Não foi a partida mais vistosa de se assistir e muito menos rendeu uma atuação agradável à seleção brasileira. No entanto, o empate por 1 a 1 em Singapura teve sua valia a Senegal. Tite não aproveitou o teste, diferentemente do que realizou o técnico Aliou Cissé. Utilizou a ocasião para apresentar o potencial dos Leões de Teranga contra um adversário de peso (mesmo que modorrento) e não seria surpresa se saísse com a vitória. Os senegaleses trataram o jogo a sério, dominaram o Brasil durante boa parte do tempo e reafirmaram a força de seu atual ciclo.

Atualmente, Senegal conta com o elenco mais completo do futebol africano. Há bons jogadores em quase todas as posições e alguns dos melhores do continente defendem os Leões de Teranga. A qualidade da espinha dorsal formada por Kalidou Koulibaly, Idrissa Gana Gueye e Sadio Mané está bem clara – como transpareceu desde a classificação à última Copa do Mundo ou na campanha até a final da Copa Africana de Nações. Entretanto, acima dos brilhos pontuais, os senegaleses podem estabelecer sua capacidade de maneira mais duradoura – algo que seria inédito na história da seleção.

Pelo impacto causado na Coreia do Sul e no Japão, a seleção de 2002 ainda é o maior símbolo do futebol de Senegal. Era uma equipe de jogadores tão talentosos quanto intempestivos, que aproveitou sua grande oportunidade, mas não conseguiu se manter no topo. Em termos de qualidade técnica, o time atual não fica devendo para os velhos ídolos. E, por mais que repetir uma campanha até as quartas de final da Copa pareça difícil, os senegaleses possuem nível para emendar participações no Mundial e conquistar o inédito título da CAN. Seria simbólico à atual geração, que se consolida.

E enquanto os maiores desafios não vêm, cabe a Senegal se provar contra adversários de nível, contra seleções de outros continentes. O jogo contra o Brasil foi tratado assim. Os Leões de Teranga demarcaram sua imposição física, mas também o bom trato com a bola. Tiveram em Sadio Mané um diferencial, para criar uma jogadaça no lance do pênalti e ainda carimbar a trave – além dos dribles que infernizaram a marcação. Não é uma equipe completa, até por certas dificuldades de definição. Mas há margem de desenvolvimento. Com a segurança de Koulibaly atrás e o trabalho incansável de Gueye no meio (além de boas peças como Salif Sané, Moussa Wagué, Cheikhou Kouyaté, Ismaïla Sarr e Keita Baldé), é time para competir em alto nível.

Aliou Cissé segue o seu trabalho. O treinador passou por alguns momentos de questionamento, mas mantém a confiança ao redor do que realiza com Senegal. O capitão da seleção de 2002 possui a liderança como grande virtude e montou uma defesa forte ao longo do ciclo anterior. Agora, pode dar um passo à frente, lapidando uma equipe mais solta e ofensiva. Foi o que se notou contra o Brasil. A derrota na decisão da Copa Africana demonstrou como os senegaleses precisam de um repertório maior de jogadas. Apesar de certa dependência de Mané na definição, a equipe criou um bom número de chances de gol em Singapura nesta quinta, dando trabalho a Ederson.

As Eliminatórias na África costumam ser as mais predatórias do mundo. Senegal ainda precisa buscar a primeira colocação em um quadrangular sem adversários definidos e, se passar, realizará o confronto direto pela classificação à Copa do Mundo. Por bola ou por nome, os Leões de Teranga entram no grupo de favoritos a estar no Catar. Mas podem ganhar cancha pensando além dos compromissos continentais. Em uma equipe cujos protagonistas atingem a casa dos 30 anos, enquanto outros garotos começam a despontar, o momento a se aproveitar é o agora. A experiência acumulada recentemente forja os Leões de Teranga a retornarem mais fortes para suas próximas aparições internacionais. Encarar o Brasil agrega neste sentido. E, ao menos para eles, o teste foi bem-sucedido.