Em “O Campo dos Sonhos”, filme de 1986, Kevin Costner vive o papel de Ray Kinsella, um modesto fazendeiro do Iowa que, um dia, sozinho em seu milharal, escuta uma voz misteriosa dizendo a ele que, “se construir, ele virá”. Inicialmente, não entende patavinas. A mensagem é captada depois, quando Ray tem uma visão de um campo de beisebol iluminado e relembra histórias que seu pai contava, sobre grandes jogadores do passado. Entre eles, Shoeless Joe Jackson, considerado um dos melhores atletas da modalidade, mas banido do esporte ao se meter em um escândalo, no qual alguns jogadores do Chicago White Sox foram acusados de aceitar suborno para entregar uma partida.

Na vida real, era mais provável que o fazendeiro se entupisse de antidepressivos, antiansiolíticos e afins. Se bem que, como o filme se passava há algumas décadas, talvez o rapaz acabasse mesmo era sendo tratado com terríveis eletrochoques. Na ficção, felizmente, Ray se entrega à loucura e constrói o tal campo. Jackson não só se materializa no bendito, como ainda pergunta se pode trazer uns amigos para jogar com ele. Só a nata. O sonho era fantástico, mas a realidade cobrou o seu preço. Sem a sua plantação, Ray não tinha como quitar a hipoteca da fazenda. E o resto, você vai ficar sabendo quando assistir o filme. Não adianta chiar, que eu não vou contar (até porque não lembro, preciso rever o filme, que conheci há mais de 20 anos).

Bastante improvável que algum dirigente do Grêmio tenha passado por algo parecido. Até porque no futebol brasileiro, todos parecem sonhar apenas com Montillo, Montillo e Montillo. O sonho de erguer um novo estádio para o clube era algo puramente racional. E assim foi conduzido. Talvez por não envolver grandes delírios, a novíssima Arena do Grêmio subiu rapidamente e sem maiores sobressaltos, tornando-se um tapa na cara da organização da Copa de 2014. O belo cenário foi inaugurado no último sábado, com direito a gol de André Lima, que, se não é craque como foi Shoeless Joe Jackson, pelo menos nunca foi acusado de nada ilícito. Antes da partida contra o Hamburg, rolou também uma linda festa, para colorado nenhum botar defeito (mentira).

Nova casa, velhos problemas

Mandar seus jogos em uma casa moderna, que ainda se encontra tinindo, trará grandes oportunidades ao Grêmio. Quem frequentava o Olímpico, por mais que tenha saudades da antiga morada, não vai querer ficar de fora desta nova fase. E quem não costumava marcar presença, ganha uma série de motivos para passar a fazê-lo. Mais conforto e opções de entretenimento, para começo de conversa. Mas principalmente, o sabor da novidade. Em maior ou menor escala, todos sonham com um recomeço. Especialmente, quando esse recomeço vem acompanhado das pessoas amadas. Ou do clube amado, no caso.

Para que a prenda não perca o viço antes do tempo, é preciso cuidar direito da guria. A Arena é linda, mas ainda há muito a se fazer nos arredores dela. Aliás, esse é um problema que boa parte da nova geração de estádios brasileiros terá de enfrentar. Para que uma nova praça esportiva obtenha sucesso, é preciso varrer o retrocesso que desgastou a imagem das antigas. O torcedor terá conforto para chegar até elas, ou ganhará dores de cabeça? A questão dos cambistas vai ser controlada? Os frequentadores das novas arenas estão preparados para tratá-las com a devida civilidade? Contribuirão para manter os banheiros limpos? Cuidarão com zelo das poltronas que aposentaram o concreto quente?

Na inauguração da Arena, já vimos algumas cenas preocupantes. Em um jogo de uma torcida só, no qual todos só deveriam pensar em celebração, despontaram algumas brigas na nova geral. A tendência é que nossos clubes tirem o corpo fora quando o assunto é violência nos estádios. De fato, uma sociedade doente serve como incentivo à barbárie de sujeitos, que, por preferirem porrada a futebol, estão mais para criminosos do que torcedores. Mas já passou da hora das entidades esportivas tomarem a frente nesse desafio. Educar os seus seguidores (e colocá-los de castigo quando necessário) é também uma responsabilidade de cada clube. Se o poder público não se mexe, que os dirigentes levem Maomé e a montanha à porta das autoridades para cobrar uma reação.

E vem mais por aí

A Arena do Grêmio é apenas o primeiro de uma série de novos campos dos sonhos que serão entregues aos torcedores brasileiros, daqui até a Copa de 2014. Atlético e Cruzeiro voltarão a um Mineirão reformado, assim como Flamengo e Fluminense matarão as saudades do Maracanã, por mais que ele esteja tão repaginado, que talvez nem seja reconhecido pelos mais teimosos. Ceará e Fortaleza voltarão a duelar no Castelão, agora digno de conto de fadas. E a Fonte Nova, fazendo jus ao nome, tornará a ouvir os gritos de “Bora, Baêa, minha porra!” ecoando. O Internacional, que anda jogando nas ruínas do Beira-Rio, empatará o Gre-Nal das arenas, como brincou a sua própria diretoria. O torcedor do Atlético-PR verá, enfim, sua arena completa.

O corintiano ouvirá um monte sobre o seu tão sonhado e polêmico estádio, mas abraçará Itaquera para provar que merecia a imensa ajuda que teve para ganhar, enfim, o tão sonhado lar. Tentará sufocar a gritaria dos rivais (e aterrar os buracos nas contas públicas) com os cantos de sua fiel torcida. Enquanto isso, o seu rival palmeirense usará o novo Palestra Itália como impulso para superar um dos piores momentos de sua história. Impacto grande também sofrerá o torcedor do Náutico, que trocará o acanhado, mas bem localizado estádio dos Aflitos, por aquela arena futurista, que ele nem sabia que viraria sua casa quando começou a sair do papel.

Com reformas caprichadas, ou mesmo novos estádios brotando do nada, é seguro dizer que outros clubes seguirão os mesmos passos, até como forma de não ficar para trás. Resta saber se esses tantos novos cenários marcarão também um reinício no futebol brasileiro, ou entrarão para a história como símbolos cruéis, que passarão na nossa cara como deixamos o bonde da história passar, mais uma vez. Se construirmos, ele virá. Ele, o sucesso. Se não soubermos alimentá-lo e acarinhá-lo, ele fugirá mais rápido que a bola de um home run. Virará fumaça na mesma velocidade em que se materializou o sonho de um certo Ray Kinsella. Não há hipoteca mais cruel que aquela cobrada pelo arrependimento.