Caso você tenha gostos peculiares e seja fã da Copa da Liga Francesa, aproveite: a edição desta temporada será a última. A decisão deixa a Inglaterra como o único país europeu, entre os principais, que mantém uma copa secundária. E, depois desta semana, com a realização da terceira rodada, é inevitável questionar o motivo.

Esta fase recebe os clubes da Premier League e teve a eliminação de quatro deles pelos pés de adversários de divisões inferiores, com destaque para a queda do Tottenham para o Colchester, da quarta divisão, e a goleada por 4 a 0 que o West Ham sofreu do Oxford United, da terceira.

Wolverhampton e Manchester United, representantes ingleses na Liga Europa, precisaram dos pênaltis para evitar o vexame.

Claro que zebras sempre acontecem, mas tantas assim ao mesmo tempo são sintoma de uma doença mais ampla: se os clubes que mais deveriam dar atenção à Copa da Liga não estão nem aí, ela perde o sentido de existir.

As contestações crescem a cada temporada, mas é curioso que, mesmo no momento em que foi criada, em 1960, ela não serviu ao seu propósito e nunca foi uma unanimidade. A ideia era que substituísse os jogos perdidos por uma reformulação na pirâmide inglesa, que passaria de 92 equipes separadas por quatro divisões para 100 em cinco degraus.

A reestruturação nunca aconteceu, mas a Copa da Liga foi fundada mesmo assim, e sua primeira final, entre Rotherham United e Aston Villa, precisou ser disputada no começo da temporada seguinte (1961/62) devido ao calendário congestionado. Isso em uma época na qual os clubes ingleses disputavam apenas o Campeonato Inglês e a Copa da Inglaterra, com seus infinitos replays, é verdade, e poucos tinham uma aventura europeia pela frente.

Nem assim, os principais times davam atenção à Copa da Liga. O Liverpool de Bill Shankly e o Manchester United de Matt Busby não chegaram sequer a uma final. Com dois títulos naquela década, o Everton também não. O Leeds de Don Revie a conquistou antes de ser campeão inglês.

O Liverpool de Bob Paisley, dominante na década seguinte, venceu-a apenas em 1981 (e emendou um tetracampeonato). Quem curtia muito o torneio era Brian Clough, cujo Nottingham Forest somou quatro títulos. A final de 1992 foi o canto do cisne do lendário treinador.

Aquele jogo também representou o segundo título de Alex Ferguson na Inglaterra, mas o escocês também nunca deu muita bola para a Copa da Liga e demorou 14 anos para repetir o feito, apesar de seu Manchester United ter sido soberano nacionalmente naquele período.

O Arsenal de Arsène Wenger nunca conquistou o torneio, nem quando era um dos times mais fortes da Inglaterra, nem quando estava desesperado para levantar algum troféu.

Acontece que ingleses, em geral, são apegados a tradições e não exatamente fãs de mudanças e, mesmo antes de o calendário ser preenchido por mais partidas europeias, e da Premier League se tornar uma máquina de fazer dinheiro, a Copa da Liga já era redundante.

Os caras inventaram a brincadeira, no meio da Era Vitoriana, então, em 1960, a Copa da Inglaterra estava se preparando para completar 100 anos, com sua importância estabelecida e como o palco onde Davi conseguia derrotar Golias e onde aconteciam os grandes contos de fada do futebol inglês.

Se naquela época já valia perguntar por que haver mais de um, agora, então, nem se fala,  porque a FA Cup ainda mantém um pouco do seu romantismo, em menor medida e frequência.

Abrindo um breve parêntese, também nunca ajudou a mudança constante de nome do torneio, rebatizado mais ou menos a cada cinco anos de acordo com o patrocinador de ocasião. Foi Milk Cup, foi Littlewoods Challenge Cup, foi Coca-Cola Cup, Carling Cup, Capital One Cup e, agora, Carabao Cup.

Fechando o parêntese e voltando ao presente, mesmo com todos esses problemas, a Copa da Liga por enquanto existe e ser campeão é sempre uma experiência interessante, especialmente para o torcedor que não é campeão faz muito tempo ou, em alguns casos, nunca foi.

As equipes do top seis estão mais do que certas em usá-la como uma espécie de torneio de aspirantes, uma oportunidade para testar suas categorias de base e dar minutos a reservas, porque mesmo os que não estão em grande fase, como Manchester United, Arsenal e Chelsea, podem brigar por uma Liga Europa, por exemplo, e tem boas chances na Copa da Inglaterra – sem falar da importância de vaga na Champions League.

O Tottenham, membro desse clube, é um caso especial porque precisa de um título mais do que os outros e está em um limbo no qual um lugar entre os quatro primeiros não é certo, mas bem provável, e ao mesmo tempo conquistar a Premier League é praticamente impossível.

A Copa da Liga poderia ser uma opção interessante, mas também não dá para culpar Mauricio Pochettino por achar que o time que ele escalou – com Davison Sánchez, Eric Dier, Wanyama, Ben Davies, Lucas Moura e Dele Alli – era bom o bastante para ganhar do 10º colocado da quarta divisão.

Nem Manuel Pellegrini. O West Ham fez nove mudanças em relação ao jogo contra o Manchester United no fim de semana, mas tinha em campo jogadores como Zabaleta, Balbuena, Sánchez e Wilshere, além dos titulares Diop e Fornals, para enfrentar o 12º colocado da terceira divisão, e não apenas perdeu, como foi goleado.

O Wolverhampton repetiu apenas o ala direito Matt Doherty e contava com Ruben Neves e Patrick Cutrone contra o Reading, 20º colocado da segunda divisão. Precisou dos pênaltis para passar, mas suas dificuldades podem ser contextualizadas como circunstanciais porque o começo de temporada da sensação da última Premier League foi muito ruim e é natural que suas atenções estejam voltadas a uma recuperação.

O caso do Sheffield United é plenamente compreensível porque a equipe tem um orçamento muito baixo e um elenco praticamente de segunda divisão. Escapar do rebaixamento da Premier League tem mesmo que ser a prioridade. E, quando há revezamento, resta pouca qualidade, ainda mais contra um clube como o Sunderland, em dificuldades, mas forte e grande, com time mais próximo da Segundona do que da Terceirona.

O Bournemouth navega mais no fio da navalha. Tem conseguido escapar do rebaixamento com certa folga, mas seu time misto, mesmo com Ryan Fraser, Solanke e Jordan Ibe, não necessariamente sobra contra equipes mais fracas como o Burton Albion, 14º colocado da terceira divisão.

As escalações, porém, são apenas um dos elementos. As de Tottenham, West Ham e Wolverhampton eram incontestavelmente superiores às dos adversários, e pelo menos a do Bournemouth deveria ser levemente melhor do que a do Burton Albion. Se o problema não está na questão técnica, nem na tática (todos esses treinadores fazem bons trabalhos), só pode estar na postura.

O Bournemouth estabeleceu-se como um time de Premier League e chegou a ser nono colocado. O trabalho de Eddie Howe seria coroado com um título, qualquer título, porque o clube nunca foi campeão (sem contar divisões inferiores). Por que não dar uma arriscada neste momento, especialmente quando ainda há tempo para a recuperação? Seria uma campanha que seu torcedor nunca esqueceria.

É verdade que o top seis nunca esteve tão vulnerável, e que o Wolverhampton tem a Liga Europa nesta temporada, mas o que realmente faria a diferença na vida dele e, principalmente, do West Ham, seria uma vaga na Champions League, o que ainda é terrivelmente improvável.

Então, por que não tratar o torneio com um pouco mais de carinho? O Wolverhampton ainda teve sorte de passar nos pênaltis, mas é inaceitável que o West Ham, mesmo com um time reserva, seja goleado por 4 a 0 por um clube da terceira divisão. Os jogadores simplesmente não estavam afim de jogar a Copa da Liga.

O Leicester fez sete mudanças em seu time titular, mas não deu chances ao Luton Town, da segunda divisão, venceu por 4 a 0 e segue em busca do título que conquistou três vezes no total e duas recentemente (1997 e 2000). O Everton poupou apenas seis jogadores e derrotou o Sheffield Wednesday sem problemas, abrindo 2 a 0 em 10 minutos.

Faz seis temporadas que um clube de fora do top seis não conquista o torneio e, nesse período, apenas Sunderland e Southampton chegaram à decisão. Nos últimos 15 anos, as únicas zebras foram o Birmingham, campeão em 2011 sobre o Arsenal, e o Swansea, contra o o Bradford City, em 2013, uma anomalia em todos os sentidos.

A questão financeira ajuda a explicar porque o prêmio para o campeão da Copa da Liga é de ridículos £ 100 mil, enquanto cada posição na Premier League representa um ganho extra de £ 2 milhões, mas, para times que praticamente passam a temporada inteira sem nenhuma esperança de título, essa diferença realmente vale a pena abrir mão da alegria que gritar campeão daria ao seu torcedor?

E a tendência é piorar porque a Inglaterra deve substituir uma vaga na Liga Europa, atual prêmio ao vencedor da Copa da Liga e que já não era particularmente atraente, por outra na nova competição criada pela Uefa, a Conference League, efetivamente o terceiro patamar do futebol europeu.

Com o agravante de que o calendário do futebol inglês poderia se beneficiar de um alívio. A atual temporada será a primeira em que haverá uma pausa de inverno, mas com uma rodada da Premier League desmembrada em dois finais de semana.

Os problemas da Copa da Liga e a falta de interesse dos clubes que deveriam se empenhar em conquistá-la se retroalimentam para colocar em xeque a sua existência. O patrocínio da Carabao termina nesta temporada, mas, em novembro do ano passado, a Football League assinou contrato de direitos de transmissão com a Sky Sports até 2024, o que deve manter a competição viva por mais algum tempo.

A questão é: por quê? Aos grandes, não passa de um estorvo, pelo menos até as semifinais ou quando há clássicos; aos pequenos, não passa de um estorvo que eles querem tirar da frente rapidinho para focar na sobrevivência; aos médios, deveria ser uma oportunidade, mas, com poucas exceções, também não vem sendo mais do que um estorvo.