A imagem do rosto ensanguentado em plena final da Copa do Mundo seria emblemática a qualquer jogador de futebol. A Bastian Schweinsteiger, o sangue que verteu em sua face também simbolizou a consagração definitiva de um craque. Não foi apenas a ferida, resultado de um choque com Sergio Agüero, que marcou sua atuação na decisão do Maracanã – se recusando a deixar o gramado, mesmo com a substituição já encaminhada após a pancada. Tal qual um Rocky Balboa, a valentia adicionou ares épicos ao melhor em campo naquele 13 de julho de 2014. Dedicação à flor da pele, em meio a uma exibição imponente.

Basti entrou no jogo mais importante de sua vida com uma intensidade impressionante, ainda maior que a sua habitual postura enérgica. Dominou o meio-campo da Alemanha através de sua qualidade técnica e também de quantidades cavalares de garra. Os passes distribuídos com perícia se combinavam às divididas firmes diante dos argentinos. Foi um leão, que resguardou o caminho da Mannschaft ao topo do mundo pela quarta vez. E, consumada a conquista, emocionado, o herói sequer estava disposto a largar a taça. Era um menino vivendo seu sonho, deslumbrado.

Olhando para trás, cinco anos não parecem tão distantes. A história gloriosa de Schweinsteiger dentro do futebol, entretanto, envelheceu rapidamente. É uma pena que o ápice do meio-campista tenha sido suplantado tão logo pela queda – e por motivos que fugiram de seu controle, sobretudo pelas lesões. Em poucas temporadas, Basti não era mais o gigante que se erigiu em Munique e se tornou dourado no Maracanã. Foram mais cinco anos ainda vivenciados nos gramados, sob aplausos maiores ao seu passado do que ao seu presente. Até que, nesta terça-feira, o veterano anunciasse o adeus. Ao final da temporada com o Chicago Fire, o craque de 35 anos confirmou sua aposentadoria. Torna-se apenas gratas lembranças por tudo o que jogou.

“Queridos torcedores, a hora chegou e eu encerrarei minha carreira ao final desta temporada. Gostaria de agradecer a vocês e aos meus clubes – Bayern, Manchester United, Chicago Fire e Seleção Alemã. Vocês fizeram este período inacreditável ser possível para mim. E, logicamente, também gostaria de agradecer à minha esposa Ana Ivanovic e à minha família pelo apoio. Dizer adeus como jogador me faz sentir um pouco nostálgico, mas também estou ansioso pelos empolgantes desafios que me esperam em breve. Permanecerei fiel ao futebol. Muito obrigado pelo tempo que passamos juntos. Sempre terei um lugar para vocês no meu coração”, escreveu o alemão, em tocante mensagem divulgada através de suas redes sociais.

Se a trajetória em alto nível de Schweinsteiger já havia se encerrado antes da despedida, a carta exibe um pouco mais do profissionalismo e do carinho com os torcedores, virtudes que acompanharam o meio-campista nos gramados. Afinal, além de seu talento, Basti conquistou respeito por sua postura com os colegas e por sua consideração às arquibancadas. Na maior parte da carreira, fugiu das controvérsias até mesmo quando tinha motivos para indicar sua insatisfação. Foi, acima de tudo, um cara que ajudou a engrandecer o esporte.

A própria jornada de Schweinsteiger rumo ao topo pareceu seguir um roteiro cinematográfico, de altos e baixos, mas que também alimentaria os devaneios de qualquer menino em busca de seus sonhos. O talentoso garoto nascido na Baviera deu seu primeiro grande passo às vésperas de completar 14 anos, quando assinou com o clube de coração. Virou uma esperança nas categorias de base do Bayern, até ganhar a primeira chance como profissional aos 18 anos. Não emplacou de imediato, mas caminhou firme para construir uma equipe multicampeã, ao lado de outros jogadores icônicos do clube.

Enquanto empilhava as primeiras taças com o Bayern, Schweinsteiger também despontou na seleção. Compartilhou a decepção no fraquíssimo desempenho do país na Euro 2004. Já a primeira Copa do Mundo serviu para transformá-lo em um dos líderes da geração que promoveu a reconstrução da Mannschaft. Aos 21 anos, Basti estreou no torneio se apresentando ao restante do planeta, com duas assistências logo na abertura do Mundial. Tinha ares de uma promessa possante e cheia de energia, que ajudaria a impulsionar uma campanha inesquecível da Alemanha dentro de casa. A caminhada rumo às semifinais não rendeu a taça, mas representou além ao país, que experimentava uma grande união ao redor do Mundial. Diante da jovem equipe que eclodia, a reconquista parecia apenas questão de tempo aos alemães.

O que se indicava ao alcance das mãos, no entanto, não foi imediato a Schweinsteiger. O Bayern de Munique continuava como a principal força da Bundesliga, mas precisou enfrentar suas crises antes de se impulsionar de volta às finais continentais. A própria seleção alemã se via presa na armadilha entre o que parecia possível e o que se tornava realidade. Mesmo após atuações excelentes contra Portugal em 2008 e contra a Argentina em 2010, o craque se viu impotente diante da Espanha – e por duas vezes. Eleito para o time ideal no Mundial da África do Sul, ficou a um triz de conquistar seu maior objetivo.

O próprio Basti precisou se reinventar neste ínterim. Deixou de ser um meia ofensivo para se estabelecer como volante. Com sua técnica refinada e sua firmeza, colocou-se entre os melhores do mundo na nova posição – embora tantas vezes negligenciado nas listas da Bola de Ouro. Além disso, cresceu em personalidade. Antes visto como um jovem festeiro e pouco responsável, assumiu o peso como herdeiro de Michael Ballack no clube e na seleção. Jogava também com a alma e com o coração. Evoluiu. Superou-se.

Mas a fase excepcional de Schweinsteiger ainda não se tornara suficiente para romper suas frustrações nos maiores palcos. Se o ano de 2010 tinha guardado grandes dores, com o vice na Champions League e a terceira colocação na Copa do Mundo, a crueldade foi maior em 2012. Quando o Bayern poderia faturar o título continental dentro da Allianz Arena, deixou a façanha escapar por entre os dedos contra o Chelsea. Diante de sua torcida, no quinto pênalti, Basti carimbou a trave e logo depois viu Didier Drogba garantir o troféu aos Blues. Como se não bastasse, a Alemanha de novo bateria na trave durante a Euro 2012, com a eliminação para a Itália nas semifinais.

Schweinsteiger beijou a lona ao final daquela temporada. Levantaria-se e, nos dois anos seguintes, comemoraria as suas maiores vitórias. “Nós amadurecemos com as derrotas que sofremos. Tivemos muito o que processar e voltamos mais fortes. Crescemos como equipe, as derrotas serviram de base ao sucesso. Vendo em retrospectiva, isso às vezes é a maneira mais saudável de lidar com sua própria personalidade. Foi bom não ter conquistado o título tão cedo. Você se desenvolve, tira suas conclusões, trabalha em busca do sucesso. E, quando acontece, essas experiências são todas mais bonitas. Porque você sabe que investiu em tudo”, concluiu, em entrevista recente concedida à revista Kicker.

A conquista da Champions League em 2012/13 teria a benção de Wembley, após atuações de gala contra o Barcelona nas semifinais. Fantástico na cabeça de área ao lado de Javi Martínez, Basti atravessou os melhores meses de sua carreira e garantiu a Tríplice Coroa ao Bayern. Ganhou o prêmio de melhor jogador em atividade no país naquela temporada, superando até mesmo Franck Ribéry e Arjen Robben. E que as lesões já representassem uma barreira pessoal no início de 2014, o craque se recuperou a tempo de disputar sua terceira Copa do Mundo. O torneio da inquestionável redenção, não só a ele, mas a toda uma geração que merecia tal título.

Justamente por não estar em sua melhor forma física, Schweinsteiger começou como reserva no Mundial de 2014. Retomou a posição durante a primeira fase e passou a atuar como homem mais recuado no meio-campo depois que Philipp Lahm foi deslocado à lateral. Basti não marcou gols ou deu assistências. No entanto, viraria o ponto de equilíbrio da equipe de Joachim Löw em sua arrancada final. Dentro de campo, o maestro oferecia a sua segurança e o seu ritmo ao Nationalelf. Fora dele, demonstrava como os germânicos vieram ao Brasil não apenas para disputar a Copa, mas também para entender o país. Sentiu-se em casa e, leve em sua obrigação, cumpriu tudo aquilo que um dia prometera.

Durante a arrebatadora semifinal contra o Brasil, Schweinsteiger acabaria como coadjuvante. Permaneceu pouco exigido atrás dos tratores pilotados por Toni Kroos e Sami Khedira no meio-campo. Sua tarde estrondosa estaria guardada ao Maracanã, na decisão contra a Argentina. “Eu sabia que era um jogo que você não costuma viver duas vezes. E havia a Argentina do outro lado, no estádio mais famoso do mundo. Tudo isso me motivou. Eu botei isso na minha cabeça ao longo da Copa e o desejo de chegar à final se tornava maior. A história do Maracanã teve um papel importante, foi uma injeção de ânimo adicional para mim. Não senti pressão, mas um grande privilégio. Estava muito feliz no ônibus a caminho do estádio, realmente focado e preparado. E, óbvio, você sente a reação nas ruas. Os brasileiros nos aplaudiam, mesmo depois do 7 a 1. E vimos muitos alemães entusiasmados. Foi único”, relembraria.

Mario Götze anotou o gol decisivo no Maracanã. Porém, ninguém naquele 13 de julho lutaria tanto quanto o camisa 7 da Alemanha. O uniforme branco se tornou parcialmente verde, após Schweinsteiger tentar cobrir cada tufo de grama. Foram mais de 15 quilômetros percorridos durante os 120 minutos, desdobrando-se especialmente quando Christoph Kramer deixou o jogo e o veterano precisou se multiplicar de área a área. Correu, marcou, organizou, se doou por completo. Lesionou-se já na prorrogação e voltou, pouco antes do tento. E depois do apito final, sangue e lágrimas se misturaram em seu rosto, enquanto o dourado da taça reluzia em seus olhos. Basti se isolou durante alguns minutos, para desaguar no choro de quem finalmente alcançava o título tão perseguido. Também se uniu para abraçar companheiros e consolar derrotados. O esperado grito era real e ecoava em pleno Maracanã.

“Eu me lembro bem como tive que sair por causa da lesão na minha face. Quando voltei, senti uma grande determinação de ganhar aquele jogo. De repente, tive a sensação de que era o dia em que finalmente aconteceria. Chegamos perto em 2006, 2008, 2010 e 2012. Mas, no momento em que voltei para o gramado, sabia que aconteceria. Cada jogador fez seu melhor, eu não fico à frente dos outros. Foi o dia em que eu coloquei em campo tudo o que havia dentro de mim. Disse a mim mesmo: se não for hoje, quando será? Às vezes você não sabe qual o seu máximo, até atingir seus limites e ir além. Foi o que aconteceu no Rio. Depois do apito final, fiquei maluco por dentro. Foram emoções puras”, recontou, à Kicker.

Às vésperas de completar 30 anos, Schweinsteiger parecia destinado a um final de carreira mítico. Precisou conviver com o declínio rápido, sem conseguir imprimir seu costumeiro ímpeto na faixa central. A saída do Bayern terminou acelerada por suas seguidas lesões, enquanto desempenhou diferentes funções no meio com Pep Guardiola. A expectativa de um recomeço no Manchester United também acabou frustrada pelos seguidos problemas físicos e pela falta de consideração de José Mourinho – apesar do esforço do astro em busca de uma oportunidade e também do reconhecimento da torcida inglesa. Enquanto isso, seu último ato com a Alemanha aconteceu na Euro 2016, quando uma equipe abaixo de seu rendimento foi além de seus méritos e terminou engolida pela França nas semifinais. Desta vez, a recuperação física durante a competição não foi suficiente e Basti se saiu mal na eliminação.

Desde então, a história de Schweinsteiger pareceu feita de uma lenta e gradual despedida. Em agosto de 2016, o meio-campista ganhou a chance de realizar seu último jogo pela seleção, capitão no amistoso contra a Finlândia no Borussia Park. Outra vez às lágrimas, cumpriu a última de seus 121 aparições pelo Nationalelf. Sua entrega terminou brindada por aplausos da torcida, abraços dos companheiros e um sentimento de gratidão que era amplo. Já em agosto de 2018, surgiu a oportunidade de realizar o devido adeus ao Bayern de Munique. Incluído no Hall da Fama, disputou seus últimos 45 minutos com a camisa bávara na Allianz Arena. Ao lado de velhos amigos, definitivamente eternizou-se como lenda.

E, mesmo abaixo do que poderia se imaginar a um jogador de sua estirpe, o final no Chicago Fire não deixou de ser minimamente digno. A equipe de pretensões modestas não ajudava, mas o veterano continuou sendo um grande líder em campo. Menos exposto a lesões em uma competição de menor intensidade, pôde desfrutar os seus últimos lampejos e aceitar o final. Oitavo colocado na Conferência Leste, seu time não conseguiu a classificação aos playoffs da MLS nesta temporada. Então, aos 35 anos, Basti confirma que a história de seu futebol, a partir de agora, será feita apenas de saudades.

Ao longo de uma década atuando em alto nível, Schweinsteiger alcançou tudo aquilo que um jogador pode pretender. Teve o gosto de defender seu clube de coração, onde se colocou entre os maiores ídolos da história e conquistou principais os títulos possíveis. Também chegou à seleção, disputando três Copas do Mundo e assumindo papel de protagonista no maior dos feitos. E, mesmo com talento e com prestígio, nunca abriu mão do máximo empenho e do respeito pelos demais que constroem o futebol.

O roteiro escrito por Basti é daqueles destinados aos grandes do esporte. Não foi o ocaso que diminuiu a honra do que consolidou. E que honra também foi a de todos os que presenciaram esse filme. Independentemente dos últimos anos antes do desfecho, o final é feliz para sempre.