A FA terá algumas explicações a dar depois do lançamento de Pitch Black, de Emy Onuora, que trata do racismo no futebol. Lançado na sexta-feira, o livro traz a revelação perturbadora de uma tentativa oficiosa da federação em tentar limitar o número de negros na seleção inglesa no início dos anos 1990. Para o autor, mestre em estudos étnicos e relações raciais, o episódio levanta questões sobre por quanto tempo essa ideia tomou conta dos corredores da entidade.

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Em uma das passagens do livro, Richie Moran, ex-jogador do Birmingham e um dos ativistas do movimento negro dentro do futebol inglês, conta que Graham Taylor, técnico da seleção inglesa entre 1990 e 1993, lhe revelou a tentativa de dirigentes de convencê-lo a implantar uma cota predominantemente branca na equipe.

“O Graham Taylor veio até mim e disse: ‘Olha, vou te falar um negócio. Eu nunca vou admitir isso, seria processado por difamação. Quando eu era treinador da Inglaterra, fui chamado por dois membros da FA, que não vou nomear’. Eu arrisquei dois nomes, e ele disse: ‘Não estou preparado para falar, mas me disseram em termos incertos para não escolher muitos jogadores negros para a seleção’”, relembra Moran no livro.

O Guardian, que trouxe o episódio do livro a público nesta quarta-feira, chama atenção para o fato de que a revelação bate com uma notícia de 2004, que afirmava, no evento de comemoração dos dez anos da Kick It Out, instituição que combate o racismo no futebol na Inglaterra, um técnico teria revelado a mesma coisa, mas havia se recusado a ir a público. Graham Taylor esteve neste evento.

Fazendo o seu papel, o periódico inglês contatou Taylor. O ex-treinador não confirmou a veracidade da história, mas por suas palavras dá para deduzir que ele pode estar apenas se preservando do possível processo que sofreria. “Não estou tentando me esquivar, e isso também não significa que eu não tenha dito isso, mas, se alguém observar meu histórico por clubes e seleção, fica óbvio para todos que eu não segui o que aparentemente foi dito. Se alguém observar meu histórico, eu nunca poderia ser acusado de fechar caminho para qualquer jogador negro”, explicou-se.

Também em conversa com o Guardian, Onuora, autor do livro, aponta a possibilidade de que este tipo de pensamento tenha durado por mais tempo do que apenas durante a passagem de Taylor pela seleção inglesa. “A revelação do Moran mostra que a preocupação primária da FA era preservar uma imagem predominantemente branca da seleção inglesa, uma imagem que eles próprios haviam construído e que deram grandes passos para preservá-la. Não há questionamento sobre o Taylor ter seguido essas instruções, mas o episódio levanta questões importantes sobre quantos outros técnicos da seleção inglesa receberam a mesma instrução e, portanto, se sentiram pressionados a limitar o número de jogadores negros convocados”, pondera.

Por mais datada que esteja, a revelação é um baque para a FA, que se esforça em publicamente combater o racismo, mas que agora precisará lidar com essa mancha do passado e com a suposição de por quanto tempo esse tipo de pensamento circulou em seus corredores. Isso sem falar na possibilidade de que o episódio catalise novas revelações.