Era daqueles dias que entram para a história. Fosse como fosse o jogo, ficaria marcado. O Mundão do Arruda estava lotado, 60 mil pessoas entoando o grito de esperança. Era o dia de subir para a Série B, voltar a uma competição com calendário maior, que dá mais dinheiro, que lhe permite ter um tamanho mais compatível que o seu. O Santa Cruz tinha pela frente o Betim, ex-Ipatinga, e a torcida de boa parte do país contra um time que mal tem nome, mal tem cidade, pouco tem torcida. Era a chance de acabar com a espera de 2.172 dias para voltar à Série B.

O Santa é o tipo de protagonista que cativa, porque é claramente incompatível com o papel que lhe foi atribuído nos filmes que tem protagonizado. São anos de tormenta e uma queda que fez o time ter que carregar a cruz morro acima, tendo que lidar com os mais diversos problemas e vendo os rivais na primeira divisão, até ganhando título nacional, como o Sport em 2008. O buraco parecia só ficar mais fundo e a distância para os rivais locais só aumentava.

Em 2006, o Santa estava na Série A do Campeonato Brasileiro. Em 2009, estava disputando a Série D, depois de dois rebaixamentos e uma reformulação na Série C que manteve só os 20 melhores na divisão – não foi o caso do Santa, que caiu para a D por isso. Nas duas primeiras tentativas de sair da quarta divisão, a frustração de eliminações precoces. Em 2009, caiu ainda na primeira fase em um grupo com Central-PE, Sergipe-SE e CSA-AL. Em 2010, foi derrotado na segunda fase no mata-mata contra o Guarany de Sobral. O time parecia estar preso em areia movediça.

Foi só em 2011 que a subida começou de verdade. Foi o ano que voltou a ser campeão estadual no primeiro semestre, quebrando a hegemonia do Sport e impedindo o hexa do Leão. Foi o ano que o Santa Cruz conseguiu subir, passando pelo Treze nas quartas de final da Série D. Nessa busca para sair do inferno, até pelo purgatório o time passou. Em 2012, fez campanha só mediana e acabou em sexto lugar na primeira fase, fora do mata-mata e sem chance de subir. Mas viria a redenção em 2013.

Tricampeão pernambucano, o time foi para a Série C com a missão de sair da lama, definitivamente. Líder do Grupo A na primeira fase, classificação tranquila e garantida. O primeiro confronto, nas quartas de final, definiria tudo. Era só entrar em campo e jogar, certo? Errado. Em campo, pronto para enfrentar o Mogi Mirim, o Santa se viu obrigado a fazer as malas e voltar para Recife. Um imbróglio jurídico entre Betim e Mogi Mirim. O adversário, então, passou a ser o time mineiro. A vitória no primeiro jogo, no território adversário, dava ao time pernambucano a sensação que faltava pouco para o acesso. Mas faltava um jogo. E o futebol não permite comemoração antecipada.

O jogo deste domingo no Mundão do Arruda tinha o cenário para uma epopeia. O estádio lotado, 60 mil pessoas, e os times nervosos. Até para entrarem em campo. O Betim esperou parta entrar junto com o Santa e não tomar uma sonora vaia. O Santa atrasou a entrada em campo por quase dez minutos.

Passadas as formalidades, a bola rolou e o Santa parecia disposto a resolver o jogo. Foi melhor, mas tropeçava nas próprias limitações e no nervosismo. Passada a pressão inicial do Santa, foi o Betim que começou a assustar. Em uma bola trabalhada pelo meio, o lateral Tiago Santos recebeu livre, mas Sandro Manoel surgiu do nada, em um carrinho preciso, impedindo que a finalização fosse no gol. Era o primeiro sinal que tudo conspirava para o Santa.

No início do segundo tempo, uma jogada do acaso, da sorte e da predestinação. Uma jogada ensaiada que deu errado, a bola sobrou para André Dias, livre na área, tocar no canto e marcar. Euforia do time aos 12 minutos de partida. Mas ainda era cedo. A Cruz do Santa é pesada e a subida é sofrida.

Foi aos 20 minutos que o Betim cobrou uma falta para dentro da área e o zagueiro Max desviou de cabeça para empatar o jogo. Silêncio e tensão no Arruda. O nervosismo, aquele do primeiro tempo, voltou.

A torcida ainda sentia o arrepio quando Flávio Caça-Rato entrou em campo. Com seus cabelos descoloridos e seu nome folclórico, o jogador que já tinha feito gols decisivos pelo Santa era uma esperança, em meio a unhas roídas e silêncios incessantes.

O Betim passou a pressionar, criar chances e assustar. Escanteios, faltas, jogadas em velocidade. O contra-ataque era a arma do Betim, mas sem ele, o time mineiro tentava na base do abafa e das muitas bolas levantadas na área. O goleiro Tiago Cardoso teve que fazer boas defesas para impedir algo pior. Cada defesa de Tiago Cardoso, cada chutão afastando o perigo, cada bola para fora era um alívio para os torcedores. O medo de um ARRUDAZO era gigante. Quantas vezes os torcedores já tinham visto isso acontecer? Quantas frustrações já tinham vivido nesse tempo?

A redenção teria que vir como veio. Aos 42 minutos, um cruzamento veio da direita e o goleiro Felipe, do Betim, saiu do gol e a bola, essa malandra, saiu dele. Ela caiu na cabeça de Flávio Caça-Rato, um predestinado, que tocou de leve e viu a bola balançar as redes. Loucura, festa, lágrimas. Até quem não é torcedor do Santa (e não torce para nenhum dos rivais e nem para o Betim) se emocionou. Caça-Rato, o verdadeiro CR7 (embora tenha jogado com a camisa 20 no domingo), tirou a camisa e foi carregado em campo. Os minutos finais foram só formalidade, porque o gol sugou toda a força vital do Betim. Não havia mais como combater o destino. Aroldo Costa narrou assim o gol de Caça-Rato:

A Cruz do Santa foi levada morro acima por essas 60 mil pessoas, que representavam outras milhares ali. Na Série C, o título é o acesso. A taça é só um pedaço de metal que ficará na sala de troféus de um dos quatro times. O título já está garantido. A Série B é a nova realidade do Santa. O time ainda não chegou ao topo, mas que continue firme e forte carregando a sua Cruz e nunca mais volte ao inferno.

A explosão da torcida do Santa é uma imagem sensacional: