O pesadelo do Calciopoli parece ter chegado ao fim. Ao menos para a Internazionale, Milan e Livorno, que tiveram participação muito mais pesada do que apurado na época e tiveram punições mais brandas do que a Juventus. Aliás, a Inter sequer foi punida, ao contrário, acabou recebendo o título que, em campo, foi conquistado pela Juventus – que perdeu pontos e foi rebaixada.

A decisão tomada nesta segunda-feira pelo comitê executivo da Federazionale Italiana Gioco Calcio (FIGC) manteve a Internazionale como campeã daquela temporada. Na época, a decisão foi tomada com atropelo – era preciso dar uma resposta rápida ao escândalo, enquanto a Azzurra disputava a Copa do Mundo da Alemanha, que acabaria campeã. E essa pressa por uma resolução mostrou que as decisões tomadas acabaram sendo duras com a Juventus, mas excessivamente brandas aos demais envolvidos. E que a Inter passou em brancas nuvens.

De acordo com a FIGC, através do seu presidente Giancarlo Abate, não havia o que fazer. A FICG consultou seu corpo jurídico para tomar a decisão e o parecer foi que o título não podia ser tirado da Inter. Não havia uma forma legal de tirar o título da Inter porque a decisão foi tomada pela justiça esportiva e que o comitê não poderia passar por cima dessas regras. A decisão, claro, não agradou à Juventus, que já dizia, antes mesmo do anúncio do resultado, que buscaria, na justiça comum e internacional, que o título fosse tirado da Inter. O clube estuda inclusive uma representação no Comitê Olímpico Nacional Italiano, o CONI.

A decisão foi tomada de forma clara. Dos 23 votantes, apenas um foi a favor da Inter perder o título. Abate disse que esperava que a Inter renunciasse à prescrição do prazo, que é de cinco anos. É por isso que as violações da Inter, do Milan e do Livorno, que seriam tão ou mais graves do que as da Juventus, não puderam ser devidamente punidas disciplinarmente: prescreveram. E para sorte da Inter.

A decisão era esperada, dada às informações que chegaram ao comitê executivo da FIGC. Tanto que já até tinha sido comemorada pelos interistas, com o presidente Massimo Moratti dizendo que estava feliz com a decisão. Moratti e a Inter mostraram-se ofendidos com as acusações de Stefano Palazzi, procurador da FIGC, que Giacinto Facchetti teria tido conversas que caracterizariam, de forma clara, uma tentativa de manipulação de resultados, passível de punição grave. Faccheti sempre foi visto como um homem íntegro e as acusações maculariam essa reputação.

Isso porque a Inter, segundo Palazzi, tomou ações infringiram o artigo 6, que fala sobre manipulação de resultados. A Juventus, a maior punida do Calciopoli, foi condenada por violar o artigo 1, que fala em tentativa de manipulação de resultados. As gravações mostram que Facchetti tinha conversas que insinuavam acertos sobre arbitragem. Um deles, transcrito pelo Quattro Tratti aqui, é de 9 de janeiro de 2005, antes do jogo da Inter com a Sampdoria. Facchetti fala com Paolo Bergamo, um dos responsáveis pela arbitragem:

Facchetti: Pronto, Paolo, quem fala é Facchetti.
Bergamo: Bom dia, Giacinto.
Facchetti: Estou indo ao estádio e disse aos meus para ter um certo tato com Bertini, [o árbitro] uma certa disponibilidade. Falei com os jogadores, com [Roberto] Mancini e com os outros.
Bergamo: Vai ser um belo jogo, você verá.
Facchetti: Tudo bem.
Bergamo: Ele [Bertini] vem predisposto a fazer um bom jogo.
Facchetti: Sim, sim, tudo bem.
Bergamo: Verá que vamos vencer este desafio juntos.
Facchetti: Só queria lhe dizer que eu fiz [instruir os jogadores quanto ao comportamento].
Bergamo: Você verá que as coisas vão ser feitas da forma certa. E, depois, a equipe está recomeçando a ter confiança, a fazer resultados, isto dá moral.

O diálogo deixa claro que a Inter, no mínimo, fez o mesmo que a Juventus ao tentar influenciar os responsáveis pela arbitragem. E deixa aberta a possibilidade de algo ainda mais grave. E, assim, a Inter deveria sofrer a mesma punição, o que não é possível porque o crime prescreveu. Perder o título, então, seria uma consequência natural, já que não há a quem designar o título de forma justa.

Andrea Agnelli, presidente da Juventus, mostrou indignação com a decisão. E prometeu continuar a busca por um resultado que considera mais justo para a questão em outras esferas da justiça. O dirigente declarou que “está em jogo a credibilidade do sistema”, no que considera ser uma clara disparidade de tratamento. Abate rebateu dizendo que não concorda com a decisão da Juventus de ir à justiça comum, mas que entende os motivos. E completou: “a credibilidade do sistema está em cumprir as regras”.

Os dirigentes da Inter tentaram manter o episódio como uma mensagem de que eram limpos, ao contrário dos rivais da Juventus, Milan, Fiorentina, Lazio e os demais envolvidos. O desenrolar dos fatos mostra que essa não é bem a verdade. O envolvimento da Inter parece evidente, ao contrário das razões que levaram o clube a ser ignorado nas investigações de 2006.

A Inter se beneficiou muito do episódio, que não só rebaixou a Juventus, principal força da Serie A na época, como fez outros rivais perderem pontos para o campeonato seguinte. Comprou jogadores da Juventus, como Patrick Vieira e Zlatan Ibrahimovic, e passou a ocupar o posto que era da Vecchia Signora.

O clube entrou em um domínio nacional, depois de ficar 17 anos sem título – antes de 2006, o scudetto tinha sido nerazzurro pela última vez em 1989 -, mas essa primeira conquista está mais para herança maldita do que para um título redentor da fila. Um título que a defesa da Luciano Moggi mostrou que, no mínimo, não deveria ser atribuído a ninguém, assim como o da temporada 2004/05. Moggi foi banido do futebol pelas gravações que o tornaram o centro do escândalo, que tinha conversas regulares com os comandantes da arbitragem na Itália.

Mais esse desdobramento do Calciopoli pode não ser o fim da história, mas fica claro que o futebol italiano, como um todo, foi quem perdeu mais com esse episódio. Tanto que a Serie A sofreu uma acintosa queda técnica, que resultou na perda de uma de suas quatro vagas para a Liga dos Campeões.

Com isso, o prestígio da liga fica prejudicado e fica mais difícil convencer jovens talentos ou grandes estrelas a preferirem um clube italiano a outro da Espanha, Inglaterra ou mesmo a Alemanha. Além disso, fica uma indelével mancha na credibilidade do futebol italiano, o que prejudica a competitividade do esporte, a capacidade de angariar patrocínios e vender direitos de imagens.

A Inter não tem do que se orgulhar. Ao contrário, deveria ser a primeira a querer um esclarecimento em relação a todos esses acontecimentos. Só que assim como em um outro país de língua latina, os dirigentes (e as pessoas) só reclamam da corrupção quando ela os beneficia. E os nerazzurri terão que ouvir dos rivais, para sempre, que o título de 2005/06 não passe de um scudetto de papel. E terão razão.