Chegou até a ser engraçado, no começo, a escuridão em torno de alguns jogos do Palmeiras. Havia torcedores filmando das arquibancadas e transmitindo ao vivo, cinegrafistas amadores, no jargão jornalístico, e sites de resultados com problemas para adquirir informações. As rádios acabaram se dando bem, conseguindo relatar os jogos à moda antiga. Mas era uma situação insustentável. Parte tão grande e importante – líder do campeonato, um dos favoritos ao título – não poderia seguir em um buraco negro para sempre. O clube chegou a um acordo com a Globo para transmitir seus jogos na TV aberta e, especialmente, no Premiere, canal pay per view do grupo carioca.

Tudo começou quando o Palmeiras fechou acordo de TV fechada, a partir desta edição do Campeonato Brasileiro, com o Esporte Interativo, do grupo Turner. Alegando que o produto havia sido desvalorizado pela perda de exclusividade, a Globo aplicou uma multa de 20% aos clubes que fizeram isso em seus contratos de TV aberta e 5,2% no pay per view. Como o Palmeiras não quis aceitá-la, esse foi um dos entraves da negociação, e, enquanto ela rolava, os únicos jogos do atual campeão brasileiro que poderiam ser transmitidos eram contra os outros clubes com contrato de TV fechada com o EI: Athletico Paranaense, Santos, Internacional, Fortaleza, Bahia e Ceará.

No começo da semana, a Globo havia aceitado abrir mão dessa multa, o que não foi nenhuma grande concessão porque ela já havia voltado atrás da redução, em abril, quando o Esporte Interativo decidiu não exibir os jogos para as praças em que eles eram realizados. Por contrato, não precisava fazer isso, mas aceitou a pedido dos clubes com os quais tem contrato. A Globo, que historicamente bloqueia partidas por praças, alegava que isso feria seus direitos.

Nas últimas conversas, faltava chegar a um acordo pelo pay per view. O Palmeiras exigia um valor mínimo – pagamento garantido caso a variável por assinantes que torcem para o clube não fosse significativa – mais próximo aos que recebem Flamengo (R$ 120 milhões) e Corinthians (R$ 110 milhões). Segundo o Estadão, a negociação partiu de R$ 70 milhões e foi fechada em R$ 100 milhões. O contrato vale até 2024. “Tivemos os nossos pedidos atendidos a contento”, anunciou Galiotte, em nota oficial.

O desfecho foi uma vitória importante para o Palmeiras, mas não podemos deixar de lado as condições que a tornaram possível. Além de ter a quarta maior torcida do Brasil, as contas estão estruturadas, com rendimentos altos de estádio, sócio-torcedor e venda de promessas da base. O patrocinador paga acima do valor de mercado e não exige necessariamente o máximo de exibição possível porque tem outros interesses dentro do clube – políticos. Quem está com o pires na mão, precisando de adiantamentos para pagar contas urgentes, ou sofre pressão das marcas que estampa na camisa para aparecer na Globo, não conseguiria esperar tanto ou pressionar a emissora por condições melhores.

E, aqui, voltamos oito anos no passado, para 2011, quando o Clube dos 13 foi implodido. Com todos seus problemas, era uma organização que negociava coletivamente os contratos de direito de transmissão, o que eliminava essas particularidades que tornam um clube mais forte do que o outro na mesa de negociações. As discussões sobre a melhor distribuição dessas cotas seriam internas, entre os membros, e não individualmente com a emissora, embora tenha havido avanços nesses sentidos nos últimos anos – um modelo parecido ao da Premier League, com 40% distribuído igualmente, 30% para os 16 primeiros colocados e 30% pelo volume de jogos exibidos na TV aberta.

Uma nova negociação coletiva não precisa ter formulação idêntica à que havia no Clube dos 13, mas o Palmeiras deixou claro que, quando uma das partes tem força para peitar a Globo ou qualquer outra emissora, é possível chegar a um acordo mais favorável, e ninguém é mais forte do que a união de todos os clubes.

Como ficaram as transmissões dos jogos do Palmeiras:

TV aberta: todos os jogos
TV fechada: contra Santos, Internacional, Athletico Paranaense, Ceará, Fortaleza e Bahia
Pay-per-view: todos os jogos, menos contra o Athletico Paranaense