A última vaga na Libertadores via Campeonato Brasileiro teve a sua definição de forma arrastada, melancólica, mas que acabou com a classificação do São Paulo. A comemoração dos jogadores em campo foi tímida, quase constrangida. Não por acaso. O futebol que o time apresentou na vitória por 1 a 0 sobre o Goiás, que, aliás, veio só nos acréscimos, foi terrível. Mesmo assim, em um ano conturbado politicamente, com um presidente que renunciou ao cargo acusado de irregularidades, o São Paulo vai à competição continental, terminando em quarto lugar. A comemoração tem mesmo que ser contida. O clube, como instituição, e o time, em campo, têm muito a melhorar se quiserem fazer um papelão em 2016.

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Neste domingo, o time não teve Alexandre Pato, no banco, por opção do técnico interino Milton Cruz. Carlinhos começou no meio-campo, ao lado de Hudson. Ganso, Michel Bastos e Thiago Mendes ficaram mais à frente, municiando Alan Kardec. Ou, ao menos, assim deveria ser. O time teve uma chance de gol no primeiro tempo, em uma boa tabela de Thiago Mendes e Kardec.

Goiás e São Paulo fizeram um jogo que parecia mais de dois times rebaixados e que já não brigavam por nada. Mas o Goiás ainda tinha esperança de escapar do rebaixamento com uma vitória e o São Paulo precisava vencer, ou ao menos empatar, para garantir a vaga na Copa Libertadores. O Goiás entrou no modo desespero no segundo tempo, mas à medida que saíam os gols que o rebaixavam – de Figueirense e Avaí -, o time pareceu perder ainda mais a motivação. No final, ainda foi para cima para tentar uma vitória que serviria apenas para o orgulho dos jogadores. Não conseguia o gol, mesmo levantando muito a bola na área.

O Internacional, o outro candidato à vaga na competição continental, vencia por 2 a 0 desde o meio do segundo tempo. O resultado no Beira-Rio estava definido. No Serra Dourada, não. Sem ambição, com um time claramente armado apenas para empatar, que sequer atacava. Viu o Goiás chegar algumas vezes com algum perigo, mas poucas. O esmeraldino não tinha muitos recursos para atacar e causar problemas à insegura defesa tricolor.

Alexandre Pato, o caro atacante emprestado pelo Corinthians ao São Paulo – com R$ 400 mil pagos por cada um dos clubes – sequer entrou em campo. Amargou o banco de reservas. Vinha de cinco jogos sem marcar e sem jogar bem. Em campo, Thiago Mendes foi o melhor, mas sem nem fazer muito. O São Paulo parecia conformado em segurar, apostando que não daria o azar de tomar o gol. Quando o jogo se arrastava nos acréscimos, Rogério, que entrou poucos minutos antes, acertou um chute no ângulo. Golaço para garantir o alívio dos seus companheiros, em um jogo para lá de ruim. Mais uma vez, o time mostrou pouco brio em campo, mas o problema é mais sério do que isso. Faltou um time bem armado e já falamos sobre isso quando o time foi goleado pelo Corinthians.

O São Paulo do Campeonato Brasileiro conseguiu pontos suficientes para ir à Libertadores e isso é até surpreendente por tudo que o time passou. Começou o campeonato com Milton Cruz, interinamente, veio Juan Carlos Osorio, depois Doriva e, por fim, Milton Cruz de novo, outra vez interinamente. Um time que não se encontrou em 38 jogos disputados. Que teve um jeito de jogar diferente em muitos deles. Que não conseguiu convencer nem a si mesmo, que dirá a torcida, diante de tantas atuações irregulares.

Perdeu jogadores durante o ano, viu o presidente Carlos Miguel Aidar renunciar ao cargo depois de acusações de irregularidades como receber dinheiro por contratos de jogadores e negociação do material esportivo. Um presidente que saiu com o rabo entre as pernas, se escondendo e que teve uma polêmica gravação que o diretor de futebol, Athaíde Gil Guerreiro, afirmava ter. O áudio nunca apareceu. As acusações contra o ex-presidente parecem ter sido arquivadas. Um cheiro de pizza que parece ter sido armado para proteger os próprios dirigentes.

Leco, eleito presidente, tem obrigação de fazer com que a investigação das irregularidades de Aidar e toda a gestão anterior sejam devidamente investigados e tudo isso seja revelado. O São Paulo pode ser um clube privado, mas é também uma instituição sem fins lucrativos que tem nos milhões de torcedores a sua força. O que parece é que os dirigentes do São Paulo jogaram a sujeira para debaixo do tapete depois que conseguiram tirar Aidar do poder. Como se não houvesse contas a serem prestadas por tanta lama. Como se fosse um clube pertencente apenas àqueles poucos conselheiros que dirigem o clube há décadas como um dos clubes menos democráticos entre os grandes do Brasil.

O São Paulo vai para 2016 com a vaga na fase preliminar da Libertadores e sem Rogério Ceni, que se aposenta, Alexandre Pato, devolvido ao Corinthians, Luís Fabiano, que deixa o clube, e provavelmente sem muitos outros jogadores. Ainda não se sabe quantos irão sair, mas não devem ser poucos. O time, que se endividou por vaidade do seu presidente anterior, interessado em dar chapéus (como o de Wesley, que custa R$ 350 mil por mês), mas que não conseguiu pagar os salários em dia em alguns momentos no ano. Vive problemas financeiros que devem fazer o elenco de 2016 ser mais barato do que o de 2015 (e é o mínimo que deve fazer, dada a situação).

Neste momento, há pouco a se comemorar no São Paulo. O time está sem técnico e vê em Cuca, opção dita como a mais desejada, um técnico acima da sua capacidade financeira. Paulo Autuori é falado por alguns e desmentido por outros, com uma última passagem, em 2013, que deixou o time na zona do rebaixamento. Levir Culpi, que está no mercado após deixar o Atlético Mineiro, é outra opção.

Será a 18ª participação do São Paulo na Libertadores. Jogou em 1972, 1974, 1978, 1982, 1987, 1992, 1993, 1994, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2013, 2015 e jogará em 2016. Um time que inegavelmente tem uma tradição em jogar competições continentais como poucos. Mas que precisa melhorar muito, dentro e fora de campo, se não quiser que esta 18ª participação seja só isso mesmo: uma participação, com risco de ser medíocre.

Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net