Maurizio Sarri sabia que arriscava quando trocou o conforto do comércio de moeda estrangeira no Banco Toscana pela incerteza e insanidade do mundo do futebol. Por mais confiança que tivesse em suas capacidades, sem um passado relevante como jogador para referendá-lo, não podia saber até onde chegaria. Precisou ter paciência para subir, um a um, os degraus da pirâmide do futebol italiano. Neste domingo, finalmente atingiu o topo. Não há mais degrau para galgar. A Juventus venceu a Sampdoria por 2 a 0, conquistou seu nono scudetto e transformou Sarri no treinador do melhor time do país.

É o segundo título conquistado por Sarri nos 30 anos em que percorreu esta magnífica jornada de bancário a campeão italiano. Havia levado a Liga Europa com o Chelsea, mas este é sem dúvida o mais especial. Por ser no seu país, por ter batido na trave com o Napoli. Precisa, porém, ser tratado como um ponto de partida porque, se houve méritos incontestáveis na campanha, houve também problemas que não condizem com a condição de favorita absoluta que a Juventus adquiriu.

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Foi um título conquistado prioritariamente na base de individualidades e pela ausência de um forte concorrente. Três times tentaram perseguir a Juventus e normalmente quando há tantos é porque de fato não houve nenhum. A Internazionale tentou no começo da Serie A, a Lazio chegou bem perto antes da paralisação e a Atalanta no máximo apareceu no retrovisor antes de derrapar durante a retomada.

É inescapável citar a superioridade financeira da Juventus que, depois de ganhar sete vezes seguidas o título, sentiu que não estava difícil o bastante para os adversários e contratou Cristiano Ronaldo. Tem uma folha salarial mais de duas vezes maior que a da Internazionale, segundo clube da Serie A neste quesito, de acordo com a Gazzetta dele Sport. Apenas Ronaldo ganha o equivalente a todo o elenco das seis menores listas de vencimentos.

Alcançá-la na conta bancária exige tempo. Em campo, precisa de uma combinação de um trabalho técnico superior e certos recursos financeiros, como o Napoli de Sarri em 2017/18. Em termos gerais, nesta temporada, a Internazionale teve poder de investimento, mas o trabalho de Antonio Conte, ainda no início, não esteve à altura e, coletivamente, Lazio e Atalanta foram brilhantes, mas faltou recursos.

Sarri foi contratado para mudar o estilo de jogo da Juventus. O nível de desempenho com Massimiliano Allegri foi altíssimo, com duas finais de Champions League, mas era um jogo mais cauteloso e, para alguns, enfadonho. Foi sedutora a atração do futebol com posse de bola, ofensivo e vistoso do seu Napoli, mas isso ainda não foi muito bem assimilado pela Juventus, em parte porque o elenco ainda está no meio do caminho entre uma ideia e outra.

Mas Cristiano Ronaldo foi o monstro que a Juventus esperava que ele fosse. Desde a 14ª rodada, em 1º de dezembro, não fez gol em apenas três das 22 rodadas que disputou. É uma regularidade monumental que compensou a oscilação coletiva do time, ao lado dos coelhos que Dybala tirou da cartola e a solidez de Szczesny debaixo das traves. E ele foi mais exigido do que o normal. A Juventus sofreu 38 gols até agora, ainda com duas rodadas pela frente, sua pior defesa na Serie A desde 2010/11 quando foi sétima colocada.

A confirmação do título foi exemplo disso. Poderia ter vindo contra a Udinese, mas acabou levando a virada. O placar de 2 a 0 contra a Sampdoria, com um pênalti perdido por Ronaldo, pode parecer tranquilo, mas, entre o português fazer o primeiro, completando uma cobrança de falta ensaiada, e Bernardeschi marcar o segundo, o time treinado por Claudio Ranieri ficou muito perto do empate.

Evidências de que esta Juventus ainda é uma obra em andamento, natural para um momento de transição de estilos. Precisará, no entanto, melhorar rapidamente para a disputa da Champions League, que recomeça daqui a dez dias. Ou continuar contando com Cristiano Ronaldo, o que também não é uma aposta ruim de se fazer e funcionou para outros clubes.

 

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