A seis meses da Copa do Mundo, a situação não poderia ser mais preocupante a Artem Dzyuba. Artilheiro do Zenit nas duas temporadas anteriores, o centroavante perdeu espaço com a chegada de Roberto Mancini. Passou a esquentar o banco de Aleksandr Kokorin, Sebastián Driussi e Anton Zabolotny. Titular em apenas sete das primeiras 20 rodadas do Campeonato Russo, o atacante anotou um mísero gol na competição. Sua forma física era publicamente questionada e o rodado jogador passou a demonstrar sua insatisfação através das redes sociais. Então, a pedido do treinador, os celestes o emprestaram. Seguiu ao emergente Arsenal Tula. Neste momento, Dzyuba precisava recuperar o ritmo de jogo em uma equipe de meio de tabela, na esperança de não perder seu espaço na seleção às vésperas do Mundial. Ausente na Copa das Confederações por uma lesão no joelho, também não foi incluído nas listas durante o segundo semestre de 2017 e nem na Data Fifa de março de 2018.

O Arsenal Tula, no entanto, proporcionou o reerguimento de Dzyuba. O atacante começou bem no novo clube, anotando seis gols e oferecendo três assistências em dez partidas pelo Campeonato Russo. Permitiu que os nanicos terminassem na sétima colocação, a um ponto da zona de classificação à Liga Europa. E seu momento mais prazeroso veio em uma partida em particular, a quatro rodadas do final da liga. O Arsenal recebia o Zenit, que tentava não deixar suas chances de título escaparem ainda mais. Por contrato, o centroavante só poderia jogar mediante o pagamento de uma multa. Valor pago, segundo a imprensa local, de seu próprio bolso. Clube e jogador desconversaram, mas as informações de bastidores são de que ele desembolsou o equivalente a metade do montante exigido pelos celestes, cerca de 150 mil euros. Começou aquele duelo como titular.

Logo no primeiro tempo, Dzyuba mostrou que estava com vontade. Deu a assistência para Igor Gorbatenko abrir o placar. O Zenit empatou e, depois do segundo gol do Arsenal Tula, virou aos 37 da etapa complementar. Foi a deixa para que o centroavante se tornasse herói. Aos 43, em uma sobra de bola dentro da área, o camisa 24 decretou o empate por 3 a 3, que praticamente tirou os celestes da corrida pelo título. E a comemoração tinha endereço. Com o dedo na boca, saiu correndo para abraçar seu técnico, mas ficou encarando o banco de reservas do Zenit. Ao passar diante de Mancini, de costas, apontou com os polegares ao seu nome e ao seu número na camisa.

Quase dois meses depois do episódio, Dzyuba é protagonista em São Petersburgo, cidade do Zenit. Desta vez, com a camisa da Rússia, em plena Copa do Mundo – aquela na qual a Itália, atual equipe treinada por Mancini, não está. O centroavante foi um dos melhores em campo na vitória por 3 a 1 sobre o Egito. Doce vingança, na qual marcou um belo gol e ajudou os anfitriões a praticamente confirmarem a classificação às oitavas de final do Mundial. O semestre não poderia ser mais transformador ao jogador de 29 anos.

Além da recuperação no Arsenal Tula, Dzyuba contou com a infelicidade de um companheiro para ganhar a convocação. Em março, Kokorin rompeu os ligamentos em uma partida pelo Zenit e perderia o Mundial, abrindo uma lacuna no ataque. O técnico Stanislav Cherchesov, que vinha testando Zabolotny desde 2017, deu mais uma chance ao centroavante na Data Fifa de março. No entanto, quando realizou a convocação final, quem aparecia era mesmo Dzyuba. Sua capacidade no jogo aéreo e a rodagem com a equipe nacional, presente na Euro 2016, acabaram o colocando um passo à frente. De qualquer maneira, o camisa 22 deveria ser figurante, reserva de Fyodor Smolov.

Dono da camisa 10 e destaque no período preparatório, Smolov começou a Copa com a pecha de protagonista da Rússia. Decepcionou. O centroavante fez uma partida muito fraca contra a Arábia Saudita, enfeitando demais as jogadas, errando quase sempre. Aos 25 do segundo tempo, foi para o banco. E os 25 minutos restantes bastaram para que Dzyuba subisse mais um patamar. Anotou o terceiro gol nos 5 a 0, em cabeçada fácil, e deu o passe para que Denis Cheryshev brilhasse com sua trivela. Saiu-se tão bem que Cherchesov preferiu promovê-lo ao 11 inicial contra o Egito, um time frágil no jogo aéreo. Em São Petersburgo, Dzyuba resolveu.

A Rússia dependeu bastante de Dzyuba no Estádio Krestovsky. O time apostava bastante nas bolas longas em direção ao centroavante, referência do alto de seu 1,96 m. O camisa 22 primava pela maneira como conseguia ganhar o jogo aéreo, mesmo contra os também grandalhões da zaga egípcia. Fazia o pivô, abria o espaço aos companheiros, ganhava tempo a quem chegava de trás. Apesar do primeiro tempo morno, já tinha feito a diferença. E faria ainda mais no início do segundo. Participou nos dois primeiros tentos, seja se envolvendo na disputa do primeiro, contra, ou ajudando a construir o segundo, também ao puxar a marcação dupla para que Cheryshev aparecesse livre. Por fim, no terceiro, concentrou os holofotes. O lançamento longo de Ilya Kutepov veio para o matador dominar no peito, girar, tirar a bola do zagueiro na marra e bater no canto do goleiro. Seu segundo gol no Mundial.

A dez minutos do fim, Cherchesov preferiu tirar Dzyuba. Mandou a campo Smolov, de maior mobilidade para aproveitar os contragolpes. A torcida do Zenit, que se acostumou a aplaudir o centroavante nas temporadas anteriores, voltou a exaltá-lo. Os celestes o receberão novamente na próxima temporada, sem mais a presença de Mancini? Não se sabe, com o contrato a 11 dias do fim. Certo é que, neste momento, o Arsenal Tula parece pequeno demais ao artilheiro. A Copa do Mundo abre portas, mas só àqueles que fazem acontecer.