O futuro de Thiago é incerto. O executivo do Bayern de Munique, Karl-Heinz Rummenigge, falou que ele quer fazer algo novo na carreira, a um ano do fim do seu contrato. Os rumores o ligam ao Liverpool, e não haverá falta de candidatos pelo seu futebol. Basta assistir à final da Champions League, neste domingo, porque, se foi a última, o brasileiro fez questão de reservar uma atuação especial – mais uma – para ficar eternamente marcada na memória dos bávaros.

Thiago tem 29 anos e precisa pensar com cuidado o próximo passo porque deve ser a última chance de se integrar a um projeto grande, entrando na reta final de uma carreira que às vezes passa a impressão, com menos ou mais precisão dependendo do momento, de ter sido aquém da sua qualidade. Em parte, porque joga bola demais, mas também porque sofreu algumas lesões e porque não é um jogador que possa ser apreciado por números. Não faz muitos gols, não dá muitas assistências, raramente aparece na foto de lances decisivos. A experiência Thiago se dá principalmente no olhômetro.

E no meio-campo, seu habitat natural. É nele que Thiago faz o que sabe fazer e o faz melhor do que quase todos os outros. É onde posiciona o corpo para dominar a bola driblando o marcador e imediatamente ganha a primeira vantagem. É onde dá o passe preciso que coloca o companheiro de frente para a linha de defesa do adversário. De onde coloca curva na bola para abrir o jogo para as pontas ou inventa uma inversão de jogo precisa. Onde não apenas simbolicamente mata a bola no peito, levanta a cabeça e conduz o seu time à frente.

Em um momento do futebol em que tantos times buscam a pressão à saída de bola do adversário, tentando forçar o erro e iniciar as ações ofensivas o mais perto possível do outro gol, ter um jogador que erra tão pouco nessa função e tem tantos recursos para abrir espaços é um luxo. Não importa que não o faça perto da área porque onde o faz é tão importante quanto. Basta olhar com atenção o lance do único gol da decisão: é dele a bola que cruza o campo, corta todas as linhas e acha Kimmich perto da área. Qualquer time que busque ter certo controle da partida precisa de um jogador como Thiago, que dita o ritmo, comanda a troca de passes enquanto seus companheiros se posicionam e quebra as armadilhas no coração do gramado.

E se você olhar aos números além dos gols e assistências, eles ainda são muito bons. Thiago deu 85 passes contra o Paris Saint-Germain, mais do que todos os outros jogadores do Bayern, e acertou 75. Aproveitamento de 88%. Dois deles terminaram em finalização. Foi o segundo jogador que mais tocou na bola no campeão europeu, uma penteada a menos que Kimmich, e mesmo assim perdeu a posse em apenas uma oportunidade. Defensivamente, contribuiu com três desarmes e duas interceptações. Nesse último quesito, ficou abaixo apenas de Thomas Müller.

Thiago tem um futebol que não pode ser limitado a números. Ele é mais uma expressão artística que se manifesta em lances plásticos e elegantes, que não deixam de ter uma eficiência crucial para o que o jogo demanda. Não é fast food, é mais culinária francesa, sem a intenção do trocadilho, e teve uma atuação contra o Paris Saint-Germain que ao mesmo tempo deixou cruelmente exposto tudo do que a torcida do Bayern sentirá saudade, se ele realmente for embora, e também permitiu que ela apreciasse um talento raro em sua plenitude pela última vez.

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