Em diversos momentos da temporada trágica que teve o Manchester United em 2013/14, ficou clara a falta de controle de David Moyes no vestiário do time. Pouca coisa que pudesse ser provada, mas que ficou mais evidente após as revelações de Rio Ferdinand nas páginas do tablóide Sun, nesta segunda-feira. O zagueiro, hoje no QPR, não poupou as críticas e atacou, entre várias outras coisas, a mentalidade do técnico que fracassou e acabou demitido antes mesmo do fim da temporada.

VEJA TAMBÉM: Sob o brilho de suas estrelas, United também começa a se acertar como time

Algo que sempre foi falado pela imprensa inglesa, mas nunca nas palavras de alguém de dentro do Old Trafford, enfim foi corroborado: Moyes comandava o time da mesma maneira que fazia no Everton, sem se dar conta da diferença de patamar entre os dois. “Ele tentou impor uma visão, mas nunca pareceu completamente claro sobre qual visão seria essa. Sem querer, criou uma vibração negativa onde, com o Fergie (Alex Ferguson), sempre havia sido positiva. (A conversa) Sempre se tratava de como pararíamos o outro time. O Moyes nos preparou para não perder. Estávamos acostumados a jogar para vencer”, revelou Ferdinand.

O meio de campo perdido do Manchester United foi um dos problemas mais claros da temporada passada. Não havia uma transição de qualidade entre defesa e ataque, e o zagueiro revelou que o técnico era confuso ao definir como queria que isso fosse feito. “As inovações do Moyes, em sua maioria, nos levavam a negatividade e confusão. A maior confusão foi sobre como ele queria que movimentássemos a bola para frente. Alguns jogadores sentiam que estavam dando mais chutões à frente que em qualquer momento de suas carreiras”, contou o veterano.

Ferdinand pegou um jogo bastante emblemático da última campanha para seguir o ataque ao  treinador: o empate por 2 a 2 com o Fulham, em Old Trafford, em fevereiro deste ano. Na oportunidade, o setor ofensivo dos Red Devils foi alvo de pesadas críticas por literalmente triplicar sua média de cruzamentos até então em uma clara demonstração de falta de preparação. “Às vezes, nossa principal tática era o cruzamento longo, alto e em diagonal. Era vergonhoso. Em um jogo em casa, contra o Fulham, fizemos 81 cruzamentos! Eu pensava: ‘Por que estamos fazendo isso? O Andy Carroll não joga no nosso time!'”, criticou Ferdinand.

“Toda sua abordagem era estranha. Algumas vezes, o Moyes queria muitos passes. Dizia: ‘Hoje quero que tenhamos 600 passes no jogo. Semana passada foram apenas 400’. Quem se importa? Eu preferiria marcar cinco gols a partir de dez passes’, completa o zagueiro do QPR em outro trecho.

PREMIER LEAGUE: Entre intensidade do Arsenal e precisão do City, empate foi justo no jogaço

Tudo o que Ferdinand falou sobre Moyes revela que, de fato, o escocês nunca foi respeitado pelo grupo como precisaria para ter sucesso. Embora o zagueiro esteja munido de argumentos para explicar o fracasso do técnico ao suceder Ferguson, as declarações demonstram também que a parte da culpa dos jogadores foi ainda maior que o que se via em campo. O próprio Ferdinand, ao comentar seu corte do jogo contra o Bayern de Munique na Allianz Arena, pela última Liga dos Campeões, prefere fazer Moyes seu alvo em vez de reconhecer o declínio técnico que já vivia.

“Aquilo me matou. Por dentro, eu queria gritar e agarrá-lo. Sou um jogador de grupo, então tinha que morder minha língua e ficar parado. Mas provavelmente foi o pior momento que eu já tive no United. Eu nunca havia sido sacado de um jogo importante daquele jeito, ainda por cima na frente de todos”, queixou-se.

Todas essas revelações estarão na autobiografia que Ferdinand deverá lançar em breve. O jogador passou a publicar alguns excertos no Sun, como quando revelou que até hoje ainda não fala com Terry e Cole, após o incidente de racismo do zagueiro do Chelsea com seu irmão, Anton Ferdinand.

Apesar de ser interessante para quem acompanha o futebol inglês saber de todos esses detalhes de vestiário do clube, é também um pouco condenável que Ferdinand saia com críticas tão contundentes a Moyes e que a nada levarão, apenas a danos a um técnico já criticado suficientemente pelo o que apresentou em campo. Sem falar na exposição de coisas que aconteceram há tão pouco tempo e que pode ter consequências para quem esteve envolvido em tudo isso. Agora as repercussões fogem das mãos do veterano.