Os pontos corridos minimizam bastante os efeitos da sorte e do imponderável na definição do título do Campeonato Brasileiro. O goleiro continua sujeito a escorregadas e a bola mantém o seu direito inalienável de bater na trave três vezes no mesmo lance, mas, em 38 rodadas, é muito menos provável que essas coisas sejam decisivas. Importam muito mais a estabilidade e o planejamento, as duas principais armas do São Paulo na conquista do tricampeonato nacional entre 2006 e 2008.

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O clube manteve o técnico Muricy Ramalho e não contou com a concorrência de grandes esquadrões, mas o principal mérito foi a formação de uma base sólida de jogadores. Entendeu como mais ninguém a melhor forma de contratar depois do fim do passe, ficou de olho nas datas de vencimento dos contratos de possíveis reforços e gastou muito pouco para adquirir os direitos federativos dos principais responsáveis pelas glórias.

Nove jogadores participaram das três conquistas – ou estiveram no elenco, já que entre eles estão o goleiro reserva Bosco e o lateral direito Reasco, que pouco jogaram – e nenhum deles custou muito para os cofres do São Paulo. Apenas Miranda e Richarlyson exigiram um pouco de investimento. Foram gastos R$ 800 mil na chegada do volante e cerca de R$ 4 milhões na do zagueiro. Valores baixos. André Dias, Júnior e Aloísio não custaram nada. Alex Silva chegou ainda muito jovem para se recuperar dentro do clube e acabou ficando. Rogério Ceni foi formado no clube.

O uso do REFFIS para atrair jogadores também foi um recurso que deu bastante certo para o São Paulo, embora as três principais contratações dessa forma não tenham influenciado no tricampeonato brasileiro. Luizão (2005), Ricardo Oliveira (2006) e Adriano (2008) ficaram apenas no primeiro semestre dos seus respectivos anos e participaram mais das campanhas da Libertadores. O clube, porém, acertou ao investir em equipamentos de primeira linha para a sua academia, abrir as portas a jogadores machucados e oferecer espaço na equipe para eles voltarem à boa forma. Havia uma estratégia estabelecida para atrair grandes jogadores, baseada em uma estrutura que outros clubes não ofereciam.

O time campeão brasileiro em 2006 tinha uma base formada sem custos, que havia conquistado a Libertadores no ano anterior. Fabão, Danilo e Josué foram contratados do Goiás após o fim dos seus contratos, Mineiro também chegou de graça, assim como os já citados Aloísio e Júnior. A equipe ainda foi reforçada com Ilsinho, que não renovou com o Palmeiras e decidiu defender o outro clube que treina na Marquês de São Vicente.

No ano seguinte, o time já contava com Breno, jogador revelado nas categorias de base do clube, uma estrutura que recebeu bastante investimento na gestão de Juvenal Juvêncio, mas não foi tão decisiva nos três títulos brasileiros. Jorge Wagner chegou por empréstimo do Bétis e se tornou um dos jogadores mais decisivos daquela campanha, graças a uma bola parada muito apurada. Acabou contratado, por apenas R$ 4 milhões, para o ano seguinte.  Borges e Dagoberto, dois dos três artilheiros do São Paulo no Brasileiro de 2007, com sete gols, também exigiram que um pouco de dinheiro saísse do bolso do clube, mas ainda assim não foram grandes investimentos.

A chegada de Dagoberto foi ainda mais parecida com as que o clube acostumou-se a fazer. A grande revelação do Atlético Paranaense tinha um cláusula em seu contrato que reduzia drasticamente a multa rescisória nos últimos meses do vínculo, e o São Paulo bancou o valor, aproximadamente R$ 5 milhões, alto para os padrões do clube naquela época. Mas como o atacante havia sofrido uma séria lesão no joelho que o afastou por quase um ano, o clube paranaense tentou estender o contrato na justiça. Houve uma briga jurídica e acusações de aliciamento contra a diretoria paulista.

A discussão ética sempre esteve associada à estratégia do São Paulo. O jogador pode assinar um pré-contrato com qualquer clube nos últimos seis meses do vínculo, mas há acusações de que o clube começava as negociações antes desse prazo. O caso de André Dias, um dos principais zagueiros que Muricy Ramalho teve naquela época, foi ainda mais complicado porque ele rompeu com o Goiás alegando salários atrasados. Conseguiu uma liminar e se transferiu, mas a justiça cassou esse documento, exigiu uma indenização (de R$ 250 mil) e o impediu de jogar até que o caso fosse resolvido.

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O time base do São Paulo foi praticamente mantido para o ano seguinte, o do tricampeonato. Houve poucos acréscimos significativos, como Joílson e Jancarlos, e o zagueiro Rodrigo, que estava emprestado do Dínamo Kiev. Outros jogadores ganharam ainda mais protagonismo, como Hugo, que também havia chegado sem custos, depois de uma boa temporada pelo Grêmio. Neste título, até mais do que nos outros, a solidez e a continuidade da equipe foram essenciais na arrancada do segundo turno que valeu o tricampeonato.

De alguns anos para cá, o São Paulo mudou um pouco o perfil das suas contratações. Gastou altas quantias com Luis Fabiano, Paulo Henrique Ganso, Jadson e Alan Kardec, por exemplo, todos bons jogadores, mas não conseguiu formar a base do time com bons negócios. Parece que perdeu o olhar apurado para contratar os jogadores em fim de contrato ao mesmo tempo em que outros clubes também aprenderam a fazer o mesmo. Deixou para trás a continuidade do trabalho dos treinadores e teve seis técnicos entre 2009 e 2013 antes de voltar a apostar em Muricy Ramalho.

Não há pecado em gastar muito em jogadores desde que eles sejam parte da formação de um time. O problema é gastar mais de R$ 20 milhões em Paulo Henrique Ganso já tendo Jadson no elenco. Estrutura, jogadores baratos e um longo trabalho do treinador funcionaram bem para o São Paulo durante muito tempo e talvez a melhor forma de voltar aos tempos em que se dizia que o clube poderia se tornar o Bayern de Munique do Brasil seja lembrando isso.