Quando o Campeonato Brasileiro começou, era difícil imaginar que depois do fim do primeiro turno, os 19 primeiros jogos, São Paulo e Internacional estariam ocupando as duas primeiras posições na tabela. Mais do que isso: os dois bateram os próprios recordes de pontos no primeiro turno, com 41 pontos para o São Paulo e 38 para o Inter. Dois times que viviam incertezas do nosso calendário: derrotas nos estaduais e, já durante o Brasileiro, eliminação na desejada Copa do Brasil. Uma semelhança entre os dois passam diretamente por um aspecto: a parada para a Copa do Mundo.

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A cada quatro anos vivemos a mesma situação, com o Campeonato Brasileiro parando por cerca de 30 dias para disputa da Copa. Sempre se fala sobre a oportunidade dos clubes em treinarem, algo tão raro por aqui. Nem sempre vemos muitos resultados disso. Aliás, é comum – e um tanto estúpido – vermos times voltarem da pausa para a Copa bagunçados em campo, dando a sensação de estarem mal treinados, e acontecem demissões de treinadores. Se o técnico não for competente, o tempo de treino é até pior. O que aconteceu com Diego Aguirre no São Paulo e Odair Hellmann no Inter foi justamente aproveitar o tempo de trabalho para dar consistência aos seus times. Melhorar alguns aspectos e torná-los times mais fortes e difíceis de serem batidos.

São Paulo: o encontro de peças-chave do elenco

Aguirre teve que conviver com duas eliminações dolorosas nos seus primeiros meses do clube. Logo nos primeiros jogos, caiu diante do rival Corinthians, depois de perder a classificação no último minuto e perder a vaga na final nos pênaltis. Depois, viu o sonho de ganhar a Copa do Brasil, um título inédito para o clube, ruir contra o Atlético Paranaense, em abril. Mais do que isso, precisava encontrar uma forma de jogar que se adequasse ao time, combinado com o seu estilo.

Dois jogadores cresceram notoriamente com Aguirre. O primeiro deles é, atualmente, um dos melhores do Brasileiro: Hudson. O volante foi negociado com o Cruzeiro em 2017 por ser considerado dispensável. Lá, foi campeão da Copa do Brasil, sendo um jogador importante. Só não ficou por lá porque o Cruzeiro não teve dinheiro – ou não quis pagar o que o São Paulo pediu por ele. Teve que retornar ao Morumbi, onde começou como reserva. Só que aos poucos, Petros perdeu o lugar, ele ganhou e, no Brasileiro, se tornou um jogador importante do time.

Outro é Joao Rojas, uma aposta pessoal de Aguirre. Pediu a contratação do equatoriano, que atuava pelo Talleres e era pouco conhecido no Brasil. Agora, é um dos jogadores que mais faz falta ao São Paulo quando não atua. Incisivo e muito veloz, é um jogador com qualidades ofensivas e que ainda ajuda muito o time com o seu posicionamento sem bola, ocupando os espaços.

Esses dois jogadores se tornaram cruciais para o time. Soma-se a eles a importante contratação de Éverton Cardoso, que veio do Flamengo e se encaixou perfeitamente, e o uso mais inteligente de Nenê e Diego Souza, dois jogadores que se tornaram também cruciais ao time. Dois jogadores que, com Dorival Júnior, pareciam sem função, perdidos em campo e que eram considerados lentos demais. Aguirre mudou o posicionamento de ambos, que passaram a trabalhar bem para o time.

Por mais que seja um time que fique muito pouco com a bola, o São Paulo é um ataque muito perigoso. Tanto que é o segundo melhor do campeonato, com 32 gols. Fica atrás apenas do Atlético Mineiro, que tem 36. Tem só a quinta melhor defesa com 16 gols sofridos, atrás de Grêmio (8), Internacional (12), Flamengo (15) e Palmeiras (15). É o segundo time com mais desarmes (408), atrás apenas do Palmeiras (435).

Terminar o primeiro turno como líder é muito importante para o São Paulo por vários aspectos. Primeiro porque é surpreendente, já que o time brigava para não cair na última temporada. Segundo, por quebrar o próprio recorde de pontos, com 41. Isso é muito relevante para um time que foi tricampeão em 2006 (38 pontos depois de 19 rodadas), 2007 (40) e 2008 (33). Por fim, apenas três vezes o time que terminou o primeiro turno na liderança não foi campeão, o que não quer dizer nada na prática, mas é um dado que mostra que essa é uma tendência.

Inter: protagonismo de desacreditados

A vida de Odair Hellmann à frente do Internacional não tem sido fácil desde que ele foi efetivado, na reta final da campanha na Série B. Depois de ser eliminado pelo Grêmio no Campeonato Gaúcho, viveu a turbulência de uma eliminação também na Copa do Brasil, diante de um frágil Vitória, nos pênaltis. Duas derrotas marcantes. As coisas poderiam sair do rumo, mas o que temos visto é que o time equilibra cada vez mais as ações dentro de campo.

Se alguém dissesse que Rodrigo Moledo seria um dos melhores zagueiros do Campeonato Brasileiro, muito provavelmente pouca gente acreditaria. Mais ainda, se fosse previsto que ele e Victor Cuesta formariam a melhor dupla do campeonato nacional, ao menos levantaria alguma desconfiança. Os dois, porém, formam uma zaga que merece muitos elogios pelo desempenho. Mostram qualidades que exaltam acima de tudo o modo do Inter jogar, que permite poucos espaços e, consequentemente, poucos gols aos seus adversários.

O meio-campo do time tem um dos destaques do campeonato até aqui: Patrick. Suas atuações têm sido impressionantes, porque ele participa de todo o processo de construção do jogo colorado. Trabalha para desafogar Rodrigo Dourado e também encosta em Nico López e Potker. Sua força física é impressionante, especialmente quando se vê a sua qualidade técnica. É um jogador que une as duas coisas muito bem e é um trator com a bola nos pés. O trio de meio com Dourado, Edenílson e Patrick tem sido enorme destaque do time pela capacidade de jogar com e sem a bola.

Dourado, aliás, é um dos pontos importantes de serem destacados no bom sistema defensivo do Inter. Com Hellman no comando, o volante, que sempre foi visto como uma ótima revelação do clube, voltou aos seus melhores dias. É líder, sabe distribuir bem o jogo e tem sido importante para as transições ofensiva e defensiva do Inter. Com ele à frente da zaga, bem protegida, o Inter é um time que dificilmente é pego mal posicionado.

Um dado exemplifica um pouco de como o Inter atua. Victor Custa é o jogador que mais fez interceptações no campeonato, segundo a Opta Sports, com 63. Rodrigo Dourado é o segundo, com 53. Em quinto, Iago, lateral esquerdo, com 45. Ter três jogadores entre os cinco que mais fazem interceptações (Marcos Rocha, do Palmeiras, e Sander, do Sport, completam a lista) é um indicativo de como o time é atento e bem posicionado defensivamente. Além disso, quando olhamos para desarmes, Patrick é o terceiro colocado, com 60, mesmo sendo um meia mais ofensivo que defensivo.

Isso porque o ataque é formado por jogadores que também se posicionam muito bem. William Pottker vinha de momentos ruins e começou o Campeonato Brasileiro com atuações fracas. Seu lugar no time era justamente questionado, mas pós-Copa do camisa 99 é de um nível excelente. E isso passa pelo entendimento que ele e Nico López passaram a ter. Ambos são atacantes com a bola, e passaram a ser perigosos, marcando gols e criando chances. Mas sem a bola, se tornam, na prática, meio-campistas. Ocupam espaços e atacam a bola para, ao menos retardar ao máximo a ação adversária.

São Paulo e Inter apresentam bons elementos que ajudam a entender porque os dois times surpreenderam e estão na ponta da tabela até aqui. Há 19 rodadas pela frente e muita coisa irá acontecer. É impossível dizer, neste momento, se um dos dois times será o campeão. O que dá para dizer é que os dois se colocaram nessa disputa, algo que não se imaginava no início do campeonato, e essa já é uma vitória de ambos. Agora, ambos já ajustaram suas expectativas e é impossível conter o sonho. E a possibilidade de sonhar já é muita coisa para times que se preocupavam com situações muito diferentes no último ano. Há esperança e há bom trabalho nesses times, em campo com os jogadores, e fora de campo com seus técnicos.