Segundo Del Nero, todos na CPI do Futebol estão errados, menos o Del Nero

O presidente licenciado da CBF deu depoimento ao Senado e negou informações do FBI, da Polícia Federal, da Anac, do Ministério da Fazenda...

O presidente licenciado da CBF, Marco Polo Del Nero, esteve, nesta quarta-feira, no Senado, para responder perguntas da CPI do Futebol, depois de ter sido indiciado pela Justiça dos Estados Unidos por conspirar para fraudar a entidade máxima do futebol brasileiro. Del Nero nega essa acusação. Aliás, em um depoimento confuso e vago, o dirigente negou todas as evidências apresentadas, da investigação americana, de órgãos brasileiros e da própria comissão chefiada pelo senador Romário (PSB-RJ).

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Segundo Del Nero, seu afastamento da CBF se deu para reunir evidências e concentrar-se na sua defesa contra as acusações do FBI. Um direito, assim como o da presunção de inocência, que todo cidadão tem. “Eu vou provar que há um equívoco muito grande desse indiciamento do governo americano”, prometeu.

Uma das provas que o FBI alega ter contra Del Nero é a gravação de uma reunião entre José Maria Marin, antecessor do dirigente, preso em Nova York, e J. Hawilla, dono da Traffic, um dos primeiros delatores do caso. “Nunca estive reunido com o senhor Hawilla juntamente com Marin. E nunca estive conversando com Hawilla sobre qualquer assunto”, disse. “Então a gravação do FBI é falsificada?”, perguntou o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP). “Deve ser, né?”, completou Del Nero.

Depois, disse que Hawilla é um “conhecido”, o que é mais crível. Del Nero está há muito tempo envolvido no futebol. Entrou como vice-presidente da Federação Paulista na década oitenta, presidiu a entidade por 12 anos e foi braço direito e sucessor de Marin entre 2012 e 2015. Dificilmente nunca teve contato com Hawilla, um dos homens mais poderosos do futebol nas últimas décadas, com sua agência de marketing esportivo.

O FBI acusa Del Nero de ter levado dinheiro por fora em contratos da Conmebol, da qual foi membro do Comitê Executivo. Romário perguntou se ele assinou contratos da entidade sul-americana. “Muito provavelmente não, porque quem assinava era o presidente da entidade”, disse, e o ex-jogador retrucou dizendo que a CPI tem esses documentos e que neles consta a assinatura de Del Nero.

Um dos parlamentares que o sabatinou foi Randolfe Rodrigues (REDE-AP), o mais incisivo de todos – sem contar Romário, que foi até um pouco agressivo demais. Em uma linha de raciocínio, perguntou se ele já havia visitado algum paraíso fiscal. Del Nero negou. Mas Rodrigues afirmou que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Polícia Federal confirmam uma viagem dele, em um jatinho executivo da CBF, ao lado de Ricardo Teixeira, outro indiciado pelo FBI, e Marin.

“Não estive e não conheço Barbados!”, exclamou Del Nero, que prometeu enviar uma cópia do seu passaporte para a CPI checar a data da viagem (entre 1º e 11 de fevereiro de 2014) e esclarecer o impasse. “Se a Anac está mentindo, é o primeiro caso da história em que o que foi reportado por um piloto para a Anac foi mentira. Nós vamos ter que montar a CPI da Anac aqui também, daqui a pouco”, disse Rodrigues. “Pode montar”, retrucou Del Nero.

Além de seus cargos no futebol, Del Nero afirma ser um advogado “muito bem sucedido”. Tanto que, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ligado ao Ministério da Fazenda, movimentou R$ 27 milhões entre 2014 e 2015. Del Nero – adivinha – nega. O que é um pouco curioso porque ele não parece ter muita lembrança de seus negócios financeiros. Rodrigues questionou-o sobre o destino de um pagamento de R$ 273.334, em 2014, declarado no seu imposto de renda. “Não me lembro, não me lembro”, respondeu.

“É muito difícil todo mundo estar mentindo, assim, de forma seguida”, afirmou o senador Magno Malta (PR-ES), outro parlamentar interrogando Del Nero. “Essas informações que os senadores estão com ela aqui e perguntando ao senhor, não é fruto de imaginação. É fruto do que foi mandado dessas instituições que estão dentro do processo investigativo”. O depoimento do presidente licenciado realmente causa confusão. FBI, Senado, Anac, Polícia Federal e Coaf podem estar todos errados ao mesmo tempo. Ou pode ser que apenas Del Nero é que está.