De cinco representantes brasileiros na Copa Libertadores, resta apenas um. E o São Paulo tem a oportunidade de se reafirmar como uma potência continental. Da crise no início da campanha, o time são-paulino se encorpou a partir da agonia para avançar aos mata-matas. Agora, sai ainda mais fortalecido para as semifinais. A classificação sobre o Atlético Mineiro, apesar da derrota por 2 a 1 nesta quarta, vale pelo rival de peso que ficou no caminho e também pela maneira como os paulistas controlaram o duelo. Edgardo Bauza mostra sua capacidade à frente da equipe, acertando os ponteiros no momento decisivo da competição. Afinal, não é à toa que o treinador possui duas conquistas da Libertadores em seu currículo. E seu estilo se torna cada vez mais enraizado entre os tricolores.

O Estádio Independência se preparou para uma noite especial de Libertadores, como deveria ser. A entrada em campo contou com mosaico, fogos de artifício e cantoria a plenos pulmões. O que parece ter empurrado os dois times a um ritmo alucinante. Em 15 minutos, a partida de volta já tinha sido muito melhor do que o 1 a 0 da ida no Morumbi. O Atlético tratou de colocar o São Paulo contra a parede. E, por mais que existam erros individuais dos visitantes em ambos os lances, os mineiros abriram dois tentos de vantagem muito mais por seus méritos. Primeiro, Pratto fez o pivô para Marcos Rocha soltar a bomba e, no rebote de Denis, Cazares não perdoou. Já aos 11 minutos, o cruzamento perfeito de Douglas Santos encontrou a cabeça de Carlos, ampliando a diferença.

A virtude do São Paulo, neste momento, não foi se abater com o atropelamento instantâneo e buscar a diferença logo em seguida. Após cobrança de escanteio na primeira trave, Maicon subiu mais que a marcação e se aproveitou da saída errada de Victor para estufar as redes. Encostava no marcador e fazia o gol necessário para a classificação do São Paulo no placar agregado. Este fato seria fundamental para o desenvolvimento da partida. Enquanto o Galo tinha pressa, o Tricolor prezava pelo tempo.

Ao longo da primeira etapa, o Atlético foi muito mais time. Os alvinegros se posicionavam no campo de ataque e tinham ótima movimentação para abrir espaços. Diante da frouxidão dos meias são-paulinos na marcação, o perigo era constante. Cazares se destacava pelas jogadas individuais, embora tentasse enfeitar mais que o necessário em muitos momentos. Enquanto isso, a passagem dos laterais também impulsionava o Galo. O terceiro gol não saiu por um triz em cabeçada de Pratto, que acabou explodindo na trave. Além disso, Leonardo Silva também reclamou muito de um pênalti cometido por Hudson. Ao São Paulo, restava se fechar e apostar nas bolas paradas. Ainda assim, os visitantes criaram duas ótimas chances: Calleri forçou um milagre de Victor aos 26, enquanto Rodrigo Caio carimbou a trave nos acréscimos.

O intervalo, porém, não fez bem ao Atlético Mineiro. Principalmente por conta das decisões de Diego Aguirre. Como se não tivesse visto nada de futebol brasileiro nos últimos anos, o comandante resolveu mandar Carlos Eduardo a campo. E, ao invés de sacar Patric, errando em excesso, ele preferiu sacrificar Carlos, um dos mais ativos na primeira etapa. Desta maneira, o Galo perdeu intensidade. Por mais que o São Paulo recuasse demais, a pressão dos alvinegros era improdutiva. Maicon e Hudson eram dois gigantes na proteção de sua área. Denis só voltou a ser incomodado aos 15, em chute de longe de Eduardo que conseguiu espalmar.

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Quando tomava a bola, por sua vez, o São Paulo tentava esfriar os ânimos. A distribuição de jogo era ótima, especialmente pelas aberturas que criava no meio de campo. Paulo Henrique Ganso atuava muito bem na cadência, enquanto a hiperatividade de Calleri também ajudava bastante. E os tricolores conseguiam até mesmo incomodar nos contra-ataques, forçando faltas e obrigando Victor a fazer mais uma grande defesa, em tentativa de Wesley – que substituiu o lesionado Thiago Mendes.

Inoperante, o Atlético só voltaria a mudar aos 24 minutos, com a entrada de Clayton no lugar de Patric. E foi dele o lance de maior perigo, em ótima virada na entrada da área que terminou com um chute passando perigosamente ao lado da trave. Depois disso, o empenho defensivo do São Paulo preponderou. Dátolo, uma das alternativas mais interessantes no banco, só foi a campo aos 40. O Galo voltou a ameaçar na base do desespero, com bolas cruzadas para a área, após tantas investidas sem sucesso pelas pontas. Em uma das oportunidades, Denis salvou com o corpo, em cima da linha, a tentativa de Leonardo Silva. Mas a tal mística que os atleticanos apresentaram em mata-matas recentes, desta vez, esteve longe de aparecer. A esperança dos torcedores resistia por teimosia de quem viu o impossível contrariado tantas vezes, não que o time correspondesse a isso.

Por conta da Copa América, o São Paulo precisará esperar mais dois meses para continuar vivendo o seu sonho na Libertadores. Em teoria, espera o vencedor do jogo entre Rosario Central e Atlético Nacional, embora não será surpresa se pegar Independiente del Valle ou Pumas, caso Boca Juniors e Central façam uma semifinal argentina. Independente disso, a certeza maior se concentra no próprio Morumbi. O que Edgardo Bauza conseguiu nos últimos meses é digno de reconhecimento. Deu uma cara ao time são-paulino e, sobretudo, também deu alma. Usando o cérebro, os tricolores saem vivos do Independência. Assim como demonstram ter coração suficiente para buscar a taça da Libertadores, uma virtude quase sempre fundamental na competição sul-americana.