Se olharmos para a lista de campeões da Copa do Brasil desde sua criação, em 1989, veremos que a competição não dá muitas chances a quem não faz parte da elite. O troféu do torneio ficou quase sempre com um clube da primeira divisão do futebol nacional.

Até hoje, tivemos apenas três campeões vindos de uma divisão que não a primeira. E, neste domingo, faz 15 anos que vimos uma das últimas grandes zebras do certame, protagonizada por um clube que então estava na segundona: o Santo André de 2004.

A final da Copa do Brasil parecia ter dono. O Flamengo havia empatado o jogo de ida em 2 a 2, no Palestra Itália, e levava para o Rio de Janeiro a vantagem de poder empatar até por 1 a 1 por causa dos gols marcados fora de casa. Para um clube da estatura do Ramalhão, não era missão qualquer ir para o Maracanã bater de frente com toda a história e a multidão flamenguistas. Mas a mentalidade da equipe estava no caminho certo, como evidenciado pela fala audaciosa do capitão Dedimar ao fim do jogo: “O Maracanã é um mito criado pela imprensa carioca. É um estádio normal”.

O Santo André, no entanto, já tinha empilhado classificações passando por gigantes do futebol brasileiro. O Atlético Mineiro caíra diante do Ramalhão na segunda fase, enquanto o Palmeiras protagonizou com o time do ABC um duelo eletrizante nas quartas de final, com empates em 3 a 3 e 4 a 4, que terminou por classificar o Santo André. Depois, despacharam o igualmente inesperado 15 de Campo Bom. O desafio era grande em um Maracanã com mais de 70 mil torcedores, mas não era agora que o time abaixaria a cabeça.

O duelo se fazia especialmente duro para o time paulista devido à importância que ele tinha para o Flamengo. O Rubro-Negro vivia péssimo momento. Amargava a vice-lanterna do Brasileirão, com apenas oito pontos conquistados. Fora das quatro linhas, mas influenciando o ambiente, o clube vivia uma grave crise financeira, e o prêmio de R$ 1 milhão ao campeão seria um muito desejado suspiro aos dirigentes.

Além disso, o meia Felipe, destaque técnico no time de Abel Braga, estava se preparando para ir defender a Seleção na Copa América, e as especulações da época davam conta de que ele estava com transferência encaminhada para o Olympique de Marselha – o que não se concretizou, com o jogador indo para o Fluminense no ano seguinte.

As circunstâncias tornavam o jogo importantíssimo para o Fla, mas o Santo André, com a chance de fazer história e a desvantagem por ter sofrido dois gols em casa, é que tomou a iniciativa do jogo. Empurrado pela torcida, o Flamengo reagiu por meio dos pés de Felipe, que conduziu maior parte das ações ofensivas rubro-negras, incomodando os adversários com seus dribles.

Ambos os times tinham um Júlio César sob as traves, e nenhum deles teve que trabalhar pesado na primeira etapa. O jogo, marcado por passes errados e faltas, foi para o intervalo em 0 a 0, mas ao menos a conversa de Péricles Chamusca no vestiário deu resultado para o lado do ABC.

O primeiro baque à multidão flamenguista que estava no Maracanã buscando ver o time conquistar seu primeiro título nacional desde o Brasileirão de 1992 veio aos sete minutos do segundo tempo. Em cobrança de escanteio de Élvis, Sandro Gaúcho aproveitou a desorganização na área carioca e subiu sozinho para fazer, de cabeça, o 1 a 0.

Aos 23 minutos da etapa complementar, Osmar cruza baixo da esquerda, e Élvis aparece agora para ser protagonista, completando para o fundo da rede clássica do Maracanã e fazer 2 a 0.

“O Maracanã é um mito criado pela imprensa carioca. É um estádio normal.” – Dedimar, capitão do Santo André.

O Flamengo não conseguiu se recuperar, e o Santo André controlou o resultado até o fim do jogo, alcançando o inédito título da Copa do Brasil – repetindo o feito do Criciúma em 1991, como o segundo time da Série B a erguer a taça, façanha esta vivida também pelo Paulista em 2005.

As glórias do futebol estão disponíveis para dois grupos distintos: os grandes, de nascença ou de camisa, e os atrevidos. Em noites como a daquela quarta-feira no Rio de Janeiro, as linhas se borram. Por aqueles instantes, os personagens deste segundo grupo não podem ser mais distinguidos daqueles do primeiro.

Confusão

Em época de redes sociais incipientes, o canal encontrado pela torcida flamenguista para expressar sua revolta foi o próprio Maracanã. Durante o jogo, gritos de “timinho” caíam sobre os jogadores, e, após o apito final, torcedores brigaram nas arquibancadas, exigindo a intervenção da polícia. O então presidente do clube, Márcio Braga, chegou a ser agredido por dois flamenguistas.

Redenção

O Brasiliense de 2002 chamou a atenção nacional ao fazer bela campanha na Copa do Brasil, eliminando, entre outros, Fluminense e Atlético Mineiro, para chegar à decisão. Na oportunidade, o time, que era comandado por Péricles Chamusca, esbarrou em um Corinthians do inspirado Deivid. Dois anos depois, o mesmo Péricles Chamusca repetiu o feito de levar um time de pequena expressão à decisão da copa nacional. Desta vez, pintando até a última listra da zebra.

Ficha (via Folha):

FLAMENGO 0X2 SANTO ANDRÉ

Técnico: Péricles Chamusca
Local: Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: Carlos Eugênio Simon
Cartões amarelos: Alex, Dirceu e Júlio César (Santo André); Jean, André Bahia e Fabiano Eller (Flamengo)
Gols: Sandro Gaúcho, aos 7min, e Elvis, aos 23min da etapa final
Público: 71.988 pagantes
Renda: R$ 1.038.244,00

FLAMENGO
Júlio César; Reginaldo Araújo, André Bahia, Fabiano Eller e Roger (Athirson); Da Silva, Douglas Silva (Negreiros), Ibson e Róbson (Jônatas); Felipe e Jean.
Técnico: Abel Braga

SANTO ANDRÉ
Júlio César; Dedimar, Alex e Gabriel; Nelsinho (Da Guia), Dirceu, Ramalho (Ronaldo), Romerito e Élvis (Dodô); Sandro Gaúcho e Osmar.
Técnico: Péricles Chamusca