Em meio a tantas homenagens rasas e condescendentes, alguns poucos clubes brasileiros demonstraram entender do que se trata o Dia Internacional da Mulher. Entre os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, Santa Cruz, Coritiba, Ponte Preta e Fluminense espalharam mensagens de combate à violência contra a mulher e exaltação do espaço conquistado pelas mulheres no esporte. Uma abordagem que esperávamos que fosse mais constante, mas que foi exceção em um mar de publicações constrangedoras nas redes sociais.

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O clube pernambucano, em parceria com a Secretaria da Mulher, do Governo do Estado do Pernambuco, produziu um vídeo em que cinco torcedoras combatiam as violências doméstica e de gênero, incentivando denúncias contra perpetradores de crimes misóginos. Uma mensagem clara, informativa e necessária; um recorte que só pareceu óbvio para poucos clubes.

Em publicação no seu Facebook, a Ponte Preta também condenou a agressão contra a mulher em suas diversas formas, “física, psicológica, sexual, patrimonial, assédio, exploração e tráfico de mulheres”, chamando seus torcedores e seguidores para denunciar qualquer tipo de violência de gênero. O Coritiba preferiu um aspecto diferente, de contextualização e problematização do espaço ocupado pela mulher no esporte, com nota publicada em seu site, e pedindo mais oportunidades para as mulheres, em publicação no Facebook.

O Fluminense, por sua vez, criou uma pequena campanha reafirmando que “o lugar da mulher era onde ela quisesse”, produzindo vídeos com mulheres que ocuparam algum espaço nos esportes. De resto, as contribuições dos clubes brasileiros para a pauta do dia foram recheadas de frases condescendentes, objetificadoras, de reforço de estereótipos, oportunismo para venda de produtos e até mesmo sexualização.

Dia da Mulher para quem?

A distribuição de flores para torcedoras selecionadas ou funcionárias talvez tenha sido o tipo de conteúdo mais compartilhado pelos clubes. Como se não bastasse a “homenagem” condescendente, o Botafogo, por exemplo, colocou seus próprios jogadores, homens, como sujeitos da história, exaltando o fato de que os atletas presentearam funcionárias e sócias com flores.

Mostrar que contavam com funcionárias mulheres, aliás, foi uma constante também, em uma tentativa de demonstrar que havia ali, naquelas agremiações, representatividade de gênero. Tiro que de certa forma saiu pela culatra já que o número de mulheres era bem limitado e, normalmente, não incluía cargos de chefia ou gestão.

Tão frequentes quanto as flores foram as publicações de exaltação e valorização da aparência como característica definidora das mulheres, com fotos de torcedoras que se encaixassem no padrão de beleza e adjetivos como “bela” usados à exaustão. O Flamengo, por exemplo, foi ainda mais longe e criou um álbum com fotos enviadas por suas torcedoras, no que parecia mais um conteúdo direcionado a homens do que às mulheres em si. O Inter resolveu que seria uma boa ideia compartilhar uma mensagem que desmerece os avanços das mulheres, escrevendo que “mesmo depois de tantos títulos, a maior conquista delas continua sendo a nossa admiração”.  O show de constrangimento parecia completo, até que o América Mineiro usou um trecho de “Elegia”, de Caetano Veloso, como forma de homenagem a suas torcedoras e levou a coisa toda a um nível completamente novo.

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Foi destacável que, em meio à tanta irresponsabilidade e falta de bom senso e tato dos clubes, houve, por parte dos próprios torcedores, ainda que em pequeno número, questionamentos relevantes, como a ausência de mulheres em cargos de gestão e a falta de representatividade nas fotos de torcedoras. A aprovação da maioria não significa que não haja descompasso dos clubes com o momento em que nos encontramos como sociedade. Se as mulheres tivessem maior participação dentro dos próprios clubes e, sobretudo, na criação de conteúdo, talvez o discurso preponderante não fosse tão raso, condescendente e objetificador e publicações como as dos quatro clubes citados no título da matéria apareceriam em número muito maior.