Todos estão mais expostos do que nunca desde a chegada das redes sociais. Um pequeno erro, uma vírgula mal colocada ou um momento de destempero podem ser suficientes para colocar uma pessoa no olho do furacão de críticas e linchamento virtual. Com jogadores de futebol, a situação parece ser mais acentuada. Seu trabalho já era minuciosamente escrutinado antes mesmo de todo mundo ter uma plataforma online para expressar suas frustrações.

Entre as épocas em que todas nossas frustrações com nosso clube ficavam na mesa do bar e a que vivemos agora, em que temos canais diretos para falar com os jogadores ou levantarmos nós mesmos uma discussão, nunca passamos por um período de transição para entender a potência desse novo espaço. Antes mesmo de começar a expressar nossa raiva contra o atacante caneludo ou o goleiro que falha, não tivemos tempo para pensar nossa relação com os jogadores de futebol.

O incidente envolvendo Sidão, do Vasco, no último final de semana, chamou a atenção por diversos fatores: a zoação em si, a falta de bom senso da produção da Globo ao manter a entrega do troféu, a cena da entrega do troféu em si e, mais tarde, a mão na consciência coletiva que se seguiu às imagens grotescas.

Não lembro de outro episódio no futebol brasileiro que levou a uma reflexão coletiva tão grande, mas a impressão é de que ela foi nada mais que um momento passageiro. Afinal, a relação do torcedor de futebol com os atores em campo, os jogadores, está longe de ser saudável.

Torcedor do Santos e bastante vocal nos assuntos que envolvem o clube, Vinícius Cassin aproveitou o rescaldo do episódio com Sidão para relembrar de sua história com Matheus Ribeiro, lateral do time da Baixada. Em thread no Twitter que viralizou, Cassin contou como a primeira passagem sem sucesso do jogador pelo Santos mudou completamente sua relação com os jogadores de futebol.

Matheus Ribeiro havia sido eleito o melhor lateral direito da Série B de 2016 defendendo o Atlético Goianiense, sendo contratado pelo Santos para a temporada seguinte. Mas a diferença entre a expectativa e a realidade foi frustrante para a torcida santista logo nas primeiras partidas. “Ele não conseguia jogar bem de jeito nenhum, e então a torcida embarcou e o xingava direto”, lembra o torcedor em entrevista à Trivela. “Ele entrava em campo, e a torcida o xingava de tudo quanto é nome, não cessava.”

Em janeiro de 2018, surgiu uma proposta de empréstimo do Puebla do México, e a resposta da torcida santista nas redes sociais foi maciça, deixando clara sua felicidade de ver o jogador de partida, até mesmo lhe desejando o mal.

Matheus Ribeiro foi alvo da torcida santista logo após chegar ao clube (Imagem: Divulgação/Instagram)

“Eu comecei a ver esse tipo de atitude da torcida e pensei: não vou desejar o mal para uma pessoa cuja única atitude errada foi não jogar bem, o que prejudica mais ela mesma do que a gente, já que ela é quem está perdendo a oportunidade de sua vida de jogar futebol em um clube grande.” Mesmo do lado mais prático do ponto de vista do torcedor, Cassin defende que não fazia sentido torcer pelo insucesso do jogador, “porque ele tinha contrato com o Santos, então ele ir bem lá podia significar que ele voltasse e conseguisse exibir seu nível ou, na pior das hipóteses, ele seria vendido e geraria dinheiro para o clube”.

Vinícius Cassin admite que por um tempo fez parte dos torcedores que atacavam o jogador online, mas a reação específica à saída para o México o fez repensar a atitude, defendendo-o em meio à chuva de críticas. Foi quando veio a surpresa: Matheus Ribeiro entrou em contato com Cassin para agradecer pelo apoio. “Fiquei até com um pouco de medo que ele fosse me cobrar de alguma coisa que falei.”

O tom da mensagem foi diferente. O lateral o agradeceu pelas palavras naquele momento e passou a se explicar para o torcedor. “Não foi por falta de esforço, sempre tentava, mas às vezes não me sentia preparado. Estou feliz que você está me mandando essa mensagem, me apoiando, lá no México eu vou tentar fazer o dobro de esforço, para conseguir voltar aqui e reescrever minha história.”

“Ele foi totalmente o oposto do que eu tinha sido com ele. Foi um cara generoso, muito gente boa comigo, aquilo lá me tocou, me fez pensar: se eu fiz isso com ele e ele veio falar comigo daquele jeito, não vou ficar fazendo mais com outra pessoa, seja qual jogador for, mesmo se eu o odiar – e é óbvio: a gente é torcedor, então, para mim, havia momentos de raiva, mas eu sempre tentava me policiar”, relembra Vinícius, que ainda perde a cabeça às vezes, mas diz tentar pensar em quem pode estar lendo aquelas mensagens, seja o jogador ou alguém de sua família.

Que Matheus Ribeiro tenha sentido que devesse explicações a Vinícius ou a qualquer outro torcedor já é muito revelador.

Gente como a gente

Para que histórias como as de Sidão e Matheus Ribeiro não voltem a ocorrer, é importante entender por que elas acontecem em primeiro lugar. Envolvemo-nos tanto com o futebol, e ainda assim mantemos uma relação bastante impessoal com os humanos que fazem o espetáculo. Para o Dr. Daniel Mello, psicólogo do esporte e diretor de tecnologias da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e Exercício Físico, isso está ligado à representação social do que é um atleta.

Segundo o especialista, jogadores de futebol são como gladiadores, podendo vencer e serem consagrados ou então mortos em frente a todos. “Quando pensamos nos nossos ídolos, pensamos não em pessoas, mas, sim, em representações, símbolos. É muito difícil um torcedor imaginar um atleta como uma pessoa que tem que ir ao mercado, posto de gasolina e pagar boletos no dia 10. Os atletas representam figuras de sucesso inatingíveis”, explica o psicólogo em entrevista à Trivela.

Quando assistimos a um filme no cinema e damos aquela cornetada no ator principal para o amigo ao lado, aquilo parece apenas natural: um comentário inócuo, cujo alvo nunca irá ouvir. Mas levamos essa mesma dinâmica para as redes sociais, onde o alcance, evidentemente, não encontra barreiras. Para Mello, a expressão no rosto de Sidão ao fim do jogo, vendo o troféu, trouxe todos de volta à realidade. “(Perceber o ser humano por trás do atleta) Pode despertar a empatia de alguns, que se arrependem do fato. Mas vi também torcedores falando que o Sidão ‘deveria aguentar a bronca, pois ganha muito dinheiro para isso’, como se o tamanho do salário fizesse a pessoa menos humana, menos vulnerável a crueldades.”

No fim de sua carreira, Per Mertesacker revelou sofrer com a pressão do esporte (Imagem: Getty Images)

A relação do brasileiro com o espetáculo esportivo, segundo Mello, é de consumo. O torcedor paga, de alguma forma, esses jogadores, com ingressos, camisas, produtos e assistindo a comerciais, e então espera que eles proporcionem um espetáculo. “Se não cumprirem com o acordado, há torcedores que acreditam que esses atletas devem lidar com pressão dentro e fora dos estádios, xingamentos em restaurantes, aviões e redes sociais. Só que, no momento em que esses atletas mostram que são seres humanos que sofrem como todos os outros, alguns conseguem demonstrar empatia com este sofrimento.”

Para o Dr. Daniel Mello, atitudes como a do torcedor santista de repensar seu comportamento na rede são raras. “O problema é que estamos falando de comportamento de massa e internet. Na internet, a sensação de anonimidade é muito grande. Então, enquanto a legislação não acompanhar a evolução tecnológica e responsabilizar as pessoas pelo comportamento online de forma similar a responsabilização pelo comportamento fora do mundo virtual, é bastante difícil que as pessoas se sintam pressionadas a mudar.”

Em março de 2018, uma entrevista reveladora de Per Mertesacker jogou luz sobre o problema de saúde mental no futebol. À revista Der Spiegel, o alemão soube ilustrar bem o tamanho da exigência emocional que vem com o glamour do futebol: vontade de vomitar antes dos jogos, diversas idas ao banheiro em dias de partida. Relembrando o confronto contra a Itália pela semifinal da Copa do Mundo de 2006, o ex-jogador fez um relato no mínimo diferente dos que já vimos no futebol.

“Claro que fiquei decepcionado quando perdemos da Itália, mas, mais do que tudo, eu fiquei aliviado. Eu ainda me lembro como se fosse ontem. Tudo que pensei foi: acabou, acabou, finalmente acabou. Eu fui engolido pela pressão. O constante cenário de horror de cometer um erro que levasse a um gol. Você também tem medo em outros jogos, você está constantemente olhando para o placar e contando os minutos. Mas, na Copa do Mundo, era desumano. Mas eu poderia ter dito isso? Que eu estava feliz por ter sido eliminado?”

É basicamente utópico imaginar uma realidade em que os torcedores tenham sempre em mente o lado humano do jogador. O que resta para o momento, portanto, é oferecer o apoio necessário aos atletas. Para o Dr. Daniel Mello, os clubes brasileiros hoje não oferecem o suficiente.

“A maior parte dos clubes brasileiros não tem trabalho psicológico no profissional. Mesmo os clubes que têm, normalmente, contam apenas com um psicólogo, número insuficiente. Fora do Brasil, há departamentos de psicologia, com psicólogos especializados em áreas diferentes. Um departamento de psicologia pode fazer muito mais pelos jogadores do que uma assistência psicológica pontual, apesar dessa também ser altamente importante”, conta o psicólogo.

A longo prazo, a solução é o diálogo. Cabe aos mediadores (a imprensa especialmente) entender a responsabilidade de sua função, não reproduzir comportamentos emocionais de torcedor e promover a conversa saudável. “A humanização pode levar a um caminho mais interessante, em que os torcedores ainda possam idolatrar e odiar as figuras do espetáculo, porém as vendo como pessoas, e não simples peças em um tabuleiro”, encerra Mello.