Clarence Seedorf teve uma chance de ouro para começar sua carreira como treinador. Assumiu o Milan, em janeiro de 2014, e terminou em oitavo lugar. Caiu no moedor de técnicos dos últimos anos da gerência de Silvio Berlusconi, adepto da estratégia de tentativa e erro. Foi substituído por Inzaghi, que foi substituído por Mihajlovic, que foi substituído por Montella. Ano passado, tentou a sorte no futebol chinês, no Shenzhen, da segunda divisão, mas não conseguiu o acesso – ficou em nono lugar – e foi trocado por Sven-Goran Eriksson.

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Três anos e meio depois de dar início a uma segunda etapa de sua vida, Seedorf não teve muitas chances de provar o seu valor com a prancheta na mão, apesar de ser um jogador amplamente reconhecido como inteligente e esclarecido. Para o holandês, em entrevista ao El País, há um preconceito com a sua falta de experiência como treinador que, para ele, não é justificável. Citou casos: Zidane assumiu o Real Madrid e está indo bem; Guardiola foi da base para o time principal do Barcelona; Rijkaard treinou a seleção holandesa e depois venceu a Champions com o Barça; Sacchi foi nomeado técnico do Milan sem ninguém conhecê-lo; Capello passou de comentarista de televisão a treinador dos rossoneri.

“Tem havido clubes interessados, mas sempre acabam falando da minha falta de experiência”, afirmou Seedorf. “Parece uma música que todos cantam. É uma pena porque há muitos casos de pessoas sem experiência que estão fazendo maravilhas justamente porque podem utilizar suas experiências como jogador com inteligência e com capacidade de se adaptar e aprender rápido. Existe um preconceito destrutivo contra a falta de experiência. Vejo muitos casos de pessoas experientes que continuam fazendo coisas ruins, mas, como tiveram um ou dois anos bons, conseguem mais oportunidades”.

Seedorf assegura que está preparado: estudou e tem uma vantagem em relação aos concorrentes. Segundo ele, o fato de ter parado de jogar há pouco tempo faz com que seja mais próximo da atual geração de jogadores. “Atuei com jovens que ainda estão jogando. A brecha entre a minha geração e a atual é mínima. Eu entendo a linguagem deles”, disse. “Estou convencido que os clubes deveriam tentar falar mais comigo, permitir que eu conheça seus projetos, escutar minha visão. Tenho paciência. Acredito que vai chegar uma boa oportunidade. Na Europa, um bom clube para eu mostrar meu valor”.

O holandês ainda não teve tempo suficiente para ter um estilo de jogo característico – nunca comandou sequer uma pré-temporada -, mas afirma que, influenciado por técnicos de toda a estirpe, de Van Gaal a Capello, de Del Bosque a Lippi, de Ancelotti a Heynckes, pensa em uma mistura do futebol de posse de bola dos holandeses e barcelonistas, inspirado em Cruyff, com a verticalidade dos italianos. “Gosto de ter a posse de bola e articular o jogo de trás, mas, se o adversário fizer muita pressão, temos que ter a opção de jogar diretamente com o atacante. Porque, no final, eu aprendi no futebol italiano que o caminho mais rápido para o gol adversário é muito válido”, explicou.

“O Ajax faz há 20 anos o que Guardiola fez tão bem com jogadores impressionantes. É uma filosofia muito boa, mas, se os outros analisam e bloqueiam os volantes, você tem que ter um plano B. Ninguém ganha três pontos por ter 80% de posse de bola. Ganha pontos fazendo gols. Concretizar eu aprendi na Itália. Porque na Holanda e na Espanha, muitas vezes, ficamos contentes por ter o controle da bola. Para mandar nas partidas, você precisa ser perigoso cada vez que ataca porque isso gera inquietação nos adversários. Não há um modo bom e um modo ruim de entender o futebol”, afirmou.

Seedorf afirma que gosta de ter bola, mas não pensando apenas em grandes times. Mas também e médios. “Se um clube quiser valorizar seu elenco, e estimula que o jogo vá do goleiro direto ao atacante, a maioria dos jogadores aparecem menos. Um dos trabalhos mais importantes de um técnico é fazer os seus jogadores crescerem. Se não entrarem em contato com a bola, é difícil que ganhem confiança para fazer suas jogadas”, disse. Apesar de ter dito que é muito próximo de Capello, Ancelotti e Van Gaal, tem uma filosofia muito particular sobre o futebol.

Por fim, às vésperas da final da Champions League entre Real Madrid e Juventus, Seedorf lembrou o título que ganhou com a camisa dos espanhóis contra os italianos, em 1998, encerrando um jejum de 32 anos. Fazia parte de um grupo cascudo, com jogadores experientes como Hierro, Redondo, Raúl, Panucci, Mijatovic, Roberto Carlos, Suker e companhia.

“Era um grupo de homens. Um grupo com fome que entendia o que tinha que fazer. Tinha uma grande personalidade. O mais incrível foi que superamos muitos momentos de dificuldade porque a inteligência coletiva era tão alta que, no fim, acabamos fazendo exatamente o que era melhor para todos. Embora muitas vezes houvesse discordâncias pontuais, embora houvesse discussões, as coisas eram resolvidas de tal modo que, dentro de campo, funcionamos. Os conflitos nos fortaleciam. Isso foi o mais especial daquela equipe. Em todos os clubes em que joguei, tivemos momentos complicados. Nunca na minha carreira eu vi um grupo que se administrava tão bem”, afirmou o único jogador campeão europeu por três clubes diferentes.