Um caso de racismo expôs os graves problemas da Football Association (FA), a Federação Inglesa de Futebol, algo que não deveria surpreendente ninguém. O que chama a atenção é como um caso como esse é tratado no Reino unido, a ponto de dirigentes terem que se explicar diante do Parlamento, com o rabo entre as pernas. Ainda mais se pensarmos em como a CBF age por aqui, de forma cínica e impunemente.

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A Football Association se envolveu em um caso grave de racismo, que teve como vítimas a atacante Eni Aluko e a meio-campista Drew Spence, ambas do Chelsea, que faziam parte da seleção inglesa. As duas receberam tratamento racista de Mark Sampson, então técnico das Lionesses (apelido da seleção inglesa feminina). Nós contamos sobre esse caso aqui, em agosto.

No Brasil, a CBF se intitula uma instituição privada e praticamente dá de ombros a qualquer cobrança que venha de fora – seja do governo, seja do público. No Reino Unido, as coisas não são assim. O Parlamento fez uma audiência para ouvir as jogadoras e os dirigentes da FA. Por quê? Porque a FA, por mais que seja uma entidade provada, representa um símbolo nacional e, portanto, é um assunto de interesse nacional.

O caso de racismo se tornou um debate nacional que culminou na demissão de Mark Sampson. Depois de ser inocentado por uma investigação interna, duas vezes, mesmo com evidências que ele cometeu atos racistas, o caso acabou explodindo na cara da FA. As revelações de agosto levaram à demissão do treinador em setembro.

Foram instauradas novas investigações sobre o caso, desta vez no Parlamento, o que culminou na audiência para ouvir os envolvidos. As jogadoras Aniola Aluko e Lianne Sanderson foram ouvidas, além do presidente da FA, Greg Clarke, o executivo chefe da entidade, Martin Glenn, o diretor técnico Dan Ashworth, e a diretora de recursos humanos, Rachel Brace.

Foram 240 minutos de audiência, que levaram a mais revelações absurdas. Uma delas, por exemplo, é que foi contratado um ator negro para mostrar mau comportamento em um exercício para ensinar às jogadoras os “padrões Lionesses”. Este foi só um dos episódios e você lê mais no nosso relato sobre o caso, de agosto.

“Vergonhoso”

O advogado independente que ficou responsável pelo caso decidiu, na audiência no Parlamento, que Sampson fez comentários inaceitáveis a Eniola Aluko e Drew Spence. A FA foi descrita como “vergonhosa” na audiência no Parlamento. A FA se desculpou com Aluko e Spence e disse que “não era aceitável” que elas ficaram sujeitas a comentários discriminatórios de funcionários da FA.

A repercussão tão negativa do caso fez o presidente da FA, Greg Clark, reconhecer os erros em discurso no Conselho da FA. “Nós falhamos. O que as últimas semanas expuseram é como estamos fora do passo”, afirmou o dirigente.

Clark, aliás, foi repreendido por usar a palavra “fluff” (uma palavra que quer dizer algo como “uma bobagem desnecessária”, algo falso, inventado) quando a FA foi acusada de cometer racismo institucional. Na audiência no Parlamento, o dirigente foi repreendido por usar essa palavra. “O fato de você descrever isso como ‘fluff’ diz muito”, afirmou a deputada Julie Elliott. “A linguagem é importante”.

O dirigente pediu desculpas no Parlamento e voltou a fazer isso diante do Conselho da FA. “Foi uma palavra terrível a se usar e me arrependo profundamente por isso”, afirmou Clarke. O dirigente ainda disse que a FA irá conduzir uma “revisão cultural completa, de cima a baixo”. E mais do que isso: admitiu que a entidade precisa melhorar muito.

“Mesmo quando nossos esforços e atitudes são bem intencionados, nós ficamos aquém do esperado”, afirmou Clarke. “Deixe-me ser claro por que isso é um problema. Perdemos a confiança do público, a confiança da comunidade participante do futebol, e a confiança dos parceiros nacional e internacionais, precisamos fazer o nosso trabalho”, analisou.

“Esta não é uma afirmação minha, as provas estão lá. Nosso próprio acompanhamento mostra que apenas 27% dos torcedores de futebol acham que somos competentes e menos ainda, 24%, têm uma percepção positiva da FA”, continuou Clarke. “Nós precisamos dessa confiança, é a base de tudo que devemos ser”.

“Revisão cultural completa”

Clarke falou sobre a sua própria experiência na audiência no Parlamento como “uma experiência pessoa e o ponto culminante de um episódio muito prejudicial para a organização”. Bom, não por acaso a FA foi descrita como vergonhosa na sua forma de lidar com isso.

“Nós iremos conduzir uma revisão cultural completa, de cima a baixo, com o foco em melhorar a inclusão e o nosso cuidado coletivo com os jogadores. O desempenho e uma cultura positiva não devem ser colocado como um falso dilema de um ou outro”, afirmou Clarke.

Para o dirigente, a FA tem dois desafios simples:

– Como fazer a organização mais simples e mais clara no que faz?

– Como a FA pode refletir melhor a sociedade que ela serve, abraçando não só a inclusão, mas também o envolvimento de jogadores e técnicos?

“Isso não será uma grande comissão”, disse Clarke. “Isso será a FA fazendo o que falhou em fazer no passado e colocar a sua própria casa em ordem, se questionar algumas perguntas fundamentais para garantir que pode ser a melhor organização que pode ser e começar a resgatar essa confiança perdida”, explicou.

Dirigentes que acobertaram o caso seguem nos cargos

É ótimo que a FA tome medidas para melhorar a sua cultura interna, revise seus procedimentos e busque encontrar os processos discriminatórios para extingui-los. Porém, talvez isso precise começar com uma mudança nos nomes. É o que acha o Lorde Herman Ouseley, presidente do grupo antirracismo Kick It Out.

O executivo chefe da FA, Martin Glenn, o diretor técnico Dan Ashworth e a diretora de recursos humanos, Rachel Brace, deram seus depoimentos na audiência no Parlamento sobre o caso, mas continuaram nos seus cargos. “É inconcebível que as pessoas que derrubaram a primeira investigação ainda estejam em seus cargos depois da exposição vergonhosa da liderança da FA”, afirmou Ouseley.

“A FA deve refletir no dilema que agora ela enfrenta como resultado da vergonhosa exposição da sua liderança, competência e tratamento discriminatório a negros e pessoas de minorias étnicas. Não será fácil reconstruir a confiança depois das tramoias da semana passada”, disse ainda Ouseley.

O presidente da Kick It Out ainda foi além. Disse que a FA tratou Aluko como uma “não entidade” e que a representação dos jogadores em campo “é a única área no qual o futebol inglês parece tratar negros e minorias étnicas de forma justa”.

Se a FA pode ser cobrada, por que a CBF não?

O que mais impressiona não é a FA meter os pés pelas mãos e, infelizmente, nem o racismo institucional que o caso acabou mostrando. Oque mais impressiona, para quem é acostumado com uma entidade como a CBF, é que a FA é cobrada por isso, publicamente e oficialmente. Não importa que é uma entidade privada; é uma entidade privada que usa a bandeira e os símbolos nacionais e, portanto, é de interesse público.

No Brasil, se tentou fazer com que a CBF respondesse dessa forma também. Embora entidade privada, ela tem como objeto algo de interesse público, o futebol, e usa os símbolos nacionais para isso. Uma reportagem da alemã Deutsche Welle, assinada por Marina Estarque, trata desse assunto.

“Há um consenso entre os especialistas de que o futebol deve ser encarado como uma questão de interesse público, e a CBF, como uma associação privada que não está inserida num mercado convencional, já que não tem concorrentes”, diz a reportagem da DW.

A Medida Provisória 671,a chamada “MP do Futebol”, foi sancionada em 2015, depois convertida na Lei 13.155, a chamada Lei do Profut. Os dirigentes, claro, trabalharam contra essa lei, que tem muitas contrapartidas. Vários artigos já foram vetados, por atuação política da bancada da bola, os deputados que trabalham pelos interesses da CBF, que não quer ser cobrada por ninguém.

Com tudo isso, o que podemos ver é que a FA é uma entidade cheia de problemas e com dirigentes muito questionáveis, em vários aspectos, mas que precisa prestar muito mais contas à sociedade. Um caso de racismo derrubou o técnico da seleção e colocou os dirigentes em cheque, como tem que ser.

Por aqui, o presidente é indiciado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por diversos crimes, é investigado pelo FBI e não sai do Brasil porque sabe que fora do território nacional pode ser preso e levado a responder à justiça nos Estados Unidos, assim como seu antecessor, José Maria Marin.

A pergunta que fica é: por que a justiça brasileira não fiscaliza tão firmemente a CBF e as entidades esportivas em geral? Com todos os problemas no Reino Unido, esse episódio mostra que há muito a ser feito por aqui para chegar ao nível de lá de fiscalização.


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