“Eu sou um quebra-cabeças”, é o que diz Santi Cazorla, ao olhar para o seu corpo. Seu novo tendão de Aquiles foi feito a partir das fibras da panturrilha. O pé possui uma estrutura de metal. Mas nada simboliza mais essa sensação que o pedaço de tatuagem com o nome de sua filha, transplantado do braço ao tornozelo. O veterano de 33 anos precisou enfrentar uma longa batalha para voltar a jogar. Encarou o medo de ter a perna amputada, de nunca mais poder andar, de se afastar do esporte que tanto ama. Mas, depois de longos 636 dias, em que passou por sucessivas cirurgias (no tornozelo, na planta do pé, no tendão de Aquiles, na ferida que não cicatrizava), o meia entrou em campo novamente. Não está mais no Arsenal, clube que compreendeu sua empreitada e o apoiou na maior parte do tempo. Ainda assim, segue feliz com a camisa do Villarreal, sua primeira casa. A equipe que deu uma nova chance ao velho ídolo e lhe oferece o prazer de retomar a carreira, dia após dia, já disputando novamente o Campeonato Espanhol – e se destacando.

Nesta semana, Cazorla concedeu uma longa entrevista ao jornal The Guardian, falando mais uma vez de seu esforço para superar as lesões e disputar um jogo novamente. Belo relato de um homem que precisou bater de frente com alguns de seus maiores temores, para voltar a realizar o seu grande sonho. E mostra como nem mesmo os melhores jogadores contam com as melhores condições para se recuperar:

A forma como enfrentou as dificuldades

“Mikel Sánchez, o cirurgião, me tornou um caso de estudos. Ele e os fisioterapeutas disse que nunca viram um caso tão extremo. Sou um maluco por futebol. Eu conversava com minha família e dizia: ‘Acabou. Amanhã falarei com o fisioterapeuta e direi que não posso continuar’. Agora, tenho que me beliscar quando penso que vou jogar no sábado. Eu aprecio tudo, cada momento. Eu entendo os jogadores que acham que é uma dor estar preso no hotel durante a noite anterior, mas eu estive em hotéis sozinho, em hospitais também. Eu lutei por isso”

O início das lesões, contra o Chile, em 2013

“Eu não me culpo, mas a verdade é que a dor começa com 20 minutos e eu joguei os 90. Muitas vezes penso que, por não ser egoísta, piorei a lesão. Se eu tivesse pedido para me substituírem, as pessoas teriam pensado que eu estava sendo esperto, não egoísta. O Arsenal perguntou porque eu não fui substituído, mas respeitaram minha decisão. Quando o problema apareceu, sugeriram que eu parasse um pouco, mas eu recusei. Achava que fosse algo leve, botei uma bandagem e na semana seguintes já estava jogando”

As dores constantes

“Os intervalos me matavam, porque eu ficava frio. Eu podia me sentir aleijado no começo do segundo tempo e a dor ficava pior e pior. Depois de enfrentar o Ludogorets na Liga dos Campeões, eu chorei naquela noite. A dor tinha se tornado insuportável. Precisava parar. Então, os problemas começaram”

O começo do tratamento na Inglaterra

“Eu peguei uma sala de cirurgia e então surgiu o fato de que a ferida estava aberta. Eu ia de moto para o trabalho e alguns pontos se abriam. Por estar aberto, as bactérias podem entrar. Durante a noite, um líquido amarelo saía do meu pé. Todas as vezes que me costuravam, isso se abria de novo, com mais líquido. Eles fizeram um enxerto de pele, mas não viram o que tinha dentro – as bactérias estavam comendo e comendo meu tendão. Eles nunca descobriram qual bactéria era”

A decisão sobre se tratar na Espanha

“Os médicos na Inglaterra me diziam: ‘Não se preocupe sobre jogar futebol, se concentre em recuperar uma vida normal, estar apto a jogar com seu filho ou dar um passeio’. Mas eu não dava muita importância a isso porque eu já tinha decidido voltar para a Espanha e o que eles me disseram aqui foi totalmente diferente. Eu estava cansado, havia passado por dois ou três meses de operações. Fui à Espanha e acharam as bactérias: duas no tendão e outra no osso”

A mudança no tratamento

“Eles não sabiam o quanto a infecção do tendão havia comido. O doutor Mikel disse: ‘Vou ter que abrir você até encontrar o tendão’. Ele me disse que abriram, abriram, abriram, até perceberem que eu havia perdido dez centímetros do tendão. Eu tive sorte, eles disseram, poderia ter sido mais. Quando tiveram que reconstruir o tendão, perceberam as péssimas condições do osso. Podiam colocar o dedo dentro dele. Isso era ainda mais perigoso. Os médicos na Inglaterra diziam que estava sob controle, que davam antibióticos, mas sequer sabiam qual a bactéria para dar o remédio apropriado”

Negligência dos médicos ingleses

“Você se sente frustrado porque, se isso fosse identificado no primeiro dia, o problema provavelmente seria mínimo. Mas não sei como processar os médicos ajudaria algo. Seria uma grande dor de cabeça e não adiantaria lutar por questões médicas que já passaram. Eles nunca assumiram a responsabilidade ou pediram desculpas. Estou convencido que eles pensam que fizeram o certo, que não foi a bactéria, foi azar. Eu não acho que eles sentem culpa. Se outras pessoas tivessem agido de maneira certa, talvez eu não passaria por metade dos problemas, mas sou eu que decido com quem trabalharei, onde, como. Não posso culpar as pessoas, no final sou eu. Deveria ter vindo à Espanha desde o primeiro dia. Em Londres disseram que eu não jogaria novamente. Na Espanha, falaram que era ruim, mas que iríamos lutar”

A percepção da evolução

“Às vezes, eu estava pronto para desistir. É mais difícil quando você não vê melhoras. Eu falava com os médicos de novo e me perguntavam se eu queria jogar. Eu respondia que sim, então diziam: ‘Certo, então é isso. Hoje trabalhamos, amanhã você verá’. E comecei a ver coisas pequenas. Um dia você entra em campo e sua mente está limpa. Uau! Você volta para o hotel com um enorme sorriso. Os fisioterapeutas eram espertos, eles me conheciam. Davam uma bola e, nossa, isso fazia me sentir um pouco como jogador novamente. Para depois falarem: ‘Amanhã, mais trabalho com bola’. E esses pequenos truques faziam a pena levantar no dia seguinte. Minha família ligava e eu contava que toquei a bola”

A relação dentro de casa

“Meus filhos mudaram de escola três vezes em um ano e nem sabíamos se valeria a pena. Eu chegava em casa por uma noite, após deixar a Espanha, e no dia seguinte perguntavam se eu os deixaria novamente para o tratamento. Tornou-se normal verem aquilo, algo que me matava. Mas eu fiz isso por eles também, porque meus filhos são malucos por futebol. Meu filho Enzo me perguntava se eu continuaria jogando com aquele pé que ‘parecia estranho’. Eu respondia que parecia diferente, que era melhor não olhar muito. Agora ele me assiste e fico muito feliz por vê-lo nas arquibancadas”

O contato com Arsène Wenger

“Arsène sempre me apoiou. Ele renovou meu contrato antes da primeira operação, o que foi um gesto incrível. Ele me ligou: ‘Santi, vou te dar um ano a mais. Venha aqui, assine e tenha sua operação com paz na mente’. Isso me ajudou a focar na minha reabilitação sem medo. Serei eternamente grato por isso”

A postura do Arsenal

“O Arsenal não quer uma partida de despedida. Eles foram muito bons comigo, muito honestos. Minha ideia era fazer no Arsenal o que estou fazendo no Villarreal. Eu sabia que, independentemente de quem assinasse comigo, precisavam me testar primeiro. Imaginava fazer a pré-temporada com o Arsenal e então eles decidiriam, mas não podiam esperar para fechar o elenco. Eles disseram que ajudariam de qualquer outra forma. Eu entendi isso, respeitei. Sou eternamente grato. As pessoas me amam lá e sempre terei uma conexão com o Arsenal, muita afeição. Não estar apto para dizer adeus no Emirates é como um espinho na pele. Se eu tivesse que sair, queria me encontrar com os torcedores”

A última aparição no Emirates

“Eu perguntei se podia treinar mais uma vez no Emirates, antes de um jogo da Liga Europa, porque não sabia se conseguiria jogar novamente. Não foi muita coisa, na verdade: quatro voltas, driblar um pouco. Mas apenas de estar na grama, só para sentir o calor da multidão, era adorável. Pensava que levaria algo comigo, mesmo se não jogasse futebol novamente”

O recomeço no Villarreal

“Não me sinto mal. Sou otimista mesmo sentindo um pouco de dor, um certo medo, fraqueza no tornozelo e falta de equilíbrio. Apenas quero jogar a próxima partida. Depois, a próxima”


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