novembro em Leipzig, serviria como uma ocasião festiva para celebrar a união. Todavia, ela precisou ser cancelada. Semanas antes, num confronto entre hooligans e policiais durante um jogo da Oberliga em Leipzig, um torcedor morreu baleado. A partir de então, os embates nos estádios orientais se tornaram frequentes.  Por conta disso, o encontro não ocorreu. Na sequência das Eliminatórias, a Alemanha atuaria como seleção unificada, com o time ocidental absorvendo os jogadores orientais.

Somente em novembro de 2010 é que os veteranos da seleção alemã oriental e da seleção alemã ocidental puderam se enfrentar. A partida comemorava o aniversário da reunificação 20 anos depois. Lothar Matthäus e Ulf Kirsten foram os capitães da confraternização na própria cidade de Leipzig, com 15 mil torcedores presentes nas arquibancadas da Red Bull Arena. Os orientais conquistaram a vitória por 2 a 1, de virada, com gols de Olaf Marschall e Kirsten.

O herói de Berlim

A seleção da Alemanha Ocidental não encarou os mesmos problemas que os vizinhos do lado Oriental, mas ainda assim fez uma partida conturbada contra Gales para fechar sua campanha nas Eliminatórias da Copa de 1990, em 15 de novembro de 1989. Quem confirma isso é o próprio Franz Beckenbauer, técnico do Nationalelf no período: “Nós quase fomos brecados pelo Muro de Berlim. Era meu trabalho preparar o time para um jogo tão importante, mas, de repente, o foco na partida desapareceu”.

Se os alemães ocidentais não vencessem aquele confronto, o sonho do tricampeonato mundial estava precocemente morto e, pela primeira vez na história, a seleção não se classificaria à Copa dentro de uma campanha nas Eliminatórias. Não à toa, o Kaiser ainda considera aquele duelo o mais importante de sua passagem pelo comando da Mannschaft – mais até que a futura decisão em Roma, contra a Argentina.

Gales, o adversário da vez, já tinha complicado a vida da Alemanha Ocidental. Os visitantes não passaram do empate sem gols na viagem a Cardiff, durante o primeiro turno das Eliminatórias. Prevaleceu a igualdade por 0 a 0, diante de 30 mil torcedores. Além disso, os dois empates dos germânicos contra a Holanda deixaram o Nationalelf em desvantagem no Grupo 4, já que os holandeses haviam batido os galeses em ambos os confrontos. Com apenas duas vitórias sobre a Finlândia até aquele momento, os alemães ocidentais tinham a necessidade de superar Gales dentro do Estádio Müngersdorfer, em Colônia.

Treinado por Terence Yorath, Gales tinha uma equipe forte, estrelada pelo atacante Mark Hughes e pelo goleiro Neville Southall – por sorte, Ian Rush era desfalque dos britânicos ao reencontro. Mas não que os alemães ocidentais também estivessem completos. Lothar Matthäus, o craque do time e dono da braçadeira de capitão, era outro indisponível para o confronto decisivo. Ao menos Beckenbauer seguia com outras feras, incluindo o artilheiro Jürgen Klinsmann e o lateral Andreas Brehme.

Com a cabeça longe, pensando na queda do Muro de Berlim e em suas consequências, a Alemanha Ocidental ainda precisava ficar de olho nos resultados paralelos. A Holanda liderava o Grupo 4 e deveria confirmar a presença na Copa do Mundo com uma vitória sobre a Finlândia em Roterdã – de fato, ganhou por 3 a 0. Sendo assim, diante da impossibilidade de superarem a Orange na tabela de sua chave, os alemães ocidentais necessitavam da vitória para se colocarem entre os melhores vice-líderes dos grupos com quatro times no qualificatório europeu.

A Alemanha Ocidental entraria em campo com sete pontos. No Grupo 2, a Inglaterra encerrara sua participação dias antes e tinha nove pontos, encaminhada à Copa. Já no Grupo 1, a Romênia havia vencido a Dinamarca na tarde daquele 15 de novembro em Bucareste e assegurou a primeira posição, deixando os dinamarqueses com o segundo lugar. Somando oito pontos, os nórdicos tinham vantagem nos critérios de desempate caso os alemães ocidentais só empatassem com Gales. Vale lembrar que, naquele momento, a vitória ainda valia dois pontos. O time de Franz Beckenbauer estava com a corda no pescoço e não podia tropeçar. Gales, já eliminado, poderia fazer o papel de carrasco.

Quando a bola começou a rolar em Colônia, a Alemanha Ocidental logo passou a viver seu pesadelo. Diante de 60 mil torcedores, Gales abriu o placar. Aos 11 minutos, um erro na saída de bola dos anfitriões permitiu o primeiro gol dos galeses. Malcolm Allen recebeu na intermediária, aplicou uma caneta em Stefan Reuter e bateu na saída de Bodo Illgner. Como se não bastasse, Southall estava em uma noite inspirada e fechava o gol do outro lado. Os germânicos precisavam correr atrás de dois tentos.

O empate da Alemanha Ocidental aconteceu aos 25 minutos. Andreas Möller cobrou o escanteio pela direita. Klaus Augenthaler subiu no meio da área e puxou o marcador, que acabou mandando a bola para trás. O árbitro não marcou falta. Já na pequena área, Rudi Völler deu um carrinho para desviar a bola e se antecipar a Southall, que já tentava abafar em seus pés. Nem mesmo os dois galeses em cima da linha conseguiram evitar o tento. Ainda assim, a igualdade não era suficiente ao Nationalelf.

O alívio da Alemanha Ocidental só estaria garantido no início do segundo tempo. O herói foi Thomas Hässler, que havia nascido justamente na Berlim Ocidental. O meio-campista cresceu no norte da cidade cercada, em uma casa que ficava a mais ou menos três quilômetros do muro. Começou a carreira em clubes menores da capital. Já em 1984, após cinco anos no Reinickendorfer Füchse, o adolescente seria descoberto pelo Colônia e mudaria-se para a nova metrópole. Sentindo-se em casa naquele embate decisivo, anotou o gol que classificou os alemães ocidentais à Copa.

O gol aconteceu aos três minutos da etapa complementar. A jogada nasceu com o capitão Pierre Littbarski, o outro titular nascido na Berlim Ocidental, que foi até mesmo gandula do Estádio Olímpico na Copa de 1974. O ponta bagunçou a defesa pelo lado esquerdo e cruzou. A zaga não conseguiu cortar e a sobra ficou limpa para Hässler no segundo pau. O berlinense emendou um chute de primeira, rasteiro, no canto de Southall. Indefensável. “Eu me sinto um gigante. Sonhei com esse gol antes. Sonhei que o cruzamento vinha da esquerda e eu marcava o gol decisivo. Fiz da mesma maneira”, declararia Hässler, depois da partida.

O duelo, de qualquer maneira, não se encerraria com aquele lance. Durante o longo do tempo restante, a Alemanha Ocidental conseguiria sustentar o triunfo, apesar dos riscos. Littbarski teria a chance de anotar o terceiro gol, mas perderia um pênalti. Mesmo eliminado com qualquer resultado, Gales não desistiria e faria os torcedores em Colônia prenderem a respiração aos 43 minutos. Allen recebeu um cruzamento da direita e sua cabeçada raspou a trave. Se saísse, o tento eliminaria os anfitriões. Com o erro, os germânicos puderam respirar aliviados. Ao apito final, a Alemanha Ocidental celebrou a suada classificação à Copa do Mundo. Aquele resultado iniciaria uma façanha maior aos germânicos.

Vale frisar que a Alemanha Ocidental disputou a Copa de 1990 ainda com jogadores nascidos apenas de um lado do país, mas já representava um sentimento maior diante da iminente unificação. Não à toa, é comum muitas pessoas confundirem e acharem que o país já fosse um só no Mundial da Itália. A equipe de Beckenbauer confirmou sua força e conquistou o tricampeonato na decisão contra a Argentina. E a festa não ficou restrita apenas aos torcedores ocidentais. O sentimento também foi extravasado por milhões de pessoas que torceram com gosto pelos compatriotas do lado oriental e saíram às ruas para celebrar o triunfo nacional.

A primeira partida da Alemanha como uma só nação aconteceu em dezembro de 1990. Em amistoso realizado em Stuttgart, o Nationalelf derrotou a Suíça por 4 a 0. Matthias Sammer foi o único jogador oriental entre os titulares de Berti Vogts. Já no segundo tempo, Andreas Thom saiu do banco e anotou um dos gols. O primeiro compromisso no antigo território oriental ocorreu apenas em outubro de 1992, na cidade de Dresden. Os alemães empataram com o México por 1 a 1. Apesar do tropeço, a festa teve uma razão maior.