A liderança da Bundesliga trocou de mãos na rodada deste final de semana. O Bayern de Munique aproveitou o fim da invencibilidade do RB Leipzig para assumir a primeira colocação, um ponto acima dos Touros Vermelhos. Porém, o tropeço da equipe de Julian Nagelsmann dentro da Red Bull Arena (na primeira derrota do clube como mandante em oito meses) também possui um responsável do outro lado. E o Schalke 04 merece os créditos pelo excelente triunfo por 3 a 1. Ainda é difícil dizer se as quatro vitórias consecutivas irão se transformar em uma campanha consistente dos Azuis Reais. De qualquer maneira, a torcida em Gelsenkirchen possui motivos para se empolgar com o início de David Wagner.

A Bundesliga inaugura a temporada com um imenso equilíbrio na parte de cima da tabela. Se o Bayern de Munique lidera com 14 pontos, possui cinco oponentes um ponto atrás. O outrora líder RB Leipzig perdeu um pouco seu embalo nas semanas recentes. Grande surpresa no pelotão, o Freiburg aparece em terceiro. Já o Schalke ocupa a quarta colocação, emparelhado com Borussia Mönchengladbach e Bayer Leverkusen, que igualmente apostaram em treinadores com princípios ofensivos nos últimos meses. Nenhum deles com um resultado tão expressivo quanto o conquistado por David Wagner neste sábado.

O Schalke, afinal, viveu uma gangorra intensa nas temporadas recentes. Domenico Tedesco parecia um acerto e tanto do clube, ao levar os Azuis Reais ao vice-campeonato em 2018. O treinador, então com 32 anos, era uma completa aposta da diretoria após surgir à frente do Erzgebirge Aue e deu resultado de imediato, com uma equipe pautada em sua capacidade defensiva. Porém, entre os jogadores que saíram e a fórmula que se tornou manjada, Tedesco experimentou um segundo ano desastroso. Durou até março no cargo, quando o lendário Huub Stevens (campeão da Copa da Uefa de 1997) reassumiu interinamente e livrou o clube do risco de rebaixamento.

O recomeço do Schalke 04 teria um eleito: David Wagner. O treinador havia sido atacante do time justamente nos tempos de Huub Stevens e fez parte da conquista na Copa da Uefa. Como técnico, ganhou fama ao dirigir o segundo quadro do Borussia Dortmund na época de Jürgen Klopp, até assumir o Huddersfield Town em novembro de 2015. O alemão conseguiu levar o clube à primeira divisão do Campeonato Inglês após um hiato de 46 anos, e praticando um futebol agressivo. Não foi possível manter o mesmo padrão de jogo na Premier League, mas só de evitar o rebaixamento em 2017/18, Wagner já tinha feito muito. Acabou saindo em janeiro, diante dos maus resultados, o que não custava seu moral.

Wagner retornou a Gelsenkirchen para confirmar suas virtudes dos tempos de Dortmund II e Huddersfield. A diretoria pedia que o novo treinador exibisse um futebol mais solto, ao mesmo tempo em que existia uma cobrança para que aproveitasse melhor as categorias de base. “Queríamos uma pessoa positiva, que pudesse levar os torcedores a uma jornada empolgante. Um treinador que incendiasse o estádio, mas que também deixasse claro sua inteligência no futebol. Desejávamos futebol ofensivo, mas com pegada, e transições rápidas”, declarou recentemente o diretor esportivo Jochen Schneider, à Sky Sports. É o que o comandante vem tentando fazer e é exatamente o que anima os torcedores na Veltins Arena.

Apesar do empate contra o Gladbach e da derrota para o Bayern nas duas primeiras rodadas, o Schalke se recuperou com quatro vitórias consecutivas desde então. Manteve uma média de mais de três gols por partida nesta série e seu ataque está entre os mais eficientes da Bundesliga. A vitória sobre o Leipzig referendou a boa sequência. Nota-se uma equipe mais agressiva dentro de campo e com jogadores fisicamente mais preparados. Entre a inventividade com a bola e a solidez sem ela, os resultados enfatizam uma força coletiva.

Não foi uma vitória tão fácil do Schalke na Red Bull Arena, vale dizer. O RB Leipzig mandou uma bola no travessão com Marcel Sabitzer, aos 14 minutos, e o goleiro Alexander Nübel operou duas defesas monumentais logo na sequência. Entretanto, os Azuis Reais responderam pouco depois e contaram com duas bolas paradas para abrir vantagem. Salif Sané anotou o primeiro aos 29, após cobrança de escanteio, e Amine Harit ampliou aos 43, batendo pênalti. Antes do intervalo, uma jogada plástica entre Suat Serdar e Harit mostrava o nível de confiança lá no alto, de um visitante que encarava os anfitriões sem temor.

Já no início do segundo tempo, quando os Touros Vermelhos pressionavam, os oponentes mataram o duelo nos contragolpes. Aos 13, Harit passou para o novato Rabbi Matondo guardar o seu. Apesar do abafa do time de Julian Nagelsmann, o Schalke ficou até mais perto do quarto. O Leipzig só descontou aos 38, num frango de Nübel, que aceitou o chute de longe de Emil Forsberg. Depois do revés, Nagelsmann admitiu como terminou superado pelos visitantes em todos os aspectos. Elogiou principalmente o desempenho individual de Harit.

A vitória sobre o Leipzig é a primeira do Schalke contra um adversário da parte de cima da tabela. Antes disso, o time havia batido Hertha Berlim, Paderborn e Mainz 05. Por isso mesmo, é natural manter um pouco de cautela quanto ao início do trabalho de David Wagner. Ainda assim, o ânimo dos torcedores é evidente por aquilo que se concretiza em campo. Novamente os Azuis Reais exibem um futebol ofensivo e destemido. Além disso, o elenco conta com bons jovens. Da equipe-base, cinco titulares possuem 23 anos ou menos. Já Matondo, que chegara em janeiro da base do Manchester City, assinalou o seu talento.

A mentalidade implementada por David Wagner se torna importante neste momento. O primeiro passo era melhorar os resultados do Schalke como mandante. Na temporada passada, a equipe só conquistou 15 pontos dos 51 disputados dentro da Veltins Arena. Apesar da derrota para o Bayern neste início de campanha, os sinais de melhora são claros. Além do mais, os Azuis Reais haviam vencido apenas dois de seus últimos 27 compromissos contra adversários da parte superior da tabela. Para ser competitivo, é necessário peitar as potências, o que ocorreu no sábado. “É para tardes como esta que a palavra orgulho foi inventada”, declarou Wagner, após o triunfo na Red Bull Arena, elogiando a postura insaciável de seus comandados.

O Schalke também havia sido ferido em seu próprio orgulho. Perder de mão beijada jogadores como Leon Goretzka e Max Meyer escancarava os erros da diretoria na renovação dos contratos. Agora, os Azuis Reais tentam se reerguer a partir de outras duas grandes promessas. Nübel desbancou Ralf Fahrmann e virou o capitão do time, mostrando como o clube confia no prodígio. Já na armação, Harit exibe o seu melhor futebol, após cair de desempenho na temporada passada. Logo depois da Copa do Mundo, o jovem se envolveu em um acidente de carro no qual atropelou um pedestre no Marrocos. Apesar da morte da vítima, o meia foi inocentado e abertamente admitiu como o incidente o abalou. Wagner o ajuda a se recuperar.

É possível que o Schalke mantenha os bons resultados nas próximas semanas. A equipe enfrenta Colônia e Hoffenheim, que não começaram bem o campeonato. Já em 26 de outubro, acontece o compromisso que todos os torcedores esperam: o clássico contra o Borussia Dortmund na Veltins Arena. Será um teste e tanto ao embalo exibidos pelos Azuis Reais. Além do mais, um selo ao trabalho de David Wagner. Se ainda falta muito para o Schalke sonhar novamente com o título, ele merece se estabelecer na parte de cima da tabela. Brigar pelas vagas na Champions é o digno para um clube de sua grandeza. Wagner recobra esta dignidade em forma de bom futebol.