Na semana passada, de maneira utópica, a coluna sugeria que o título da Eurocopa trouxesse consigo uma renovação na forma como o futebol português é conduzido internamente. O pedido se justificativa pela possibilidade de, ao ser campeão europeu pela primeira vez, Portugal tentar entrar no grupo de elite entre os países do continente. A utopia, por sua vez, se justifica ao sabermos que mudar a mentalidade dos dirigentes do futebol lusitano é muito mais difícil do que ganhar uma Eurocopa com três empates na primeira fase.

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Pois bastaram poucos dias depois que Cristiano Ronaldo ergueu o troféu na França para que a realidade voltasse a bater na porta. Ela veio após o sorteio que definiu as tabelas da primeira e da segunda divisões do Campeonato Português da temporada 2016/17. A polêmica nem é tão grande assim (tanto que tomou pouco espaço no noticiário do país), mas é um bom exemplo de como as coisas ainda precisam melhorar muito.

Acontece que o União da Madeira, rebaixado para a Segunda Liga na última temporada, tenta impugnar o sorteio da competição que tem início marcado para 6 de agosto – uma semana antes da primeira divisão. Entre os motivos, estão detalhes técnicos do sorteio e da divulgação dos resultados (que, no mesmo evento, aconteceram de forma diferente do ocorrido com a primeira divisão). Mas o principal argumento é curioso e mostra como a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) conseguiu arrumar um problema desnecessário: a Acadêmica enfrentará somente equipes B nas cinco rodadas finais de cada turno (Braga B, Benfica B, Vitória de Guimarães B, Sporting B e Porto B, nessa ordem).

Pelo regulamento, os times B não podem subir para a divisão de elite, mesmo que terminem o campeonato na zona de acesso. Na prática, são equipes que servem para que os clubes trabalhem os jogadores com potencial para atuar pelo time principal. Assim, ao menos na teoria, pode haver um favorecimento à Acadêmica, que em tese enfrentará equipes menos competitivas (embora possam ser fortes tecnicamente) nas rodadas derradeiras.

Na prática, esse “favorecimento” à Acadêmica pode cair por terra quando a bola começar a rolar. Mas faltou à LPFP (que certamente nem dará ouvidos à queixa do União da Madeira) mais sensibilidade para evitar o constrangimento e o surgimento de teorias conspiratórias.

Este, porém, não é o único caso que marca de maneira polêmica o início da segundona portuguesa. Vale lembrar que o campeonato começa em meio às investigações de manipulação de resultados na temporada passada.

E há ainda o protesto do Gil Vicente, que ganhou na Justiça o direito de disputar a primeira divisão, mas viu a própria Liga recorrer (assim como o Belenenses, outro interessado no caso) e terá de jogar no segundo escalão.

Ainda que seja utópica, a vontade que o futebol português evolua na esteira do título da Eurocopa permanece. Mas está muito claro que isso não acontecerá facilmente