Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, começando pela Kick and Rush, com informações e análises sobre o futebol inglês. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

O Liverpool estava a duas vitórias de ser campeão inglês pela primeira vez em 30 anos quando a Premier League foi devidamente paralisada pela pandemia de coronavírus que matou mais de 40 mil pessoas ao redor do mundo. Uma medida necessária e, no caso da Inglaterra, tardia.

Não se sabe quando o Campeonato Inglês será retomado, nem como, com portões fechados ou abertos, e nem se ele será mesmo retomado. E se não for retomado, também não se sabe se o Liverpool será declarado campeão, se a tabela do momento da paralisação será usada pra vagas europeias ou se a temporada será completamente anulada, como fez a Federação Inglesa com a sétima divisão para baixo.

A situação na Inglaterra é singular. Parece estranho consagrar um campeão por pontos corridos antes que todo mundo tenha a chance de enfrentar todo mundo dentro e fora de casa. Seria injusto fazer isso com o Bayern de Munique, apenas quatro pontos à frente do segundo colocado na Bundesliga, ou com o Barcelona, com dois pontos de vantagem para o Real Madrid na Espanha, ou com a Juventus, apenas um ponto a mais que a Lazio na Serie A.

Mas e no caso do Liverpool, em que a diferença para o segundo colocado é de 25 pontos, com apenas 30 em disputa para o Manchester City? A imprensa inglesa já o tratava campeão-eleito – emprestando a nomenclatura da política quando um presidente venceu a eleição, mas tomará posse em alguns meses, para diferenciá-lo do presidente que ainda está no poder.

E mantendo a comparação com a política, o principal adversário do Liverpool, o Manchester City, havia extra-oficialmente concedido a derrota quando perdeu para o Tottenham, por 2 a 0, e a diferença estava em 22 pontos. “Eles estão muito longe. Não é possível pará-los. Eles têm muitos pontos. Nosso objetivo é vencer as competições restantes e nos classificarmos para a próxima Champions League”, disse o treinador Pep Guardiola, no começo de fevereiro.

Segundo reportagem da The Athletic, tem crescido entre os executivos dos clubes da Premier League a ideia de cancelar esta temporada e começar tudo do zero novamente a partir de setembro, “independentemente das consequências”. Um dos dirigentes entrevistados pela matéria diz que haveria “poucos perdedores, o Liverpool, eu sei, mas em uma visão mais ampla, honestamente, não importa. Você tem que começar de novo”.

É uma mudança de postura em relação à inicial, em que majoritariamente os clubes desejavam completar a temporada de qualquer maneira para evitar o risco de ter que devolver mais de £ 750 milhões em direitos de televisão por não terem entregado o campeonato que prometeram. Agora, de acordo com o The Athletic, muitos sentem que é imoral falar sobre a tabela da Premier League enquanto pessoas morrem e são hospitalizadas por causa da COVID-19.

O sentimento é correto, mas a discussão sobre conceder ou não o título ao Liverpool tem sido um assunto recorrente na imprensa inglesa, e vamos tentar trazer neste texto advogados dos dois lados da questão.

Começando pelo povo. Uma pesquisa da YouGov constatou que 68% dos torcedores de futebol entrevistados acreditam que o Liverpool deveria ser declarado campeão versus 24% que são contra. O meia Gündogan, do Manchester City, concorda: “Para mim, isso seria ok, sim. Você, como atleta, tem que ser justo”.

Um dos executivos que levantou as dificuldades de terminar a temporada foi Paul Barber, CEO do Brighton, e ele acredita que, em caso de cancelamento, o título tem que ser dado aos Reds. “No momento, é realmente muito difícil imaginar a organização de jogos da Premier League em duas ou três semanas. É difícil imaginar dado o cenário em que estamos. Se congelássemos a liga, para mim seria incrivelmente injusto não dar o título ao Liverpool porque todo mundo no esporte aprecia a fantástica temporada que eles tiveram”, disse, ponderando também que seria “incrivelmente injusto” com os times que seriam rebaixados ainda com jogos pendentes e com West Brom e Leeds, que atualmente ocupam as duas vagas diretas de acesso na segunda divisão.

Essa visão foi compartilhada pela vice-presidente do West Ham, Karren Brady, uma das primeiras a iniciar essa discussão e que, desde então, passou por uma fenomenal mudança de opinião. Sua primeira posição, em uma coluna para o The Sun, foi que a temporada deveria ser considerada “nula”, o que seria “um grande golpe ao Liverpool, que pode ver roubado seu primeiro título em 30 anos”.

Esses comentários causaram alguma ira naquele momento porque pareciam convenientemente favorecer o West Ham, perto da zona de rebaixamento no momento da parada. Pouco depois, Brady recuou, tuitando que o Liverpool “merece vencer o título”, mas que se os jogos restantes não puderem ser disputados “seria justo e razoável que a temporada fosse declarada nula”.

Agora, ela tem um terceiro argumento: o título é do Liverpool, mas a Premier League ainda precisa ser decidida, assim como as divisões inferiores, a Copa da Inglaterra e as competições continentais e que o principal ponto de discussão na próxima reunião do Campeonato Inglês é quando os jogos podem recomeçar.

Para Wayne Rooney que, como cria da base do Everton e lenda do Manchester United, teria dois motivos para que a temporada fosse cancelada sem o Liverpool campeão, mas escreveu em sua coluna no Sunday Times que o time de Jürgen Klopp merece o título e que a atual Premier League deveria ser finalizada de qualquer maneira, nem que os jogos invadam a temporada seguinte.

“Eu tenho torcedores do Everton me ligando e dizendo ‘a temporada tem que ser cancelada’. E, claro, como um evertoniano e alguém que jogou 13 anos pelo Manchester United, há uma parte de mim que acha que isso seria bom”, disse. “Mas não. O Liverpool foi fantástico. Trabalharam tanto para isso. Merecem o título. Imagina esperar 30 anos e o ter tirado deste jeito?”.

Alan Shearer, uma das figuras mais importantes da história da Premier League, acredita que não terminar a temporada tem que ser a última opção, mas, caso isso aconteça, não seria justo ter “vencedores e perdedores”. “Por mais duro e horrível que isso seria para alguns clubes, para nenhum mais do que o Liverpool, é o único resultado. Se você não puder completar o calendário, não pode sair dando títulos ou considerando o rebaixamento de ninguém”, disse.

“Não consigo ver como seria justo lhes dar o título, apesar do fato de que é óbvio que ninguém conseguiria alcança-los. Eles precisam de apenas seis pontos para assegurar o troféu, mas ainda não o conseguiram, então, por isso, a temporada tem que ser declarada nula. Seria diferente se a temporada fosse suspensa depois de eles conseguirem os pontos. Mas não os conseguiram, então, por mais horrível que seja o cenário, seria a única opção”, completou.

Jamie Carragher afirmou que se a temporada fosse cancelada haveria inúmeras perguntas sem respostas e, apesar de ser um histórico jogador do Liverpool, não sente que seria correto entregar o título ao clube que defendeu toda sua carreira.

“Acho que seria uma bagunça”, disse. “Não estou dizendo que o Liverpool deveria ser declarado campeão. Para mim, se a liga não continuar, algo não parece certo. Sabemos que o Liverpool vencerá  liga, mas, se ela parecer, não parece certo. Sempre haveria algo ali que não pareceria certo sobre isso. O Liverpool não e’a coisa mais importante. São os times que receberão grandes quantidades de dinheiro em diferentes divisões. Como você afeta a próxima temporada da Champions League? Esta temporada tem que terminar porque tem impacto nas vagas europeias da próxima temporada”.

A temporada da Premier League está oficialmente suspensa até 30 de abril, mas ainda não há no horizonte uma data certa para a retomada dos jogos ou para a decisão de cancelar a temporada. Enquanto isso, torcedores, jogadores e técnicos do Liverpool aguardam para descobrir se a temporada fantástica que colocaram em campo valerá para alguma coisa.